Por António Valente, Manager no mercado de Telco na Minsait em Portugal, Indra Group
A gestão das redes em Portugal entrou numa fase em que a complexidade excede a capacidade dos modelos tradicionais. Entre 5G, cloud, data centers e milhões de dispositivos, configurar equipamentos “à mão” é lento, caro e propenso a erros. Por outro lado, o setor das telecomunicações está também cada vez mais pressionado pela concorrência, margens reduzidas e pelas expectativas dos clientes, que são cada vez maiores. Para o setor, a forma como as redes são geridas tornou‑se um fator crítico de competitividade. É precisamente neste contexto que surge um novo paradigma: as redes baseadas em intenções, ou Intent‑Based Networking (IBN).
Apesar de ainda pouco discutida fora dos círculos técnicos, a IBN tem potencial para se tornar tão transformadora quanto a Software-Defined Networking (SDN) ou a automação. A sua lógica é simples: em vez de configurar manualmente milhares de elementos de rede, a operadora define o seu objetivo/intenção, e o sistema trata de converter/traduzir, automaticamente, essa intenção em ações técnicas, monitorizando continuamente o seu cumprimento. É a passagem de uma gestão orientada por comandos para uma gestão orientada por objetivos.
No fundo, a IBN permite que uma operadora diga: “Quero garantir latência mínima neste serviço crítico” ou “Quero assegurar níveis de disponibilidade premium para este cliente empresarial”. A rede interpreta, configura‑se, e verifica se se estão a cumprir os requisitos, corrigindo eventuais desvios. Este ciclo fechado de intenção, seguido de tradução, execução e garantia, pode parecer abstrato, mas responde diretamente a um problema real: a impossibilidade de gerir redes modernas com as ferramentas de ontem.
A automação avançada não é apenas uma questão de eficiência mas uma necessidade. A escala das redes 5G, a diversidade de tecnologias coexistentes e a procura por serviços personalizáveis, estão a levar as equipas de engenharia ao limite. A IBN tira a pressão das mãos humanas, reduz drasticamente o risco de erro e liberta tempo para tarefas que acrescentam valor, desde o desenho de novos serviços até à inovação comercial.
Outro ponto crítico é o da garantia da qualidade de serviço. Hoje, os clientes, empresariais e residenciais, são intolerantes a falhas. Serviços de cloud, gaming, videoconferência ou redes privadas 5G exigem níveis de desempenho cada vez mais granulares e dinâmicos. Com IBN, a rede deixa de reagir a incidentes, passando a atuar de forma preventiva. Assim é possível identificar desvios antes de se tornarem problemas, apenas quando a intenção está formalmente definida e continuamente validada.
Mas nem tudo é simples. A adoção de IBN também enfrenta desafios como integrar este modelo com redes legadas, confiar decisões críticas à automação e garantir que as intenções são corretamente traduzidas em políticas técnicas coerentes, requer maturidade organizacional, modelos de governação adequados e uma mudança cultural profunda dentro das equipas de engenharia e operação.
Importa ainda sublinhar o papel de enquadramentos conceptuais, como os do TM Forum, que fornecem modelos de dados e estruturas para definir intenções de forma consistente e interoperável. Sem estas bases, a IBN correria o risco de se tornar mais uma buzzword dependente de fornecedores, em vez de uma prática sustentável e transversal na indústria.
O que é claro é que a evolução para redes autónomas, que se configuram, otimizam e recuperam automaticamente, será impossível sem IBN. Esta abordagem é, de certa forma, o “cérebro” que permitirá às operadoras gerir a complexidade crescente, sem aumentar proporcionalmente os seus custos operacionais.
No final, a pergunta que as operadoras portuguesas devem fazer não é “estamos preparados para adotar IBN?”. A pergunta certa é: “o nosso modelo atual de operação é sustentável num mercado onde a complexidade cresce mais rápido do que os recursos?”. A resposta, para a maioria, será: ainda não.
Embora não seja visível, a IBN está por detrás de uma experiência digital mais rápida, segura, estável e inteligente, para qualquer cidadão. Ela melhora a internet em casa e nos serviços públicos, criando um ecossistema digital mais eficiente e confiável.
A IBN representa assim uma oportunidade estratégica para transformar redes em plataformas verdadeiramente inteligentes, reduzir custos, aumentar a resiliência e acelerar a inovação. É uma revolução silenciosa e indispensável. As primeiras operadoras que atingirem este patamar vão colher benefícios inequívocos em eficiência, qualidade de serviço e capacidade de competir num mercado onde a diferenciação tecnológica será cada vez mais determinante.



