Resíduo invisível, problema gigante: Europa enfrenta avalanche de vapes descartáveis nas ruas

Espalhados em passeios, abandonados em bancos de jardim, atirados para cima de papeleiras ou simplesmente largados no chão, os cigarros eletrónicos descartáveis (vulgarmente conhecidos como vapes) estão a tornar-se um novo símbolo da poluição urbana em vários países europeus.

Pedro Zagacho Gonçalves

Espalhados em passeios, abandonados em bancos de jardim, atirados para cima de papeleiras ou simplesmente largados no chão, os cigarros eletrónicos descartáveis (vulgarmente conhecidos como vapes) estão a tornar-se um novo símbolo da poluição urbana em vários países europeus. Pequenos, coloridos, leves e de utilização imediata, estes dispositivos conquistaram rapidamente mercado, sobretudo entre os consumidores mais jovens, mas a facilidade de consumo trouxe consigo um problema crescente: o impacto ambiental de um resíduo altamente complexo que, até agora, nenhum país da União Europeia conseguiu resolver de forma plenamente eficaz.

Ao contrário do que a sua aparência pode sugerir, um vape descartável está longe de ser apenas um pedaço de plástico. No seu interior coexistem vários componentes difíceis de separar e reciclar: uma bateria de lítio, circuitos eletrónicos, um atomizador responsável pelo aquecimento do líquido inalado e um reservatório com substâncias aromatizadas, com ou sem nicotina. Esta combinação transforma cada unidade num resíduo eletrónico potencialmente perigoso, que exige tratamento especializado e não pode ser descartado juntamente com o lixo doméstico comum sem riscos ambientais acrescidos.

O crescimento do consumo tem ampliado a dimensão do problema. Dados oficiais indicam que, só em 2023, foram comercializados mais de 24 milhões de euros em dispositivos deste tipo, incluindo cigarros eletrónicos e vaporizadores com e sem nicotina. Entre as opções mais procuradas destacam-se precisamente os modelos descartáveis tipo pod, que dispensam qualquer manutenção, não necessitam de recarga e apresentam preços relativamente acessíveis. A sua simplicidade de utilização tornou-os particularmente atrativos para consumidores jovens e também para fumadores que os usam em simultâneo com tabaco convencional, muitas vezes como forma de transição.

Essa popularização reflete-se nas estatísticas de consumo. Entre a população dos 15 aos 64 anos, uma fatia significativa já experimentou cigarros eletrónicos pelo menos uma vez, sendo a faixa etária entre os 15 e os 24 anos a que apresenta maior prevalência de utilização. Este crescimento tem despertado preocupações de saúde pública relacionadas com dependência de nicotina, uso em espaços fechados e banalização do consumo. Porém, paralelamente, começa a ganhar força uma outra preocupação: a incapacidade dos sistemas atuais de recolha e reciclagem para absorver o volume crescente de resíduos produzidos.

Especialistas em ambiente alertam que a legislação europeia enquadra estes dispositivos na categoria dos resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos, o que significa que a sua recolha e tratamento deveriam seguir regras específicas. Na prática, contudo, persistem falhas significativas. Muitos consumidores desconhecem como proceder ao descarte correto e, frequentemente, acabam por colocar os vapes no lixo indiferenciado ou abandoná-los no espaço público. Isso não só impede a recuperação dos materiais valiosos que contêm, como aumenta o risco de libertação de substâncias contaminantes em aterros ou instalações de tratamento.

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As baterias de iões de lítio constituem um dos maiores perigos. Quando comprimidas, perfuradas ou danificadas durante operações de recolha e triagem de resíduos, podem provocar incêndios graves em centrais de tratamento e em viaturas de recolha. Esses incidentes têm vindo a multiplicar-se em vários países europeus, gerando prejuízos elevados para operadores de resíduos, autarquias e infraestruturas ambientais. Para além dos custos económicos diretos, trata-se de um risco operacional sério para trabalhadores do sector.

Outro problema reside na falta de uniformidade entre os pontos de venda e os sistemas de recolha. Embora a responsabilidade pela gestão destes resíduos recaia, em muitos casos, sobre produtores e distribuidores, a realidade no terreno revela lacunas evidentes. Há estabelecimentos que comercializam os dispositivos mas não dispõem de qualquer mecanismo de receção para unidades usadas. Isso cria um vazio prático: o consumidor compra facilmente, mas encontra dificuldades em saber onde entregar o produto quando termina a sua utilização.

Dentro do próprio sector do vape há reconhecimento de que os modelos descartáveis representam um desafio ambiental particularmente problemático. A dificuldade de desmontagem, a integração inseparável entre bateria, plástico e componentes eletrónicos e a natureza de uso único tornam o processo de reciclagem mais complexo do que noutros produtos eletrónicos de pequenas dimensões. Mesmo quando existem canais de recolha, a taxa efetiva de retorno continua muito abaixo do necessário para garantir uma gestão sustentável.

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Perante este cenário, alguns países começaram a atuar sobretudo através de restrições comerciais. A Bélgica tornou-se, em 2025, o primeiro Estado-membro da União Europeia a proibir a venda de cigarros eletrónicos descartáveis, numa medida apresentada como resposta simultânea à crescente dependência de nicotina entre jovens e ao impacto ambiental dos produtos de uso único. França seguiu caminho semelhante, aprovando legislação que impede a comercialização, distribuição e fornecimento gratuito destes dispositivos descartáveis pré-carregados e não recarregáveis, mantendo apenas legais os sistemas reutilizáveis ou baseados em cartuchos substituíveis.

Outros países optaram por apertar a regulação do consumo em vez de avançarem diretamente para a proibição. A Finlândia implementou uma das legislações mais rígidas da Europa, restringindo sabores apelativos, publicidade, vendas online, utilização em espaços públicos e impondo controlos sanitários apertados. O objetivo nacional é reduzir drasticamente o consumo de nicotina até ao final da década. Já a Lituânia apostou num modelo centrado em canais oficiais de recolha, campanhas de sensibilização e aplicação de coimas a quem abandone este tipo de resíduo em locais impróprios.

Ainda assim, apesar de respostas dispersas, continua a faltar uma estratégia europeia comum especificamente desenhada para o resíduo dos vapes descartáveis. O problema mantém-se numa zona cinzenta: é simultaneamente uma questão de consumo, saúde pública, resíduos eletrónicos, poluição plástica e risco químico. Enquanto as autoridades debatem soluções, a realidade já é visível nas ruas: pequenos dispositivos coloridos, concebidos para durar poucos dias, permanecem meses — ou anos — no ambiente.

A crescente presença destes resíduos no espaço público tornou-se, assim, um retrato claro de um dilema moderno: produtos criados para conveniência imediata, mas sem uma resposta eficaz para o seu fim de vida. E, por enquanto, a Europa continua sem uma solução definitiva para um problema que aumenta à vista de todos.

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