Moscovo prepara-se para celebrar o Dia da Vitória numa versão histórica e reduzida, marcada pela ausência quase total de líderes internacionais e pela eliminação de carros militares e cadetes do desfile, devido ao que o Kremlin descreveu como a “situação operacional atual”. Tradicionalmente considerada a festa pública mais importante do ano para o presidente russo, esta edição revela o isolamento crescente da Rússia no contexto internacional, refletindo tensões contínuas com o Ocidente e o receio de possíveis ataques ucranianos.
Segundo o The Associated Press, o desfile deste ano apresenta a lista de convidados estrangeiros mais curta da história moderna de Moscovo. Apenas dois líderes internacionais confirmaram presença: Thongloun Sisoulith, presidente do Laos, e Sultan Ibrahim, monarca supremo da Malásia. O Kremlin insistiu que o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico também estaria presente, apesar de o próprio ter confirmado que não participará, alegando que poderá aproveitar a ocasião para transmitir mensagens do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky a Vladimir Putin. Para Moscovo, a eventual transmissão de mensagens ucranianas através de um líder europeu representa um revés diplomático considerável.
Entre os presentes que não têm alternativa de faltar estão os representantes das autoridades de ocupação russas nos territórios anexados. Badra Gunba, da República da Abecásia, e Alan Gagloyev, da Ossétia do Sul, confirmaram a sua presença, embora estas regiões sejam internacionalmente reconhecidas como parte da Geórgia. O aliado mais próximo de Putin, Alexander lukashenko, líder da Bielorrússia, marcará presença pelo habitual. Uma delegação da Republika Srpska, na Bósnia, também estará em Moscovo, liderada pelo antigo presidente Milorad Dodik, conhecido pelo seu ativismo político pró-Rússia e pela proibição de exercer cargos na sua própria região durante seis anos.
Ao mesmo tempo, a ausência de outros líderes internacionais foi significativa. Nikol Pashinyan, primeiro-ministro da Arménia, anunciou que não iria participar, citando compromissos com as próximas eleições parlamentares e eventos internacionais recentes em Yerevan, que incluíram a presença de vários líderes europeus e do próprio Zelensky. A Rússia considerou inaceitável a receção de Zelensky na capital arménia, com a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, classificando a situação como “uma atitude inaceitável” de um país amigo, acusando a Arménia de fornecer uma plataforma a um “terrorista”. Pashinyan respondeu que a Arménia não é aliada da Rússia na guerra contra a Ucrânia.
No plano operativo, Moscovo optou por manter o desfile praticamente inacessível aos meios de comunicação internacionais. As credenciais previamente concedidas foram revogadas, com a justificativa de “mudança no formato do evento devido à situação de segurança”. A cobertura ficará limitada aos órgãos de comunicação estatais russos, com transmissão retardada para minimizar riscos de mostrar incidentes. Medidas rigorosas de controlo de internet foram implementadas dias antes das celebrações, numa tentativa de impedir difusão não autorizada de imagens ou informação do evento.
O temor de ataques ucranianos também moldou as precauções do Kremlin. Após rejeitar uma proposta de cessar-fogo, Moscovo alertou as missões diplomáticas estrangeiras em Kyiv sobre um “inevitável contra-ataque” das forças russas, sugerindo evacuações preventivas. Zelensky indicou que alguns países tradicionalmente amigos de Moscovo questionaram a Ucrânia sobre a participação de representantes no desfile, mas não forneceram detalhes adicionais.
Esta edição do Dia da Vitória marca uma viragem na forma como Moscovo organiza e comunica a celebração, refletindo o isolamento internacional, a tensão militar e a cautela extrema perante eventuais ameaças externas, transformando um desfile antes grandioso numa cerimónia íntima, cuidadosamente controlada e limitada no seu alcance mediático e diplomático.












