Pelo menos cinco países da NATO no flanco leste europeu estão a tentar receber mais tropas americanas depois de Donald Trump ter anunciado a retirada de pelo menos 5.000 soldados dos Estados Unidos atualmente estacionados na Alemanha. Polónia, Estónia, Lituânia, Letónia e Roménia já manifestaram interesse em acolher uma presença militar americana reforçada, tanto em declarações públicas como através de contactos diplomáticos nos bastidores, avança o ‘POLITICO’.
A corrida começou depois de Trump anunciar a redução do contingente na Alemanha, no contexto de uma tensão crescente com Berlim. A disputa foi agravada por declarações do chanceler alemão, Friedrich Merz, que acusou Teerão de ter “humilhado” Washington com as suas táticas negociais durante a guerra no Irão.
Para os países do flanco leste, muitos dos quais fazem fronteira com a Rússia ou estão próximos da sua esfera de ameaça, a presença militar dos Estados Unidos continua a ser vista como a principal garantia de segurança. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, estes aliados têm defendido uma maior presença americana como elemento de dissuasão perante Moscovo.
Roménia, Polónia e Bálticos fazem apelo público
A Roménia foi uma das vozes mais claras. O vice-ministro da Defesa, Sorin Moldovan, disse ao ‘POLITICO’ que uma presença americana mais forte no flanco leste é “necessária” e que Bucareste acolheria uma presença permanente dos Estados Unidos no seu território. Também o ministro da Defesa romeno, Radu Miruță, afirmou esta terça-feira que o país precisa de “mais tropas”.
A Polónia e a Lituânia fizeram apelos semelhantes. O presidente polaco, Karol Nawrocki, e o presidente lituano, Gitanas Nausėda, disseram estar disponíveis para receber mais militares americanos. A ministra dos Negócios Estrangeiros da Letónia, Baiba Braže, também defendeu o reforço da presença dos Estados Unidos.
A Estónia, por sua vez, afirmou valorizar “muito” o contributo americano e apoiar uma presença alargada dos Estados Unidos para garantir uma dissuasão e defesa robustas nos países bálticos.
Diplomacia nos bastidores
Além dos apelos públicos, há também movimentações diplomáticas discretas. Segundo um diplomata sénior da NATO citado pelo ‘POLITICO’, pelo menos uma delegação aliada abordou diretamente o embaixador americano junto da Aliança Atlântica, Matthew Whitaker, para defender a sua candidatura.
A lógica é simples: se os Estados Unidos vão mesmo retirar tropas da Alemanha, os países mais próximos da Rússia querem que esses soldados sejam redistribuídos para leste, em vez de regressarem aos Estados Unidos.
No papel, a estratégia pode estar a produzir algum efeito. Trump admitiu no sábado que “poderia” deslocar tropas americanas para a Polónia, sublinhando a sua boa relação com o Presidente polaco. Ainda assim, a decisão final cabe ao Pentágono, que ainda não determinou quais unidades serão afetadas pela retirada da Alemanha nem se esses militares ficarão na Europa.
Polónia enfrenta tensão interna
A possibilidade de receber mais tropas americanas também abriu uma frente política interna na Polónia. O primeiro-ministro Donald Tusk avisou que Varsóvia não deve “roubar” soldados a outros aliados, apesar de estar disponível para aproveitar qualquer oportunidade de aumentar a presença dos Estados Unidos no país.
Tusk sublinhou que não permitirá que a Polónia seja usada para quebrar a unidade europeia. A posição contrasta com o entusiasmo do Presidente Nawrocki, seu adversário político, que tem defendido uma presença americana reforçada.
Na Alemanha, as autoridades locais das regiões onde estão estacionadas tropas americanas preferem que os soldados permaneçam, também pelo impacto económico. Mas, segundo uma fonte alemã citada pelo ‘POLITICO’, o Governo de Berlim dificilmente se oporia a uma presença americana mais robusta junto à fronteira com a Rússia, se essa decisão reforçar a dissuasão da NATO.
Nem todos têm capacidade para receber 5.000 soldados
Apesar da vontade política, há limites práticos. Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar do centro de estudos ‘Defense Priorities’, alerta que nem todos os países da linha da frente têm capacidade imediata para receber mais 5.000 militares americanos.
Polónia e Roménia terão maior margem para acolher tropas adicionais, exigindo apenas melhorias limitadas nas infraestruturas. Nos países bálticos, porém, o espaço é mais reduzido e seriam necessários mais planeamento e construção.
Há ainda uma contradição política para a Administração Trump. O Presidente americano tem pressionado repetidamente os aliados europeus a assumirem mais responsabilidade pela própria defesa. Transferir tropas americanas para leste poderia ser visto como uma medida contrária a essa estratégia, por manter os Estados Unidos no centro da defesa convencional da Europa.
Por agora, a corrida está lançada, mas ainda sem decisão. Um alto responsável de defesa de um país do flanco leste disse ao ‘POLITICO’ que, até ao momento, os americanos ainda não abordaram formalmente os aliados sobre mudanças na sua postura militar. Ainda assim, para Polónia, Roménia e países bálticos, a retirada da Alemanha abriu uma janela de oportunidade que dificilmente será ignorada.













