Retrato do Ensino Superior em Portugal: Salários até 49% mais altos e retorno de 13,7 euros por cada euro investido

O ensino superior em Portugal registou uma expansão significativa nas últimas décadas, aproximando o país dos padrões europeus e consolidando-se como um factor decisivo de valorização no mercado de trabalho.

Pedro Zagacho Gonçalves

O ensino superior em Portugal registou uma expansão significativa nas últimas décadas, aproximando o país dos padrões europeus e consolidando-se como um factor decisivo de valorização no mercado de trabalho. Actualmente, os diplomados apresentam níveis de remuneração substancialmente superiores aos de quem concluiu apenas o ensino secundário, diferença que tende a aumentar ao longo da carreira. Ainda assim, persistem desigualdades no acesso e constrangimentos financeiros que colocam pressão sobre o modelo de financiamento do sistema.

Estas conclusões constam do policy paper “Ensino Superior e emprego jovem em Portugal: tendências, resultados e comparações internacionais”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), coordenado por Luís Catela Nunes e assinado também por Pedro Reis e Teresa Thomas. O estudo analisa os ganhos económicos associados à frequência do ensino superior, as transições entre o ensino secundário e o superior, os impactos no emprego e nos salários, compara custos e benefícios a nível internacional e apresenta recomendações de política pública para reforçar a equidade e a sustentabilidade do sistema.

Número de diplomados quadruplicou em 25 anos
Nos últimos 25 anos, a percentagem de jovens adultos com ensino superior quadruplicou em Portugal, passando de 11% no final da década de 1990 para 43% em 2024, praticamente ao nível da média da União Europeia, fixada em 44%. Em 2024, mais de 100 mil pessoas concluíram um curso superior, o valor mais elevado de sempre.

As licenciaturas continuam a representar a maioria das qualificações (58%), seguidas dos mestrados (33%). Esta evolução reflecte uma massificação do ensino superior que alterou profundamente o perfil educativo da população jovem portuguesa.

Transição desigual entre vias do secundário
A progressão para o ensino superior varia significativamente consoante o percurso realizado no ensino secundário. Entre os alunos dos cursos científico-humanísticos, 76% prosseguem estudos no ensino superior. Já entre os estudantes do ensino secundário profissional, apenas 22% fazem essa transição.

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O contexto familiar exerce forte influência nas escolhas educativas. Quase metade (47%) dos estudantes provenientes de famílias sem formação superior opta pelo ensino profissional, enquanto apenas 20% dos jovens com pelo menos um dos pais diplomado escolhe essa via. O estudo sublinha que estas diferenças contribuem para a reprodução de desigualdades sociais no acesso ao ensino superior.

Emprego mais elevado e salários significativamente superiores
Os dados revelam vantagens claras para quem prossegue estudos. Os mestres atingem uma taxa de emprego de 88% entre um e dois anos após a conclusão do curso e de 93% ao fim de cinco anos, valores alinhados com a média europeia. No caso dos licenciados, a taxa inicial é de 75%, mas converge para níveis semelhantes aos dos mestres ao fim de cinco anos.

Entre os diplomados do ensino secundário, os que concluíram cursos profissionais apresentam, numa fase inicial, uma taxa de emprego superior à dos cursos científico-humanísticos (72% contra 56%). Contudo, ao fim de cinco anos, a diferença é praticamente inexistente (88% face a 86%). Em termos salariais, a diferença entre as duas vias do secundário é residual (1%), mas ambas ficam muito aquém da evolução remuneratória observada entre diplomados do ensino superior.

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Comparativamente a quem concluiu apenas o ensino secundário, os licenciados auferem, em média, mais 28%, enquanto os mestres ganham mais 49%. Estas vantagens são visíveis desde o início da carreira e ampliam-se com a experiência profissional.

Áreas STEM lideram em remuneração
As áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) destacam-se pelos salários médios mais elevados, com particular relevo para Tecnologias da Informação e Comunicação, Matemática e Estatística e Engenharia. Também os cursos de Saúde, Gestão e Administração e Direito oferecem remunerações elevadas para titulares de mestrado.

Em contraste, mestres nas áreas da Educação e dos Serviços Sociais auferem, em média, cerca de metade do salário dos mestres em Tecnologias da Informação e Comunicação, evidenciando disparidades relevantes entre áreas de formação.

Retorno financeiro elevado, mas custos iniciais pesam
Do ponto de vista individual, o investimento no ensino superior revela-se altamente compensador. Considerando propinas, taxas, materiais educativos e os rendimentos sacrificados por não ingressar imediatamente no mercado de trabalho após o secundário, cada euro investido gera, em média, 13,7 euros adicionais em ganhos salariais ao longo da vida activa. Este valor é 68% superior à média da União Europeia, que se situa nos 8,2 euros.

Apesar de os custos absolutos serem relativamente baixos, o estudo alerta que, em percentagem do PIB per capita, os encargos directos são elevados face à maioria dos países europeus, tornando-se um obstáculo significativo para estudantes de baixos rendimentos.

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Sistema de financiamento sob pressão
O modelo português combina financiamento público com propinas, mas apresenta fragilidades. As despesas médias por estudante estão 35% abaixo da média europeia. Ao mesmo tempo, as famílias suportam 30% das despesas de funcionamento das instituições, mais do dobro da média da União Europeia (13%).

Perante este cenário, o estudo recomenda a adequação do financiamento público aos benefícios individuais e sociais do ensino superior, o reforço das bolsas para responder às restrições de liquidez dos estudantes mais carenciados e a eventual avaliação de um sistema de empréstimos indexados ao rendimento.

Defende ainda que eventuais revisões das propinas estejam alinhadas com a garantia de qualidade e acompanhadas de apoios dirigidos aos estudantes mais vulneráveis, prevenindo riscos de exclusão. Entre outras propostas, destaca-se a criação de um sistema estatístico nacional que integre dados da educação e do mercado de trabalho, permitindo monitorizar percursos, emprego e salários por curso, bem como o reforço da orientação profissional baseada em dados ao longo de todo o percurso académico e da vida activa.

O retrato traçado evidencia que o ensino superior em Portugal continua a ser um poderoso motor de mobilidade económica e valorização salarial, mas exige ajustamentos estruturais para garantir equidade no acesso e sustentabilidade financeira num contexto de crescente exigência social e orçamental.

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