Hantavírus Andino, menos contagioso do que a Covid-19 mas mais letal: “Aparece de repente, o doente sufoca”

Laboratório que colabora com a Organização Mundial da Saúde confirmou que esta foi a estirpe responsável pelas três mortes registadas a bordo do navio, que permanece ao largo de Cabo Verde e tem chegada prevista às Ilhas Canárias

Francisco Laranjeira

O hantavírus identificado no navio de cruzeiro ‘MV Hondius’ é da estirpe Andina, uma variante menos contagiosa do que a Covid-19, mas potencialmente mais letal quando provoca doença grave. Um laboratório que colabora com a Organização Mundial da Saúde confirmou que esta foi a estirpe responsável pelas três mortes registadas a bordo do navio, que permanece ao largo de Cabo Verde e tem chegada prevista às Ilhas Canárias.

A informação é avançada pelo ’20 Minutos’, que ouviu especialistas sobre as diferenças entre as principais famílias de hantavírus. A estirpe Andina, também conhecida como estirpe do Novo Mundo, é originária das Américas e distingue-se por causar sobretudo complicações pulmonares graves. Ao contrário da Covid-19, a transmissão entre pessoas é considerada muito rara e exige contacto muito próximo, mas a evolução clínica pode ser rápida e severa.

Noemí Sevilla, presidente do Conselho de Pesquisa em Saúde Animal do CSIC, explicou ao site espanhol que o hantavírus tem várias estirpes, divididas entre as do Novo Mundo, presentes nas Américas, e as do Velho Mundo, mais comuns na Europa e na Ásia. Entre todas, a Andina é a única com casos documentados de transmissão pessoa a pessoa.

Ainda assim, sublinhou a especialista, essa capacidade de transmissão é “muito baixa” e ocorre apenas em condições de grande proximidade. É aqui que a comparação com a Covid-19 se torna relevante: o hantavírus Andino não se transmite com a mesma facilidade, mas pode provocar quadros clínicos muito mais graves nos doentes afetados.

Complicações pulmonares e evolução rápida

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A doença causada pela estirpe Andina é formalmente conhecida como síndrome pulmonar por hantavírus. Ao contrário das estirpes europeias e asiáticas, que afetam sobretudo os rins, esta variante ataca principalmente o sistema respiratório.

Segundo Noemí Sevilla, os doentes podem desenvolver edema pulmonar e ter muito pouco tempo para reagir. O quadro pode evoluir para pneumonia, insuficiência respiratória e necessidade de ventilação mecânica.

Juan José Badiola, professor emérito de Saúde Animal da Universidade de Zaragoza, também sublinhou a rapidez da evolução clínica. A linhagem americana provoca danos cardiopulmonares e pode progredir de forma súbita: o doente agrava rapidamente, fica muito doente e pode sufocar.

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Esta característica ajuda a explicar a preocupação das autoridades sanitárias, apesar de os especialistas insistirem que o risco de transmissão entre pessoas é limitado e depende de contacto muito próximo.

Diferença entre Novo Mundo e Velho Mundo

As estirpes do Velho Mundo, prevalentes na Europa e na Ásia, produzem uma doença diferente. Em vez de atingirem sobretudo os pulmões, estão mais associadas a insuficiência renal. Segundo a especialista do CSIC, não há casos documentados de transmissão pessoa a pessoa com estas estirpes.

A diferença deve-se às células em que cada variante se replica preferencialmente. As estirpes europeias e asiáticas têm como principal alvo os rins, enquanto a Andina afeta sobretudo o aparelho respiratório.

É por isso que a confirmação da estirpe Andina no MV Hondius é relevante para a investigação epidemiológica. Além de ajudar a perceber o quadro clínico dos doentes, pode contribuir para reconstruir a origem do surto e avaliar se houve transmissão a bordo ou exposição antes do embarque.

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Passageiros “não representam um risco para ninguém”

Apesar da preocupação com a estirpe identificada, especialistas e autoridades têm insistido que os passageiros não representam um risco generalizado para a população. Fernando Simón, diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias de Espanha, afirmou que a transmissão do hantavírus de pessoa para pessoa é “muito rara” e que os passageiros “não representam um risco para ninguém”.

O caso continua sob vigilância internacional. O ‘MV Hondius’, onde foram registadas três mortes, está associado a uma investigação coordenada por autoridades sanitárias e pela OMS, que procura determinar a origem da infeção e a cadeia de transmissão.

Para já, a confirmação da estirpe Andina reforça a hipótese de uma ligação às Américas, mas não esclarece ainda onde ocorreu a infeção inicial nem se houve transmissão entre passageiros durante a viagem.

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