As tensões no Médio Oriente continuam a lançar uma sombra sobre a economia global e começam já a fazer-se sentir, de forma indireta, em Portugal, sobretudo através do aumento dos preços da energia e dos seus efeitos em cadeia sobre setores estratégicos.
De acordo com uma análise da XTB, o turismo surge como uma das áreas mais expostas a este contexto, numa fase particularmente sensível para o país, que se aproxima do pico da procura sazonal. O agravamento dos custos energéticos está a pressionar as companhias aéreas, que enfrentam um aumento significativo no preço do combustível de aviação — com subidas superiores a 100% num curto espaço de tempo — obrigando a ajustes operacionais e comerciais.
Transportadoras como a TAP Air Portugal, bem como as low cost Ryanair e EasyJet, poderão rever horários e aumentar tarifas para compensar o impacto dos custos. Algumas estimativas apontam para subidas médias de preços na ordem dos 20%, numa tentativa de mitigar o peso crescente do jet fuel, apesar do recurso a estratégias de cobertura de risco.
No panorama europeu, grupos como a Air France-KLM deverão manter ou reforçar sobretaxas de combustível, sobretudo em voos de longo curso. Já a Lufthansa anunciou cortes relevantes na sua oferta de voos de curta distância até ao outono, o que poderá afetar ligações a cidades como Lisboa e Porto. De forma mais ampla, várias transportadoras europeias estão a reduzir capacidade, antecipando uma pressão prolongada sobre o setor.
Também o retalho começa a sentir os efeitos deste enquadramento geopolítico. A Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, já indicou que pretende absorver parte da pressão inflacionista para preservar a competitividade dos preços. Ainda assim, o aumento dos custos logísticos poderá penalizar os resultados nos próximos trimestres.
Uma estratégia semelhante está a ser seguida pela Sonae, proprietária do Continente, que procura conter o impacto no consumidor final, ainda que reconheça o risco de compressão das margens, caso os custos de transporte e energia continuem a escalar.
No centro desta pressão está o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais de transporte de petróleo e gás natural, que permanece condicionado apesar do atual cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão. As restrições ao tráfego marítimo têm contribuído para manter elevados os preços da energia nos mercados internacionais.
Num cenário de eventual desanuviamento geopolítico e reabertura plena desta rota estratégica, os mercados poderão assistir a uma descida significativa dos preços energéticos, com impacto positivo na confiança de investidores e consumidores, particularmente nos setores mais dependentes destes custos.
Para já, porém, o contexto permanece marcado pela incerteza. As tensões entre Washington e Teerão continuam elevadas, e a volatilidade geopolítica mantém-se como o principal risco para as perspetivas económicas globais no curto prazo, com reflexos inevitáveis na economia portuguesa.







