A atividade de navios russos e da chamada ‘frota fantasma’ da Federação Russa em águas sob soberania ou jurisdição portuguesa poderá ter ido além da simples passagem pelo mar nacional. O ‘Expresso’ revelou esta sexta-feira que a Marinha já terá detetado o uso de drones a partir de navios russos, uma informação mantida sob reserva e que foi comentada durante uma visita de António José Seguro à Base Naval do Alfeite, quando era candidato presidencial.
A revelação foi feita pelo deputado socialista André Pinotes Baptista, vice-presidente da Comissão Parlamentar de Infraestruturas, Mobilidade e Habitação, durante uma conferência na Assembleia da República sobre geopolítica e segurança dos cabos submarinos.
Segundo o deputado, durante uma visita ao Alfeite foi referida a existência de “visitas persistentes de viaturas não tripuladas russas, que entretanto desapareceram”. Pinotes Baptista confirmou depois ao ‘Expresso’ que a informação foi transmitida em público, perante cerca de 20 ou 30 pessoas que acompanhavam António José Seguro.
A Marinha confirmou que Seguro visitou o Comando Naval durante a pré-campanha presidencial e que recebeu um briefing sobre o funcionamento do Centro de Operações da Marinha e do Centro Coordenador de Busca e Salvamento de Lisboa.
Nesse briefing, segundo o porta-voz da Marinha, comandante Ricardo Sá Granja, foram abordadas as atividades de acompanhamento de “navios de interesse”, em concreto os da Federação Russa.
A informação estatística sobre essa vigilância já tinha sido divulgada em janeiro. Em 2025, passaram por águas portuguesas 69 navios russos ou associados à chamada ‘frota fantasma’, tendo a Marinha realizado 373 ações de monitorização.
Sobre a alegada utilização de drones, porém, a Marinha não confirmou nem desmentiu. Limitou-se a dizer que, “nos termos indicados” pelo deputado André Pinotes Baptista, não tinha “qualquer comentário adicional a fazer”.
Defesa critica divulgação de matéria reservada
O ‘Expresso’ questionou a Marinha sobre a razão pela qual esta informação não foi tornada pública, à semelhança do que aconteceu recentemente no Reino Unido, onde a deteção de meios russos em águas britânicas foi comunicada pelo secretário da Defesa.
A Marinha remeteu a resposta para o Ministério da Defesa Nacional. Já depois do fecho da edição em papel, o gabinete de Nuno Melo respondeu com críticas à divulgação pública deste tipo de informação.
“Só por irresponsabilidade se podem tratar matérias reservadas de natureza operacional na praça pública”, afirmou fonte oficial do Ministério da Defesa.
A mesma fonte defendeu que não revelar aos visados as ações e técnicas militares de fiscalização, prevenção ou vigilância “é uma questão de senso e prudência”.
O Ministério sublinhou ainda que a reserva sobre estas matérias não impede a divulgação de balanços anuais ou de informação considerada oportuna. É precisamente isso que passou a acontecer com o acompanhamento de navios russos: em vez de comunicados ao longo do ano, a informação é agora tratada de forma estatística nos balanços operacionais.
Cabos submarinos entre as principais preocupações
A possível utilização de drones por navios russos surge num contexto de crescente preocupação com a segurança das infraestruturas críticas no mar, em especial os cabos submarinos.
O Relatório Anual de Segurança Interna, divulgado no início de abril, já tinha sinalizado preocupações das autoridades portuguesas, durante 2025, com a eventual preparação de ações de sabotagem contra infraestruturas críticas, incluindo cabos submarinos.
O documento, porém, não detalhava em que moldes poderiam estar a ser preparadas essas eventuais ações.
Durante a visita ao Comando Naval, a interpretação transmitida a António José Seguro sobre o alegado desaparecimento repentino desses sistemas não tripulados terá sido que os russos poderiam ter esgotado os meios disponíveis ou, em alternativa, já ter recolhido a informação de que precisavam.
Nos últimos meses, foram reportadas várias atividades suspeitas com drones em território da NATO. Também no mar do Norte foram recentemente noticiadas atividades suspeitas de sistemas não tripulados junto de plataformas petrolíferas britânicas.
Drones aéreos, de superfície ou subaquáticos?
Ainda não é claro que tipo de sistemas não tripulados estará em causa no caso português. Podem ser drones aéreos, de superfície ou subaquáticos.
Um especialista militar ouvido pelo ‘Expresso’, sob anonimato, explicou que os meios de subsuperfície são particularmente difíceis de detetar. Pequenos submarinos de alta profundidade podem ser lançados a partir de águas internacionais para mapear cabos submarinos ou recolher informação sobre infraestruturas sensíveis.
Outra hipótese colocada por fontes ouvidas pelo jornal é que os navios russos estivessem a testar o tempo e a capacidade de resposta dos militares portugueses perante incursões de drones.
A Marinha tem previsto reforçar esta capacidade nos próximos anos. A partir de 2027, o futuro navio porta-drones deverá permitir incorporar sistemas autónomos na vigilância e inspeção do leito submarino, uma área considerada cada vez mais crítica para a segurança nacional.
O caso mostra como a presença russa no mar português deixou de ser apenas uma questão de acompanhamento naval. A preocupação passa agora pela possibilidade de recolha de informação, teste de respostas militares e vigilância de infraestruturas estratégicas, num contexto em que os cabos submarinos se tornaram um dos pontos mais sensíveis da segurança europeia.













