O impacto do uso do telemóvel antes de dormir tem sido repetidamente apontado por especialistas como prejudicial à qualidade do sono. Ainda assim, o hábito de percorrer notícias, redes sociais ou mensagens até adormecer continua a ser comum. Foi precisamente esse comportamento que o jornalista britânico Joel Harley decidiu alterar — e os efeitos, garante, foram significativos.
Num artigo publicado no jornal britânico The Guardian, Joel Harley relata a experiência de ter substituído o uso do telemóvel à noite pela leitura de banda desenhada. A mudança, segundo o próprio, trouxe alterações profundas não apenas na qualidade do sono, mas também no conteúdo dos seus sonhos e no seu bem-estar geral.
Noites marcadas por ansiedade digital
Durante anos, o jornalista descreve que o seu ritual noturno consistia em deitar-se e permanecer agarrado ao telemóvel até adormecer. “Costumava ir para a cama e ficar a olhar para o telemóvel até adormecer. Quando não estava a ler compulsivamente manchetes alarmistas, acabava por adormecer no meio de comentários odiosos nas redes sociais ou a reviver dramas do trabalho através das versões móveis do Teams e do Slack”, relata.
O resultado, explica, era um sono inquieto e fortemente marcado pela ansiedade. “Quando finalmente conseguia adormecer, o sono era agitado e repleto de ansiedade. Com a mente inundada por receios de todo o tipo de apocalipses e pela virulência de agitadores na Internet, não é de admirar que os meus sonhos estivessem cheios do mesmo”, descreve.
A constante exposição a conteúdos negativos, polémicos ou alarmistas acabava por prolongar, durante a noite, o clima de tensão acumulado ao longo do dia.
Um ponto de viragem numa noite de insónia
O momento de mudança surgiu após uma noite particularmente difícil. Joel Harley explica que, numa fase em que o debate online em torno da iminente segunda legislatura de Donald Trump gerava intensa agitação digital, percebeu que precisava de redefinir as suas rotinas noturnas.
“Impulsionado pelo alvoroço na Internet em torno da iminente segunda legislatura de Donald Trump, percebi que precisava de cuidar da minha saúde mental e criar novas rotinas antes que o medo e a raiva me consumissem por completo”, afirma.
Foi então que decidiu abandonar o telemóvel antes de dormir e optar por algo diferente: a leitura de banda desenhada.
Sonhos mais fantasiosos e menos dominados por medos
A substituição do ecrã pela leitura trouxe efeitos rápidos, segundo o jornalista. “Em vez de pegar no telemóvel à noite, optei por ler uma banda desenhada. Lê-las em adulto devolveu-me essa capacidade de deslumbramento infantil que ultrapassou as minhas ansiedades”, escreve.
A mudança refletiu-se diretamente na qualidade do descanso. “Notei que o meu sono começou a melhorar. Os meus sonhos eram mais fantasiosos e menos marcados pelos terrores quotidianos”, descreve.
A leitura, associada a narrativas visuais e universos imaginativos, passou a ocupar o espaço mental que antes era preenchido por conflitos digitais, polémicas políticas e tensões profissionais.
Autocuidado em vez de fuga
Joel Harley faz questão de sublinhar que esta redescoberta da banda desenhada não representa uma tentativa de escapar à realidade. “Redescobrir o meu amor pela banda desenhada não consiste em esconder a cabeça na areia refugiando-me em universos imaginários. Trata-se de dedicar tempo ao autocuidado num mundo que nos exige cada vez mais a nível mental”, esclarece.
Para o jornalista, a mudança de hábito foi uma forma consciente de proteger a saúde mental e estabelecer limites face à sobrecarga informativa e emocional proporcionada pelos dispositivos digitais.
Impacto no humor e na criatividade
Os efeitos não se limitaram ao sono. Joel Harley garante que a decisão de abandonar o telemóvel antes de dormir teve repercussões mais amplas na sua vida diária. “Deixar para trás essas noites agarrado ao telemóvel melhorou o meu estado de espírito, a minha criatividade e a minha visão geral da vida”, afirma.
A experiência relatada pelo jornalista reforça a ideia, frequentemente defendida por especialistas, de que a exposição prolongada a ecrãs antes de dormir pode afetar negativamente o descanso. Ao mesmo tempo, sugere que pequenas alterações na rotina noturna podem ter impacto significativo na qualidade do sono e no equilíbrio emocional.



