O homem que enganou a central nuclear do apartheid: deixa quatro bombas, bebe um copo com os colegas e foge de bicicleta

Durante anos, ninguém soube quem tinha estado por trás do ataque. Houve suspeitas sobre grupos estrangeiros, sobre militantes europeus e sobre eventuais falhas internas

Francisco Laranjeira

Rodney Wilkinson tinha 21 anos quando era já o melhor esgrimista da África do Sul. Campeão nacional em florete e sabre, segundo em espada, tinha talento suficiente para sonhar com os Jogos Olímpicos. Mas vivia num país excluído do palco olímpico por causa do apartheid. Décadas depois, o ‘The Guardian’ recupera a história deste homem que passou de atleta promissor a protagonista de uma das mais ousadas ações de sabotagem contra o regime sul-africano.

Antes da central nuclear, houve a tragédia. Em 1971, durante um treino de esgrima na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, a lâmina de Wilkinson partiu-se e atingiu o treinador Vincent Bonfil no peito. O golpe foi acidental, mas fatal. Bonfil morreu a caminho do hospital. A justiça concluiu que tinha sido um acidente, mas Wilkinson nunca se libertou totalmente desse momento.

Onze anos depois, o mesmo homem trabalhava como engenheiro contratado na central nuclear de Koeberg, a cerca de 30 quilómetros da Cidade do Cabo. A central era uma peça simbólica do regime: a joia tecnológica do Estado do apartheid, a prova de modernidade que Pretória queria exibir ao mundo.

Wilkinson, porém, estava cada vez mais distante desse país oficial. Tinha sido recrutado pelo Exército aos 18 anos, enviado para Angola numa guerra que não queria combater e estava furioso com o regime que transformara a África do Sul num Estado pária.

A entrada no mundo clandestino começou quase por acaso. Anos antes, quando trabalhara no projeto de Koeberg como desenhador técnico, Wilkinson conseguira retirar centenas de páginas com plantas detalhadas da central. Mais tarde, com a companheira Heather Gray, levou esses documentos para o Congresso Nacional Africano, então proibido na África do Sul e a operar no exílio.

Continue a ler após a publicidade

A partir daí, a história parece saída de um romance de espionagem. Wilkinson e Gray foram observados, testados, treinados e integrados numa operação do braço armado do ANC. O plano era atacar Koeberg antes de a central entrar em funcionamento e antes de o combustível nuclear ser carregado, para evitar uma catástrofe radioativa.

O risco era enorme. Wilkinson teria de regressar à central como trabalhador contratado, atravessar controlos de segurança, esconder explosivos e colocá-los em pontos estratégicos: junto dos reatores e nas zonas de cablagem das salas de controlo.

Em julho de 1982, conseguiu voltar a Koeberg com um contrato de curta duração. Durante meses, estudou rotinas, entradas, horários e falhas de vigilância. O seu disfarce era simples: parecia pertencer àquele lugar. Era branco, engenheiro, conhecido pelos colegas e aparentemente inofensivo.

Continue a ler após a publicidade

As bombas eram minas magnéticas com temporizadores de 24 horas. Tinham também termite, uma mistura incendiária capaz de atingir temperaturas altíssimas e de destruir cablagens e estruturas metálicas. O objetivo não era provocar vítimas, mas atrasar e danificar profundamente o projeto nuclear do regime.

Nos dias anteriores à operação, Wilkinson foi levando os engenhos para dentro da central, escondidos no seu Renault 5 amarelo. No parque, passava-os para uma mala e depois guardava-os numa gaveta metálica da secretária. Os guardas não desconfiaram. O cão de segurança nunca reagiu.

Na sexta-feira, 17 de dezembro de 1982, último dia do seu contrato, começou a movimentar as quatro bombas para os locais definidos. Fez o percurso uma a uma. Passou controlos, atravessou corredores, aproximou-se das zonas sensíveis da central e colocou os engenhos onde conseguiu.

Depois veio o momento mais perigoso: puxar os pinos. Se o temporizador funcionasse, teria 24 horas até à explosão. Se falhasse, a bomba podia detonar nas suas mãos. Wilkinson puxou o primeiro. Continuou vivo. Depois o segundo. Depois o terceiro. Depois o quarto.

No final da tarde, fez algo quase inacreditável: juntou-se aos colegas para uma bebida de despedida. Tinha dito que ia viajar para Londres. Eles desejaram-lhe boa sorte, sem imaginar que, por baixo dos seus pés, havia quatro bombas armadas.

Continue a ler após a publicidade

Pouco depois, saiu da central de bicicleta.

A fuga foi tão improvável como a operação. Wilkinson foi levado até ao aeroporto da Cidade do Cabo, voou para Joanesburgo, encontrou-se com a irmã e seguiu para a fronteira com a Suazilândia. Sem encontrar o posto oficial, acabou por atravessar uma zona de arame farpado. Do outro lado, deitou-se num ribeiro, vestido, a rir-se enquanto as pessoas passavam.

As explosões começaram no dia seguinte. A primeira ocorreu às 15h23 de 18 de dezembro. A segunda às 20h40. A terceira às 23h24. A quarta às 2h53 da madrugada de domingo. Ninguém ficou ferido.

O ‘The Guardian’ escreve que os danos foram enormes: cerca de 500 milhões de rands, valor próximo de 500 milhões de dólares na altura, quando as duas moedas estavam praticamente em paridade. O arranque da central foi atrasado 18 meses.

Durante anos, ninguém soube quem tinha estado por trás do ataque. Houve suspeitas sobre grupos estrangeiros, sobre militantes europeus e sobre eventuais falhas internas. A identidade de Wilkinson só foi revelada publicamente em 1995, 13 anos depois, numa reportagem do ‘Mail & Guardian’.

Para o ANC, a operação tinha um valor simbólico enorme. Mostrava que o regime podia ser atingido no centro das suas infraestruturas estratégicas. Koeberg, pensada como monumento à força tecnológica do apartheid, tornara-se prova da sua vulnerabilidade.

Wilkinson acabou por se instalar no Reino Unido com Heather Gray. Mais tarde, regressou à África do Sul, já depois da libertação de Nelson Mandela e da legalização do ANC. Viveu durante décadas em Knysna, uma cidade costeira onde muitos vizinhos nunca souberam quem ele era.

Hoje, aos 76 anos, Rodney Wilkinson é um homem de saúde frágil, marcado pela tuberculose e por uma vida que oscilou entre acidente, guerra, clandestinidade e silêncio. O antigo esgrimista que um dia matou sem querer, e que anos depois colocou bombas procurando não matar ninguém, continua a ser uma figura difícil de encaixar numa só palavra.

Sabotador, resistente, imprudente, corajoso, inconsequente ou herói: a sua história cabe talvez melhor numa imagem. Um homem entra numa central nuclear com quatro bombas, puxa os pinos, bebe com os colegas e desaparece de bicicleta.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.