O Serviço Nacional de Saúde (SNS) voltou a registar tempos de espera acima dos limites legais em milhares de consultas e cirurgias durante o segundo semestre de 2025. Os dados mais recentes divulgados pela Entidade Reguladora da Saúde (ERS) revelam um cenário de incumprimento generalizado dos Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG), com a cardiologia a destacar-se como a especialidade mais crítica.
Segundo o relatório da ERS, mais de metade das primeiras consultas hospitalares realizadas nos hospitais públicos ultrapassaram os prazos legalmente estabelecidos. No final de dezembro de 2025, mais de um milhão de utentes aguardavam por uma primeira consulta de especialidade, sendo que uma parte significativa já tinha excedido o tempo máximo previsto por lei.
Mais de metade das primeiras consultas excederam os prazos legais
A monitorização da ERS relativa ao segundo semestre de 2025 mostra que os hospitais públicos realizaram cerca de 383 mil primeiras consultas de especialidade hospitalar, excluindo cardiologia e oncologia. Apesar de representar um aumento de 1,4% face ao mesmo período de 2024, os atrasos continuam a afetar uma larga fatia dos utentes.
De acordo com os dados do regulador, 51,4% destas consultas ocorreram depois do prazo máximo garantido. Ainda assim, a ERS assinala uma ligeira melhoria de 1,7 pontos percentuais em comparação com o ano anterior.
No entanto, o número total de pessoas em espera aumentou significativamente. No final de 2025, havia 1.056.223 utentes à espera de uma primeira consulta hospitalar, o que representa uma subida de 17% face a 2024. Destes, 43,7% aguardavam para além do limite legal.
Cardiologia mantém-se como a área mais crítica
A situação mais grave continua a verificar-se na cardiologia, onde os atrasos atingem níveis particularmente elevados.
Durante o segundo semestre de 2025, os hospitais públicos realizaram 23.838 primeiras consultas de cardiologia. Contudo, 86,4% destas consultas ultrapassaram os TMRG.
No final do ano passado, estavam em lista de espera 28.234 utentes para consulta de cardiologia, sendo que 74,9% já aguardavam há mais tempo do que o legalmente permitido.
Os dados da ERS revelam ainda um agravamento nas cirurgias cardíacas. Foram realizadas 4.508 intervenções cirúrgicas nesta área, menos 4,9% do que em 2024. Além disso, quase um terço dos doentes — 32,8% — foi operado depois do prazo máximo garantido.
A lista de espera para cirurgia cardíaca também aumentou de forma expressiva. Em dezembro de 2025, estavam inscritos 2.703 utentes, mais 39,5% do que no ano anterior. Destes, 58,6% encontravam-se já em incumprimento dos prazos legais.
Oncologia também regista incumprimentos elevados
Os atrasos afetaram igualmente a área oncológica. Segundo a ERS, foram realizadas 20.977 primeiras consultas relacionadas com suspeita ou confirmação de doença oncológica, o que corresponde a um aumento de 2,8% face ao período homólogo.
Apesar do reforço da atividade, 57,5% das consultas ultrapassaram os tempos máximos garantidos.
No final do semestre, havia 8.874 utentes à espera de consulta oncológica, sendo que 65,5% já tinham excedido o prazo legal.
Também nas cirurgias oncológicas os números revelam dificuldades. Os hospitais realizaram 34.771 cirurgias programadas nesta área, menos 3% do que em 2024. Ainda assim, 20,4% dos doentes aguardaram acima do limite legalmente definido.
A lista de espera para cirurgia oncológica atingia os 8.215 utentes no final do ano, um aumento de 9% face ao ano anterior. Entre estes, 21,2% estavam fora do prazo previsto.
Cirurgias programadas diminuíram
No conjunto das cirurgias programadas realizadas nos hospitais públicos — excluindo oncologia e cardiologia — registou-se uma ligeira quebra da atividade.
Segundo o relatório da ERS, foram efetuadas 283.878 cirurgias, menos 0,7% do que no período homólogo de 2024.
Apesar disso, 13,2% dos utentes foram operados depois de ultrapassarem o tempo máximo garantido.
No final de dezembro de 2025, existiam 189.444 pessoas inscritas para cirurgia, sendo que 16,3% aguardavam para além do prazo legal.
Hospitais protocolados apresentam melhores resultados
A ERS sublinha que os prestadores protocolados registaram níveis de incumprimento bastante inferiores aos verificados no SNS.
Nas cirurgias programadas não oncológicas nem cardíacas realizadas por estes prestadores, foram efetuadas 9.963 intervenções, com uma taxa de incumprimento dos TMRG de apenas 2,6%.
Já nos chamados hospitais de destino — através da utilização de nota de transferência ou vale cirurgia — foram realizadas 13.312 cirurgias programadas, mais 4,5% do que em 2024. Ainda assim, 26,8% destas operações ultrapassaram os tempos máximos garantidos.
No relatório divulgado esta segunda-feira, a Entidade Reguladora da Saúde reconhece também que continuam a existir problemas na recolha de informação relativa aos cuidados de saúde primários.
Segundo o regulador, “mantém-se a dificuldade de obtenção de dados que permitam a aferição do incumprimento dos TMRG para os cuidados de saúde analisados, para todas as Unidades Locais de Saúde”.
A divulgação destes números surge numa altura em que o desempenho do SNS continua sob forte pressão, com críticas crescentes relacionadas com listas de espera, atrasos no acesso a consultas e cirurgias e dificuldades de resposta em várias especialidades hospitalares.













