Donald Trump rejeitou a mais recente proposta de paz apresentada por Teerão, reduzindo as expectativas de que o conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, que dura há dez semanas, possa estar perto do fim.
De acordo com o ‘The Independent’, o presidente americano classificou a resposta iraniana como “totalmente inaceitável”, numa mensagem publicada nas redes sociais.
“I don’t like it — TOTALLY UNACCEPTABLE”, escreveu Trump, pondo fim a uma semana de diplomacia cautelosa em torno de uma nova tentativa para encerrar a guerra.
A proposta iraniana foi enviada este domingo ao Paquistão, que tem desempenhado o papel de mediador.
O documento centra-se em três exigências principais: o fim dos bloqueios no Estreito de Ormuz, o levantamento das sanções americanas e a criação de garantias para pôr termo à guerra de forma permanente.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano manteve esta segunda-feira que as exigências de Teerão são “generosas” e “legítimas”, sem dar sinais de recuo perante a reação de Trump.
A tensão já teve reflexos nos mercados.
O receio de uma reabertura mais intensa do conflito fez o preço do petróleo aproximar-se dos 100 dólares por barril, cerca de 85 euros.
O que propõe o Irão?
A resposta iraniana surge depois de os Estados Unidos terem apresentado, segundo relatos citados pelo jornal britânico, um plano de 14 pontos para terminar a guerra e abrir um período negocial de 30 dias.
Teerão exige, antes de mais, o fim da guerra em todas as frentes.
A prioridade é o Líbano, onde Israel continua em confronto com o Hezbollah, grupo apoiado pelo Irão.
O Irão quer também o fim do bloqueio americano que está a apertar o tráfego marítimo de entrada e saída dos portos iranianos.
Segundo as estimativas citadas, esse bloqueio custa à economia iraniana cerca de 435 milhões de dólares por semana, aproximadamente 370 milhões de euros.
Além disso, Teerão reclama compensações pelos danos da guerra, o levantamento das sanções americanas e a libertação de ativos iranianos congelados em bancos internacionais.
“A nossa exigência é legítima: exigir o fim da guerra, o levantamento do bloqueio e da pirataria dos EUA, e a libertação dos ativos iranianos que foram injustamente congelados em bancos devido à pressão americana”, afirmou Esmaeil Baghaei, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano.
Baghaei acrescentou que a passagem segura pelo Estreito de Ormuz e a segurança regional, incluindo no Líbano, fazem parte de uma proposta “generosa e responsável”.
Porque é que Trump rejeitou?
A reação de Trump foi imediata e dura.
O presidente americano rejeitou a resposta iraniana e voltou a colocar pressão sobre Teerão, depois de já ter ameaçado, na semana passada, bombardear o Irão a um “nível e intensidade muito superiores” caso o país não aceitasse os termos propostos.
Mas Trump também enfrenta pressão interna.
Nos Estados Unidos, aumentam os apelos para reduzir o envolvimento no conflito e para que qualquer continuação dos ataques seja submetida a aprovação do Congresso.
Essa tensão política ajuda a explicar a dificuldade da negociação.
Trump quer mostrar força perante Teerão, mas também precisa de evitar que a guerra se transforme num conflito prolongado, caro e politicamente arriscado.
O programa nuclear continua no centro do impasse
O programa nuclear iraniano é o problema de fundo das negociações.
Antes do início do conflito, a 28 de fevereiro, o Irão tinha aceitado converter o urânio enriquecido existente em combustível e comprometer-se a nunca manter material nuclear necessário para produzir uma bomba, segundo mediadores de Omã.
Dez semanas depois, as exigências mudaram.
A proposta americana mais recente prevê uma moratória temporária no enriquecimento de urânio, permitindo apenas enriquecimento limitado para fins civis depois de vários anos, segundo relatos citados pelo ‘The Independent’.
O plano dos Estados Unidos inclui também inspeções rápidas da agência nuclear da ONU a instalações iranianas.
Washington quer ainda que Teerão abandone instalações subterrâneas e transfira todo o urânio enriquecido para fora do país.
Em troca, os Estados Unidos admitem levantar sanções e libertar milhares de milhões de dólares em fundos iranianos congelados no estrangeiro.
O problema é a ordem dos passos.
Washington quer garantias nucleares fortes antes de aliviar a pressão.
Teerão quer sanções levantadas, fundos libertados e compensações antes de aceitar novas conversações detalhadas.
O Estreito de Ormuz é outro ponto crítico
O Estreito de Ormuz voltou a estar no centro da crise.
Apesar de a guerra no Médio Oriente estar formalmente sob uma trégua, os últimos dias foram marcados por novos confrontos naquela zona estratégica.
Irão e Estados Unidos mantêm bloqueios marítimos como forma de pressão.
Teerão acusa Washington de bloqueio e “pirataria” na via marítima, enquanto a Marinha americana continua a limitar o acesso de navios e petroleiros ligados ao Irão.
A proposta americana, pelo contrário, insiste na abertura total do Estreito de Ormuz à navegação comercial internacional.
Washington quer também o fim do bloqueio iraniano naquela passagem marítima.
O Estreito de Ormuz é uma das rotas mais importantes do mundo para o comércio de energia.
Qualquer perturbação prolongada pode pressionar os preços do petróleo, encarecer transportes e aumentar a instabilidade económica global.
O que diz o direito internacional?
A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar estabelece que os países que fazem fronteira com estreitos internacionais não podem exigir pagamentos apenas para permitir a passagem.
A questão é relevante porque o Irão insiste na soberania e no controlo sobre o Estreito de Ormuz.
Os Estados Unidos defendem que a via deve permanecer aberta à navegação comercial.
Uma das hipóteses discutidas passaria por uma desescalada gradual durante os 30 dias de negociação.
Nesse cenário, as forças presentes na região do Golfo seriam parcialmente retiradas enquanto os diplomatas tratariam dos temas mais difíceis.
O Líbano também bloqueia o acordo
A proposta iraniana dá especial atenção ao Líbano.
Teerão quer que o fim da guerra inclua todas as frentes, sobretudo o sul do Líbano, onde o Hezbollah continua em confronto com Israel.
Os combates prosseguem apesar de um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, anunciado a 16 de abril.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, já deixou claro que um eventual fim das hostilidades com o Irão não significaria necessariamente o fim da guerra no Líbano.
Numa entrevista ao programa ‘60 Minutes’, emitida no fim de semana, Netanyahu afirmou que ainda há “mais trabalho a fazer”.
O líder israelita referia-se à remoção de urânio enriquecido do Irão, ao desmantelamento de instalações de enriquecimento, aos aliados regionais de Teerão e às capacidades iranianas em mísseis balísticos.
Porque é que é tão difícil chegar a acordo?
Há três bloqueios principais.
O primeiro é nuclear.
Washington quer garantias duras sobre o enriquecimento de urânio, inspeções internacionais e retirada de material sensível.
Teerão quer preservar capacidade nuclear civil e obter benefícios económicos antes de aceitar novas limitações.
O segundo bloqueio é económico.
O Irão exige o fim das sanções, a libertação de ativos congelados e compensações pelos danos provocados pela guerra.
Os Estados Unidos admitem aliviar sanções, mas querem usar esse alívio como moeda de troca.
O terceiro bloqueio é geopolítico.
O Estreito de Ormuz, o Líbano, o Hezbollah, os mísseis iranianos e a influência regional de Teerão tornam o acordo muito mais amplo do que um simples cessar-fogo bilateral.
É por isso que a resposta iraniana foi recebida em Washington como insuficiente, apesar de Teerão a apresentar como uma proposta “responsável” para a segurança regional.
O que pode acontecer agora?
A guerra não parece perto de uma solução imediata.
Trump rejeitou a proposta iraniana, mas enfrenta pressão interna para evitar uma escalada prolongada.
O Irão, por sua vez, não dá sinais de recuar nas exigências sobre sanções, bloqueios, compensações e garantias regionais.
Enquanto isso, o Estreito de Ormuz continua sob tensão, os combates no Líbano persistem e o preço do petróleo permanece vulnerável a qualquer novo incidente.
O resultado é um impasse perigoso.
Há canais diplomáticos abertos, mas os temas em cima da mesa são demasiado sensíveis para permitir uma saída rápida.
Para já, urânio, sanções e Ormuz continuam a ser as três palavras que explicam porque é que a paz ainda não chegou.













