Seis voos e 70 pessoas transferidas: como a UE coordenou a evacuação do ‘MV Hondius’ devido ao hantavírus

Operação foi desencadeada depois de Espanha ter ativado, a 6 de maio, o Mecanismo de Facilitação da Evacuação, dias antes de o navio chegar às Ilhas Canárias

Francisco Laranjeira

O surto de hantavírus detetado no navio de cruzeiro ‘MV Hondius’ levou a União Europeia a coordenar uma operação complexa de evacuação e repatriamento a partir de Tenerife, entre os dias 10 e 11 de maio. Apesar de as autoridades insistirem que o risco para a saúde pública era “muito baixo”, o caso colocou vários Estados-membros em alerta e exigiu uma resposta internacional através do Mecanismo Europeu de Proteção Civil.

Segundo o ’20 Minutos’, a operação foi desencadeada depois de Espanha ter ativado, a 6 de maio, o Mecanismo de Facilitação da Evacuação, dias antes de o navio chegar às Ilhas Canárias.

O ‘MV Hondius’ acabou por atracar no porto de Granadilla de Abona, em Tenerife, devido ao mau tempo, embora o acordo inicial com o governo regional previsse apenas que ficasse fundeado ao largo da ilha.

A partir desse momento, Bruxelas passou a monitorizar a operação em coordenação com os governos nacionais dos países afetados.

Setenta pessoas evacuadas em seis aviões médicos

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No total, 70 passageiros e tripulantes foram transferidos de Tenerife em seis aeronaves médicas diferentes.

Houve ainda uma ambulância aérea, neste caso um helicóptero, utilizada para uma transferência das ilhas para a Noruega.

Foram realizados voos de Tenerife para Madrid, Irlanda, Grécia, Países Baixos, França e Noruega. Além disso, ocorreram transferências adicionais dos Países Baixos para a Turquia e para o Reino Unido.

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Em Espanha, 14 cidadãos espanhóis foram internados no Hospital Gómez Ulla, em Madrid, unidade que recebeu os passageiros nacionais afetados pelo surto.

Além dos voos enquadrados no Mecanismo Europeu de Proteção Civil, houve ainda dois voos fora desse âmbito, com ligações entre Tenerife e o Reino Unido e entre Tenerife e a Turquia.

Posto de comando europeu criado a 9 de maio

A Comissão Europeia confirmou que foi instalado um posto de comando comunitário a partir de 9 de maio para coordenar a operação.

O objetivo era garantir uma resposta rápida, segura e articulada entre Espanha, Bruxelas e os países de origem dos passageiros e tripulantes.

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O caso envolveu não apenas Estados-membros da União Europeia, mas também países associados ao Mecanismo Europeu de Proteção Civil, como a Noruega e a Turquia.

Este mecanismo permite coordenar respostas a catástrofes naturais, emergências sanitárias e situações provocadas pelo homem, sempre que a dimensão da crise ultrapassa a capacidade de resposta isolada de um país.

Como funciona o Mecanismo Europeu de Proteção Civil?

O Mecanismo Europeu de Proteção Civil coordena a assistência entre os países participantes em situações de emergência.

Os seus objetivos passam por reforçar a cooperação entre autoridades nacionais, aumentar a preparação para catástrofes e garantir uma ajuda rápida e eficaz às populações afetadas.

Além dos 27 países da União Europeia, participam também vários países terceiros, incluindo Albânia, Bósnia e Herzegovina, Islândia, Macedónia do Norte, Moldávia, Montenegro, Noruega, Sérvia, Turquia e Ucrânia.

Qualquer país do mundo, assim como as Nações Unidas, as suas agências ou outras organizações internacionais, pode pedir assistência quando uma emergência supera a sua capacidade de resposta.

Quando isso acontece, o Centro de Coordenação de Resposta de Emergência, conhecido como ERCC, mobiliza a ajuda ou os conhecimentos disponibilizados pelos países participantes.

Desde 2001, este mecanismo foi ativado mais de 770 vezes dentro e fora da União Europeia.

Espanha agradecida pela OMS

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, agradeceu a resposta de Espanha durante uma conferência de imprensa em Moncloa, ao lado do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

“Os países devem ajudar os seus cidadãos a evitar ficarem à deriva no mar quando têm capacidade para gerir os riscos com segurança”, afirmou.

Tedros Adhanom sublinhou que todos os casos suspeitos e confirmados foram isolados e estavam a ser tratados sob rigorosa supervisão médica.

“Não há indicação de um surto maior, mas a situação pode mudar”, alertou.

O responsável da OMS deixou ainda uma mensagem de reconhecimento a Espanha pela “solidariedade” demonstrada.

“Os vírus não conhecem fronteiras. A nossa maior imunidade vem da solidariedade, como a demonstrada pela Espanha”, afirmou.

Risco para a população continua a ser considerado baixo

Apesar da operação internacional e da atenção mediática em torno do ‘MV Hondius’, as autoridades europeias e internacionais têm insistido que o risco para a população em geral é baixo.

O hantavírus transmite-se habitualmente através do contacto com roedores infetados ou com excreções contaminadas. No caso do vírus Andes, associado ao surto no navio, existe possibilidade de transmissão entre pessoas, mas apenas em contextos de contacto muito próximo.

Foi essa característica que levou as autoridades a optar por uma evacuação controlada, isolamento dos casos suspeitos e confirmados e transporte médico especializado.

O objetivo foi evitar exposição desnecessária, garantir acompanhamento clínico e permitir o regresso dos passageiros e tripulantes aos seus países de origem em condições de segurança.

Um alerta sanitário com resposta europeia

O caso do ‘MV Hondius’ mostrou como uma emergência sanitária a bordo de um navio pode rapidamente tornar-se uma operação internacional.

O surto mobilizou Espanha, Bruxelas, vários Estados europeus e países associados ao sistema de proteção civil da União Europeia.

Entre aviões médicos, transferências hospitalares, isolamento de casos e coordenação internacional, a resposta ao surto foi tratada como uma operação de proteção civil e saúde pública, mesmo num cenário em que o risco geral foi considerado muito baixo.

A grande preocupação das autoridades foi impedir que passageiros e tripulantes ficassem retidos no mar e garantir que cada país pudesse receber os seus cidadãos com acompanhamento médico adequado.

O ‘MV Hondius’ tornou-se, assim, mais do que o centro de um surto raro: tornou-se um teste à capacidade europeia de coordenar evacuações sanitárias em plena crise.

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