Keir Starmer enfrenta a maior crise desde que chegou ao poder no Reino Unido. Menos de dois anos depois de ter levado o Partido Trabalhista a uma maioria absoluta no Parlamento britânico, o primeiro-ministro está sob pressão crescente dentro do próprio partido, com dezenas de deputados a pedirem a sua saída, ministros a defenderem uma transição organizada e três membros do Governo a apresentarem demissão.
A crise foi agravada pelos resultados eleitorais considerados desastrosos para os trabalhistas nas recentes eleições locais e regionais. Segundo a imprensa britânica, mais de 70 deputados do Labour já terão perdido confiança na capacidade de Starmer liderar o partido até às próximas legislativas.
O ‘POLITICO’ aponta mesmo para cerca de 89 deputados a pedir a sua saída, enquanto aliados do primeiro-ministro tentam organizar uma demonstração de força com mais de 100 assinaturas contra uma disputa imediata pela liderança.
Starmer rejeita, para já, abandonar o cargo. Depois da reunião semanal do gabinete, o primeiro-ministro disse aos ministros que o processo para a sua destituição “não foi iniciado” e que, por isso, continuará em funções. A sua linha pública é clara: abrir agora uma batalha interna mergulharia o país no caos e poderia beneficiar a oposição, incluindo o Reform UK de Nigel Farage.
Mas a pressão aumenta. A ministra do Interior, Shabana Mahmood, terá aconselhado Starmer a preparar uma transição “ordeira” e a considerar um calendário para a sua saída. Três ministros — Miatta Fahnbulleh, Jess Phillips e Alex Davies-Jones — deixaram o Governo, com Davies-Jones a classificar a dimensão das derrotas eleitorais como “catastrófica”.
O que desencadeou a crise?
O ponto de rutura foram os maus resultados eleitorais do Partido Trabalhista.
A escala das derrotas levou vários deputados e membros do Governo a questionarem se Starmer ainda tem condições para liderar o Labour nas próximas legislativas. A preocupação central é simples: muitos trabalhistas temem que o primeiro-ministro, apesar da vitória histórica de 2024, se tenha tornado incapaz de reconquistar o eleitorado que abandonou o partido nas urnas.
A vitória de Starmer em julho de 2024 foi expressiva em número de lugares: 411 deputados num Parlamento de 650. Mas foi menos robusta em termos de voto popular, com 33,7%. Essa fragilidade tornou-se agora politicamente mais visível.
A contestação ganhou força porque a crise não está apenas na bancada parlamentar. Entrou no Governo.
Quando ministros começam a pedir uma transição organizada, a questão deixa de ser apenas uma rebelião de deputados descontentes. Passa a ser uma crise de autoridade no centro do poder.
O que está em cima da mesa?
Há três cenários principais.
O primeiro é Starmer resistir. É, neste momento, a posição oficial de Downing Street. O primeiro-ministro insiste que continuará no cargo, que pretende governar até 2029 e que está disposto a enfrentar qualquer desafio interno.
O segundo é uma saída negociada. Neste cenário, Starmer não cairia de imediato, mas aceitaria definir um calendário para a sucessão, permitindo ao Partido Trabalhista organizar uma transição sem colapso governativo. Esta parece ser a hipótese defendida por alguns membros do Governo que não querem uma rutura abrupta, mas também já não acreditam na continuidade plena do líder.
O terceiro é uma disputa interna. Para que isso aconteça, um candidato à liderança precisaria de reunir apoio suficiente entre os deputados trabalhistas. A POLITICO refere que seriam necessários 80 apoios para lançar formalmente uma disputa. Apesar de o número de críticos de Starmer já ultrapassar esse patamar, ainda não há um candidato assumido com apoios consolidados.
É por isso que Westminster está em suspenso. Muitos querem que Starmer saia, mas ninguém quer avançar cedo demais e falhar.
Porque é que uma mudança de líder não implica necessariamente eleições?
No sistema britânico, o primeiro-ministro não é eleito diretamente pelos eleitores.
É líder do partido que tem maioria na Câmara dos Comuns. Se Starmer sair da liderança trabalhista, o Labour pode escolher um novo líder e esse novo líder pode tornar-se primeiro-ministro sem eleições legislativas imediatas, desde que mantenha o apoio da maioria parlamentar.
Foi isso que aconteceu várias vezes nos últimos anos com os conservadores. O Reino Unido teve sucessivos primeiros-ministros sem eleições gerais imediatas, incluindo Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak.
Se Starmer cair, o Reino Unido pode ter o sexto primeiro-ministro em seis anos, ou o sétimo em dez, sem que a solução da crise passe necessariamente por novas legislativas.
A decisão ficaria, em primeiro lugar, nas mãos dos trabalhistas: deputados, estruturas internas e militantes.
Quem pode suceder a Starmer?
Wes Streeting é, neste momento, um dos nomes mais observados.
O ministro da Saúde vem da ala direita do Partido Trabalhista e é associado ao espaço político mais próximo do blairismo. Tem 43 anos, é deputado por Ilford North e tem ambição reconhecida dentro do partido.
Streeting pode partir em vantagem se a disputa for rápida, porque já tem rede parlamentar e visibilidade nacional. Mas também carrega riscos. A proximidade a figuras do blairismo, como Peter Mandelson, pode prejudicá-lo junto de setores mais à esquerda e entre militantes que rejeitam um regresso a essa matriz política.
O silêncio de Streeting depois da reunião de gabinete desta terça-feira está a ser lido em Westminster como um sinal a acompanhar. Para já, não avançou. Mas muitos olham para ele como o potencial desafiante mais preparado para uma corrida imediata.
Angela Rayner: popular, mas condicionada
Angela Rayner foi vice de Starmer no Governo e no Partido Trabalhista até setembro de 2025, quando se demitiu por causa de uma questão fiscal relacionada com uma casa que possuía.
É uma figura da esquerda moderada trabalhista, com forte ligação às origens de classe trabalhadora e boa capacidade de comunicação com o eleitorado tradicional do Labour.
Rayner tem currículo governativo em áreas como habitação e direitos laborais e é vista por muitos como uma política genuína, com ligação às bases do partido.
O problema é o calendário. A questão fiscal ainda pode condicionar uma eventual candidatura. Se a sucessão avançar já, Rayner pode não estar em condições ideais para disputar a liderança. Se houver uma transição mais lenta, ganha tempo.
Andy Burnham: popular, mas fora do Parlamento
Andy Burnham, presidente da Câmara da Grande Manchester, é uma das figuras trabalhistas mais populares no Reino Unido.
Já tentou liderar o partido em 2010 e 2015, e hoje poderia apresentar-se numa posição mais forte, com perfil capaz de fazer ponte entre a esquerda e o centro do Labour.
O problema é institucional: Burnham não é deputado. E, para liderar o Partido Trabalhista e tornar-se primeiro-ministro, teria primeiro de regressar à Câmara dos Comuns.
Isso exigiria uma eleição intercalar, com todos os riscos associados. Teria de haver uma vaga segura, uma candidatura rápida e uma vitória. Numa fase de turbulência e com o Reform UK a crescer em algumas zonas, esse caminho não é isento de perigo.
Por isso, Burnham precisa de tempo. Uma saída imediata de Starmer favorece Streeting. Uma transição mais longa poderia favorecer Burnham.
Ed Miliband: o regresso possível
Ed Miliband, atual ministro do Ambiente, já liderou o Partido Trabalhista entre 2010 e 2015.
Chegou à liderança de forma inesperada, derrotando o irmão David Miliband, então visto como favorito. Acabou por sair depois da derrota nas legislativas de 2015, mas manteve-se no Parlamento e foi recuperado por Starmer para o Governo.
Miliband não anunciou ambições, mas pode surgir como solução se a corrida interna ficar bloqueada entre nomes mais divisivos.
É popular entre muitos militantes, tem experiência de liderança e pode funcionar como figura de continuidade com alguma distância em relação ao núcleo mais impopular de Starmer.
A sua fraqueza é evidente: já perdeu uma eleição geral como líder. Mas, em cenário de crise, essa experiência também pode ser apresentada como vantagem.
Shabana Mahmood: a ministra que pediu uma saída ordenada
Shabana Mahmood ganhou destaque por ter aconselhado Starmer a preparar um calendário para a sua saída.
Ministra do Interior, é uma figura da ala Blue Labour, mais culturalmente conservadora e focada nas preocupações dos trabalhadores. Tem defendido uma linha dura contra a imigração irregular e é vista como uma voz importante no equilíbrio interno do partido.
A grande pergunta é se dará o passo seguinte.
Se Mahmood se demitir, a crise de Starmer pode entrar numa nova fase. Até agora, permanece no Governo. Mas o facto de ter pedido em privado uma transição organizada mostra que a dúvida sobre a liderança chegou ao núcleo do executivo.
Outros nomes possíveis
John Healey, ministro da Defesa, pode surgir como solução de compromisso ou liderança de transição.
Tem experiência parlamentar, prestígio internacional e perfil atlantista, com apoio firme à Ucrânia e uma posição cautelosa em relação a Donald Trump. Aos 66 anos, não seria necessariamente uma aposta geracional, mas poderia oferecer estabilidade.
Catherine West, deputada por Hornsey and Friern Barnet, chegou a admitir que poderia avançar caso ninguém desafiasse Starmer. Mais tarde reconheceu falta de apoios e passou a defender sobretudo um calendário de saída.
Al Carns, secretário de Estado das Forças Armadas, é um nome mais inesperado. Ex-Royal Marine, condecorado pela experiência no Afeganistão e deputado apenas desde 2024, tem perfil militar e biografia distinta, mas pouca implantação parlamentar para uma corrida deste peso.
Porque é que ninguém avança já?
Porque todos estão a medir riscos.
Uma candidatura falhada pode destruir carreiras. Um desafio lançado cedo demais pode permitir a Starmer reorganizar apoios e apresentar-se como vítima de uma manobra interna. Uma transição demasiado agressiva pode dividir o partido e abrir espaço à oposição.
Há também uma questão estratégica: se Starmer cair sem plano, o Labour pode parecer tão caótico como os conservadores nos anos de sucessão entre Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak.
É esse o argumento dos leais ao primeiro-ministro.
Um grupo de apoiantes de Starmer recolheu mais de 100 assinaturas numa carta que defende que “não é hora para uma disputa pela liderança”. Para estes deputados, mudar de líder agora seria oferecer a Nigel Farage e aos conservadores uma imagem de desordem.
O que acontece agora?
O momento-chave será perceber se a pressão interna continua a subir nos próximos dias.
Há três sinais a observar.
O primeiro é se mais ministros se demitem.
O segundo é se Shabana Mahmood abandona o Governo depois de ter defendido uma transição organizada.
O terceiro é se Wes Streeting, Andy Burnham ou outro potencial sucessor assume publicamente disponibilidade para disputar a liderança.
Enquanto isso não acontecer, Starmer pode resistir. Mas fica politicamente enfraquecido.
A crise já não é apenas sobre resultados eleitorais. É sobre confiança, autoridade e capacidade de o primeiro-ministro convencer o próprio partido de que ainda pode ganhar de novo.
Para já, Starmer diz que fica. Mas, em Westminster, a pergunta já mudou: não é apenas se ele consegue sobreviver à semana. É se ainda consegue liderar o Labour até 2029.












