Os modelos sazonais estão a apontar para o regresso do El Niño a partir de meados de 2026, com potencial para se tornar num episódio muito forte e agravar fenómenos meteorológicos extremos em várias regiões do mundo. A ‘Euronews’ escreve que alguns cientistas admitem mesmo a possibilidade de um dos eventos mais intensos de sempre, embora as previsões ainda tenham margem de incerteza.
A Organização Meteorológica Mundial confirmou, a 24 de abril, que há uma probabilidade crescente de desenvolvimento de El Niño a partir de meados de 2026, com impacto nos padrões globais de temperatura e precipitação. A NOAA, a agência americana para os oceanos e a atmosfera, indicava em abril que as condições neutras ainda predominavam, mas que o El Niño poderia surgir entre maio e julho, com 61% de probabilidade, e persistir até ao final do ano.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenómeno climático natural e cíclico associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial.
Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e pode mexer com os padrões de chuva, seca, tempestades e temperatura em várias partes do planeta.
O nome vem do espanhol e significa “o menino”, numa referência ao Menino Jesus, porque o fenómeno era observado por pescadores da América do Sul perto da época do Natal.
O fenómeno oposto chama-se La Niña e está associado ao arrefecimento anormal das águas do Pacífico equatorial.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o El Niño ocorre normalmente a cada dois a sete anos e costuma durar entre nove e 12 meses.
Porque é que este El Niño preocupa os cientistas?
A preocupação está na quantidade de calor acumulada no Pacífico.
Segundo a ‘Euronews’, cientistas climáticos apontam para anomalias de água quente em profundidade com volume e intensidade invulgares. Esse calor está a deslocar-se para leste e a subir em direção à superfície, um dos sinais iniciais de formação do El Niño.
Daniel Swain, cientista climático do California Institute for Water Resources, citado pela ‘Euronews’, afirma que ainda não é garantido que se trate de um “super El Niño”, mas admite que existe potencial para algo “genuinamente notável”.
A expressão “super El Niño” é usada informalmente para descrever episódios muito fortes, mas não é uma designação oficial da NOAA. Ainda assim, o termo costuma ser aplicado a eventos em que o aquecimento do Pacífico equatorial ultrapassa valores particularmente elevados.
O que pode acontecer ao clima mundial?
Se o Pacífico libertar muito calor para a atmosfera, o sistema climático global pode ficar ainda mais instável.
Na prática, isso pode significar ondas de calor mais intensas, secas agravadas em algumas regiões e mais humidade disponível na atmosfera, aumentando o risco de cheias e precipitação extrema noutras zonas.
Jeff Berardelli, meteorologista-chefe e especialista em clima da WFLA-TV, em Tampa, na Florida, antecipa que o mundo poderá assistir a fenómenos meteorológicos “nunca vistos na história moderna”.
O El Niño também tende a influenciar a época de furacões no Atlântico. Em muitos anos, este fenómeno reduz a atividade de furacões naquela bacia, porque altera os ventos em altitude e dificulta a organização dos sistemas tropicais. Ainda assim, isso não significa ausência de risco: os efeitos variam por região e dependem da intensidade do fenómeno.
E a Europa e Portugal?
O impacto do El Niño na Europa é geralmente menos direto do que noutras regiões, como América do Sul, Sudeste Asiático, Austrália, Índia, África ou América do Norte.
Ainda assim, a Europa pode sentir efeitos indiretos através da alteração dos padrões atmosféricos no Atlântico Norte, da temperatura global e da circulação de massas de ar.
Para Portugal, não há uma relação simples e automática entre El Niño e um determinado tipo de tempo. Ou seja, não é correto dizer que El Niño significa necessariamente mais calor, mais chuva ou mais seca no país.
O que pode acontecer é um aumento do risco de extremos num contexto já marcado pelo aquecimento global. Se o El Niño elevar ainda mais a temperatura média do planeta, episódios de calor intenso podem tornar-se mais prováveis ou mais severos em várias regiões, incluindo a Europa.
Porque pode haver recordes de temperatura?
O El Niño tende a elevar temporariamente a temperatura média global, porque liberta calor acumulado no oceano para a atmosfera.
Mas os cientistas sublinham que o fenómeno natural não explica sozinho os recordes recentes. O ponto de fundo é o aquecimento global causado pela atividade humana, sobretudo pela queima de combustíveis fósseis.
Michael Mann, cientista climático da Universidade da Pensilvânia, citado pela ‘Euronews’, lembra que o El Niño pode aumentar as temperaturas globais durante um ou dois anos, mas é um fenómeno oscilatório. Depois tende a dar lugar a condições mais próximas de La Niña, que têm efeito temporariamente arrefecedor.
O problema, defende o especialista, é a tendência de longo prazo: enquanto as emissões de gases com efeito de estufa continuarem, o planeta continuará a aquecer.
Amazónia entre as regiões vulneráveis
A ‘Euronews’ destaca também a preocupação com a Amazónia, onde a degradação florestal, provocada por incêndios, abate de árvores e seca, já afeta cerca de 40% da floresta.
Um El Niño forte em 2026 poderia agravar a pressão sobre este ecossistema, ao aumentar o risco de secas e incêndios em regiões vulneráveis.
Outras zonas do mundo podem enfrentar impactos diferentes: seca em algumas áreas tropicais, cheias noutras, ondas de calor mais prolongadas e perturbações na agricultura, no abastecimento de água e na saúde pública.
O que ainda não se sabe?
Apesar dos sinais fortes, os cientistas mantêm cautela.
A Organização Meteorológica Mundial alerta que as previsões feitas na primavera têm maior margem de erro, um fenómeno conhecido entre meteorologistas como a “barreira da previsibilidade da primavera”.
Ou seja, há confiança crescente de que o El Niño se forme, mas ainda não há certeza sobre a sua intensidade final.
A diferença é importante. Um El Niño moderado pode alterar padrões meteorológicos e elevar temperaturas globais. Um El Niño muito forte pode amplificar extremos climáticos e aumentar o risco de recordes de calor, secas severas e precipitação extrema.
A grande conclusão é que o El Niño pode ser o acelerador de um sistema climático já aquecido. Sozinho, não cria a crise climática. Mas, combinado com o aquecimento global, pode tornar 2026 e 2027 anos particularmente difíceis do ponto de vista climático.








