IA nunca será consciente, afirma estudo da Google DeepMind, mas há quem discorde

Novo estudo da Google DeepMind, laboratório de IA da gigante tecnológica, responde de forma ousada: não, pelo menos não apenas por se tornar mais inteligente ou mais convincente

Francisco Laranjeira

A inteligência artificial tem evoluído tão depressa que uma pergunta antes reservada à ficção científica entrou no debate tecnológico: poderá uma máquina tornar-se consciente? Um novo estudo da Google DeepMind, laboratório de IA da gigante tecnológica, responde de forma ousada: não, pelo menos não apenas por se tornar mais inteligente ou mais convincente.

O texto, citado pelo ‘Unilad Tech’, surge num momento em que a indústria discute cada vez mais a inteligência artificial geral, conhecida pela sigla AGI, o ponto em que os sistemas poderão igualar ou ultrapassar capacidades humanas em várias tarefas. Para alguns especialistas, esse seria o passo decisivo antes de uma eventual consciência artificial.

A Google DeepMind contesta essa ideia. A tese central é que a IA pode simular consciência, reproduzir linguagem humana, responder com aparente empatia e parecer uma mente autónoma, mas isso não significa que tenha experiência subjetiva.

Por outras palavras: uma máquina pode imitar alguém consciente sem ser consciente.

Hoje, os modelos de inteligência artificial funcionam sobretudo como sistemas de previsão. São treinados com enormes volumes de dados e produzem respostas com base em padrões, probabilidades e relações estatísticas. O resultado pode parecer uma conversa humana, por vezes de forma impressionante, mas isso não equivale, segundo os autores do estudo, a pensamento próprio ou experiência interior.

Continue a ler após a publicidade

O artigo da DeepMind critica aquilo a que chama a ‘falácia da abstração’. A expressão refere-se à ideia de que a consciência poderia surgir apenas de uma determinada organização abstrata da informação, independentemente do suporte físico em que essa informação existe.

Para os investigadores, essa leitura ignora uma distinção essencial: simular não é o mesmo que instanciar. Um sistema artificial pode reproduzir comportamentos associados à consciência, mas isso não prova que possua a constituição física necessária para a experiência subjetiva.

A diferença pode parecer técnica, mas é decisiva. Um computador pode simular uma tempestade sem ficar molhado. Da mesma forma, argumenta o estudo, uma IA pode simular sinais de consciência sem viver aquilo que está a representar.

Continue a ler após a publicidade

A posição é particularmente relevante porque a própria Google DeepMind contratou recentemente o seu primeiro filósofo interno dedicado ao tema da consciência das máquinas. Ou seja, a discussão já não está apenas no campo da engenharia: passou também para a filosofia, a biologia e as ciências cognitivas.

Mas nem todos ficaram convencidos com o estudo. Parte da comunidade filosófica considera que o argumento não é tão novo como parece. O filósofo Johannes Jäger, citado pelo ‘Unilad Tech’, afirmou que Alexander Lerchner, autor do estudo, chegou a uma conclusão que já tinha sido discutida antes e que não estaria suficientemente ancorada na literatura filosófica e biológica.

Mark Bishop, professor de computação cognitiva em Goldsmiths, também reconheceu simpatia por grande parte do argumento, mas notou que ideias semelhantes já foram apresentadas há muitos anos. A crítica, portanto, não é necessariamente que a DeepMind esteja errada, mas que entrou tarde num debate antigo.

A discussão toca num dos temas mais sensíveis da inteligência artificial: até que ponto uma máquina que fala como uma pessoa, responde como uma pessoa e parece compreender emoções deve ser tratada como algo mais do que uma ferramenta?

Para a Google DeepMind, a resposta passa por separar aparência de realidade. A IA pode tornar-se cada vez mais convincente, mais rápida e mais útil. Pode até ultrapassar humanos em muitas tarefas. Mas isso não significa que acorde, sinta ou tenha consciência de si.

Continue a ler após a publicidade

O debate está longe de fechado. A fronteira entre inteligência, simulação e consciência continua a dividir engenheiros, filósofos e cientistas. Mas o estudo deixa uma ideia poderosa: talvez o futuro da IA não seja uma máquina que ganha alma, mas uma máquina cada vez melhor a fazer-nos acreditar que tem uma.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.