As autoridades francesas defendem que devem ser mantidas medidas rigorosas de isolamento e contenção para travar a cadeia de transmissão do hantavírus, pelo menos até existir confirmação de que o vírus não sofreu mutações que o tornem mais transmissível entre humanos.
A posição foi apresentada esta terça-feira durante a primeira conferência de imprensa dedicada à atual crise sanitária, que contou com a participação da ministra da Saúde francesa, Stéphanie Rist, e de vários especialistas em doenças infecciosas.
Apesar das tentativas para tranquilizar a população, os especialistas admitiram que continuam a existir muitas dúvidas em torno do surto associado ao navio MV Hondius.
Um dos principais alertas foi deixado pelo infeciologista Xavier Lescure, que reconheceu não ser impossível que o vírus tenha sofrido alterações.
“Não é impossível que estejamos perante uma variante, com mutações que possam ter aumentado a capacidade de transmissão”, explicou o médico, citado pelo LaVanguardia.
Segundo os especialistas franceses, será necessária a sequenciação completa do vírus para confirmar se se trata exatamente da variante histórica Andes, conhecida por ser a única estirpe de hantavírus com capacidade de transmissão entre humanos através de contacto próximo.
Enquanto não houver certezas, França pretende manter aquilo que os especialistas descrevem como “medidas maximalistas”, incluindo isolamento rigoroso, uso de máscara, lavagem frequente das mãos e ausência de contacto próximo.
Sequenciação está a ser realizada em Paris e Zurique
O virologista Olivier Schwartz revelou que estão atualmente a decorrer duas análises genéticas independentes ao vírus, uma no Instituto Pasteur, em Paris, e outra em Zurique.
Os primeiros resultados preliminares foram comparados com a variante histórica Andes e, para já, não parecem existir alterações significativas. Ainda assim, os especialistas sublinham que será necessário concluir todos os estudos antes de afastar definitivamente o cenário de mutação.
As autoridades de saúde francesas confirmaram também que a passageira francesa infetada após a viagem no MV Hondius continua internada em estado crítico no hospital Bichat, em Paris.
A mulher encontra-se em cuidados intensivos, ligada a um pulmão artificial e a um sistema de circulação sanguínea externa, enquanto os médicos aguardam sinais de recuperação da fase mais grave da doença.
Foi ainda revelado que a paciente sofre de asma, condição considerada um fator adicional de risco.
Os especialistas destacaram a rapidez com que o quadro clínico pode piorar nos casos de hantavírus. Em apenas dois ou três dias, sintomas ligeiros como febre ou fadiga podem evoluir para insuficiência respiratória grave.
França quer coordenação europeia para travar surtos
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lescure, defendeu uma maior coordenação internacional entre os países europeus para garantir protocolos sanitários uniformes.
Numa mensagem publicada na rede social X, o governante afirmou que “uma melhor coordenação internacional é indispensável” e apelou ao reforço da cooperação no espaço Schengen e na União Europeia para acelerar a troca de informações sobre casos suspeitos.
Os especialistas franceses admitem que o atual surto poderá também representar uma oportunidade inédita para aprofundar o conhecimento científico sobre o hantavírus e melhorar futuras respostas sanitárias.
Hantavírus pode sobreviver semanas no ambiente
Outro dos alertas deixados durante a conferência diz respeito à resistência do vírus no ambiente.
Segundo Xavier Lescure, partículas provenientes da urina de roedores infetados podem permanecer durante semanas sob a forma de poeiras contaminadas, mantendo o risco de inalação por humanos.
Os especialistas franceses admitem ainda que continuam sem dados suficientes para determinar se a doença afeta mais gravemente idosos, jovens ou crianças. Os casos conhecidos até agora indicam que os efeitos nos mais novos são semelhantes aos registados em adultos.



