O Irão poderá resistir aos efeitos do bloqueio americano durante mais três a quatro meses e mantém reservas significativas de mísseis, segundo informações dos serviços secretos dos Estados Unidos citadas pelo ‘The Independent’.
A avaliação contraria a tese de Donald Trump de que Teerão precisa de pôr fim à guerra de forma iminente.
Uma nova análise da CIA sugere que a República Islâmica está mais resistente do que Washington admitia publicamente e poderá suportar a pressão económica do bloqueio até mais tarde este ano.
O relatório confidencial foi entregue esta semana a responsáveis da Administração Trump, de acordo com quatro pessoas familiarizadas com o documento ouvidas pelo ‘The Washington Post’.
Segundo essa avaliação, o Irão conseguiu ganhar margem ao armazenar parte do petróleo em navios-tanque e ao reduzir os fluxos nos campos petrolíferos, mantendo os poços operacionais.
“Não está nem perto de ser tão grave como alguns têm dito”, afirmou uma fonte sobre a situação económica iraniana.
Petróleo em navios e rotas terrestres
A CIA considera que Teerão poderá resistir entre 90 e 120 dias antes de enfrentar dificuldades económicas mais severas, podendo até aguentar mais tempo.
O relatório aponta também para a possibilidade de o regime conseguir contornar parte do bloqueio através do contrabando de petróleo por rotas terrestres, recorrendo a camiões e caminhos de ferro.
Um responsável citado no texto admite que o Irão poderá começar a transportar algum petróleo por via ferroviária através da Ásia Central.
A avaliação agora revelada confirma indicações anteriores do ‘The Independent’, segundo as quais o Irão teria cerca de 120 dias de crude disponível para abastecer a China.
Em abril, uma análise da Kpler já apontava para um impacto menos imediato do bloqueio, devido aos “volumes substanciais” de petróleo iraniano que já se encontravam no mar.
Mísseis e lançadores continuam disponíveis
A resistência iraniana não é apenas económica.
Segundo um responsável americano, Teerão mantém cerca de 75% dos inventários de lançadores móveis que tinha antes da guerra e aproximadamente 70% das reservas de mísseis.
Estes dados entram em contradição com declarações públicas de Trump sobre a rápida degradação do arsenal iraniano.
Para alguns responsáveis americanos, a liderança iraniana tornou-se mais radical, determinada e confiante de que conseguirá resistir durante mais tempo do que a vontade política dos Estados Unidos.
Um dos oficiais citados comparou a situação a outros regimes que resistiram durante anos a embargos prolongados e a guerras conduzidas apenas por poder aéreo.
Casa Branca insiste que bloqueio está a esmagar Teerão
Apesar da avaliação da CIA, responsáveis americanos sublinham que o bloqueio está a causar danos reais à economia iraniana.
Um alto responsável dos serviços de informação afirmou que o comércio foi severamente cortado, as receitas foram esmagadas e o colapso económico sistémico está a acelerar.
“Irão viu as suas capacidades militares seriamente degradadas, a sua marinha destruída e os seus líderes escondidos”, afirmou o mesmo responsável.
A Casa Branca mantém também a linha de que Teerão está sob forte pressão.
Anna Kelly, porta-voz da Administração Trump, disse ao ‘Washington Post’ que o Irão está a perder 500 milhões de dólares por dia, cerca de 426 milhões de euros, devido ao bloqueio americano.
“Durante a Operação Epic Fury, o Irão foi esmagado militarmente”, afirmou.
“Agora está a ser estrangulado economicamente pela Operação Economic Fury e perde 500 milhões de dólares por dia graças ao bloqueio bem-sucedido dos portos iranianos pelas Forças Armadas dos Estados Unidos.”
Negociações sob pressão
A Administração Trump defende que o regime iraniano sabe que a situação atual é insustentável e que o presidente americano “tem todas as cartas” enquanto decorrem negociações para tentar alcançar um acordo.
Mas a leitura dos serviços secretos introduz uma nota de cautela nessa narrativa.
Se o Irão ainda dispõe de petróleo, rotas alternativas, lançadores móveis e uma parte significativa do arsenal de mísseis, a pressão americana poderá demorar mais tempo a produzir efeitos decisivos.
A questão central passa a ser política e militar: saber se Teerão cederá antes de a crise económica se tornar insuportável ou se tentará prolongar o conflito, apostando no desgaste da vontade política dos Estados Unidos.













