Navio russo com alegadas peças de reatores nucleares afunda-se perto de Espanha após explosões misteriosas

O navio ‘Ursa Major’, também conhecido como ‘Sparta 3’, afundou-se a 23 de dezembro de 2024, a cerca de 60 milhas da costa espanhola, aproximadamente 96 quilómetros

Francisco Laranjeira

Um navio de carga russo suspeito de transportar componentes para dois reatores nucleares afundou-se no Mediterrâneo, ao largo de Espanha, depois de uma série de explosões ainda por explicar. O caso remonta a dezembro de 2024, mas ganhou nova dimensão após uma investigação da ‘CNN’, citada pelo ‘Kyiv Post’, que levanta a hipótese de a embarcação transportar carga sensível ligada ao setor militar russo e eventualmente destinada à Coreia do Norte.

O navio ‘Ursa Major’, também conhecido como ‘Sparta 3’, afundou-se a 23 de dezembro de 2024, a cerca de 60 milhas da costa espanhola, aproximadamente 96 quilómetros.

Segundo a investigação, o capitão russo terá dito às autoridades espanholas que a embarcação transportava “componentes para dois reatores nucleares semelhantes aos usados em submarinos”. O mesmo responsável terá afirmado não poder confirmar se a carga incluía combustível nuclear.

As autoridades espanholas indicaram que não há provas de contaminação radioativa na costa sul de Espanha.

Carga oficial levantava dúvidas

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Nos registos públicos de transporte marítimo, o destino declarado do navio era Vladivostok, no extremo oriente da Rússia.

A carga surgia descrita como duas grandes “tampas de acesso”, 129 contentores vazios e duas gruas Liebherr de grandes dimensões.

Mas, segundo a ‘CNN’, há elementos que levantaram suspeitas aos investigadores. O navio tinha saído da Rússia pouco depois de Kim Jong-un ter enviado tropas norte-coreanas para apoiar Moscovo na guerra contra a Ucrânia.

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Além disso, o ‘Ursa Major’ já tinha sido associado a operações militares russas na Síria e terá sido usado para retirar equipamento militar russo daquele país.

A investigação refere ainda que a empresa proprietária do navio, a Oboronlogistics, ligada ao Estado russo, anunciou em outubro de 2024 que as suas embarcações tinham sido autorizadas a transportar materiais nucleares.

Viagem acompanhada pela Marinha portuguesa

Durante a viagem pela costa atlântica europeia, o navio russo foi monitorizado por forças navais portuguesas.

De acordo com a informação citada pelo ‘Kyiv Post’, a Marinha portuguesa acompanhou a passagem da embarcação ao largo da zona económica exclusiva continental.

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A operação ganhou ainda mais atenção porque o navio terá sido escoltado, em parte do percurso, por dois navios militares russos: o ‘Ivan Gren’ e o ‘Aleksandr Otrakovsky’.

O envolvimento de meios militares russos à volta de um navio oficialmente carregado com gruas, contentores vazios e estruturas não identificadas aumentou as suspeitas sobre a verdadeira natureza da carga.

Três explosões e dois mortos

A 22 de dezembro, depois de deixar de ser seguido por forças portuguesas, o ‘Ursa Major’ terá reduzido drasticamente a velocidade em águas espanholas.

As autoridades de salvamento espanholas contactaram a tripulação, que inicialmente respondeu não existir qualquer emergência.

Cerca de 24 horas depois, o navio mudou abruptamente de rumo e emitiu um pedido de socorro, depois de sofrer três explosões no lado de estibordo, junto à casa das máquinas, segundo a investigação espanhola citada pela ‘CNN’.

Dois tripulantes morreram nas explosões.

Os 14 sobreviventes abandonaram a embarcação num bote salva-vidas e foram resgatados por um navio de salvamento espanhol.

Imagens analisadas pela ‘CNN’ mostravam o navio bastante inclinado, mas ainda à superfície depois das primeiras explosões.

Novas explosões antes do afundamento

Equipas espanholas chegaram a entrar no navio para procurar sobreviventes.

Segundo a investigação, encontraram a casa das máquinas selada e inspecionaram contentores que alegadamente continham lixo, redes de pesca e equipamento diverso.

Uma fonte familiarizada com o caso disse à ‘CNN’ que, nessa fase, o navio parecia relativamente estável e não dava sinais de que fosse afundar de imediato.

Mais tarde, porém, terão ocorrido novas explosões junto à embarcação.

De acordo com o ‘Kyiv Post’, a ‘CNN’ refere que o navio militar russo ‘Ivan Gren’ ordenou então a outras embarcações que se mantivessem afastadas da zona.

A Rede Sísmica Nacional espanhola detetou quatro sinais sísmicos aproximadamente à mesma hora, com padrões que as autoridades consideraram compatíveis com explosões submarinas ou detonações.

Ao final da noite, o ‘Ursa Major’ tinha-se afundado.

Possível rota para a Coreia do Norte

A investigação da ‘CNN’ acrescenta outro dado sensível: o capitão russo, identificado como Igor Anisimov, terá dito mais tarde aos investigadores que acreditava que o navio poderia acabar por ser redirecionado para o porto norte-coreano de Rason.

Essa possibilidade aumentou as interrogações sobre a carga.

Investigadores espanhóis questionaram por que razão um navio faria uma rota marítima tão longa transportando apenas gruas, contentores vazios e carga não identificada, quando a Rússia dispõe de uma vasta rede ferroviária que liga o ocidente ao extremo oriente do país.

A ‘CNN’ sugere que as gruas poderiam ter como finalidade ajudar a descarregar carga sensível à chegada.

Aviões americanos sobrevoaram a zona

Depois do afundamento, a zona do naufrágio registou atividade militar invulgar.

Dados públicos de voo citados pela ‘CNN’ indicam que aviões americanos WC-135R sobrevoaram a área duas vezes após o afundamento.

Estes aparelhos são normalmente usados para detetar contaminação radioativa e recolher dados atmosféricos relacionados com material nuclear.

Um porta-voz da 55ª Ala da Força Aérea dos Estados Unidos confirmou que a missão típica destes aviões apoia a recolha e análise de detritos nucleares, mas recusou comentar operações ou conclusões específicas.

As autoridades espanholas, por sua vez, afirmaram que não foram detetados sinais de contaminação radioativa na costa sul do país.

Destroços estão a 2.500 metros de profundidade

O navio encontra-se agora a cerca de 2.500 metros de profundidade no Mediterrâneo.

Segundo o Governo espanhol, recuperar o gravador de dados da embarcação implicaria riscos técnicos significativos.

Esse detalhe dificulta a investigação e pode atrasar ou limitar a possibilidade de confirmar o que aconteceu nas horas que antecederam o afundamento.

Também continua por esclarecer se as explosões resultaram de acidente, sabotagem, falha técnica ou de outro tipo de ocorrência.

Um caso entre guerra, nuclear e Coreia do Norte

O caso do ‘Ursa Major’ surge num contexto de crescente aproximação entre Moscovo e Pyongyang, com a Coreia do Norte a fornecer apoio militar à Rússia e a receber, segundo várias acusações ocidentais, contrapartidas tecnológicas e estratégicas.

A possibilidade de um navio russo transportar componentes ligados a reatores nucleares e de poder ter como destino final a Coreia do Norte torna o episódio particularmente sensível.

Para já, há mais suspeitas do que certezas.

Sabe-se que o navio russo se afundou perto de Espanha após várias explosões. Sabe-se que a tripulação declarou carga ligada a componentes de reatores nucleares. Sabe-se que a embarcação foi acompanhada por navios militares russos e monitorizada por forças portuguesas. E sabe-se que aviões americanos especializados em deteção nuclear sobrevoaram depois a zona.

O que falta saber é o essencial: que carga transportava realmente o Ursa Major, porque explodiu e qual era o seu destino final.

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