O Kremlin reforçou de forma significativa as medidas de segurança em torno do presidente russo, Vladimir Putin, na sequência de uma série de assassínios de altos responsáveis militares e de crescentes receios de golpe interno, segundo um relatório de uma agência europeia de informações citado pelo Financial Times. O documento descreve um ambiente de desconfiança crescente no núcleo do poder russo, quatro anos após o início da invasão da Ucrânia.
De acordo com o dossiê, foram instalados sistemas de vigilância nas residências de colaboradores próximos do chefe de Estado. Cozinheiros, guarda-costas e fotógrafos que trabalham diretamente com Putin estão proibidos de utilizar transportes públicos. As visitas ao presidente passaram a ser sujeitas a dupla verificação de segurança e os membros da sua equipa mais próxima só podem usar telemóveis sem acesso à internet.
Algumas destas medidas terão sido adotadas nos últimos meses, após o assassínio do tenente-general Fanil Sarvarov, em 22 de dezembro de 2025, em Moscovo, alegadamente por agentes ucranianos. Três dias depois, Putin convocou uma reunião com responsáveis da segurança e da hierarquia militar. Segundo o relatório, o chefe do Estado-Maior-General, Valery Gerasimov, criticou duramente o diretor do FSB, Alexander Bortnikov, por falhas na proteção dos oficiais. Bortnikov terá respondido que os serviços careciam de meios e pessoal. O documento refere que, “enfatizando o medo e a desmoralização” entre os militares, Gerasimov censurou os serviços especiais pela “falta de previsão”. No final do encontro, Putin apelou à calma, propôs um novo formato de trabalho e exigiu soluções concretas no prazo de uma semana.
A resposta passou pelo alargamento das competências do Serviço Federal de Proteção (FSO), tradicionalmente responsável pela segurança presidencial. Até então centrado na proteção de Gerasimov no comando militar, o FSO passou a garantir segurança reforçada a mais dez comandantes de topo. O relatório sustenta que o reforço da proteção pessoal de Putin ocorreu após este alargamento de competências.
O documento descreve ainda um contexto de crescente inquietação interna. Desde o início de março de 2026, “o Kremlin e o próprio Vladimir Putin têm estado preocupados com potenciais fugas de informação sensível, bem como com o risco de conspiração ou tentativa de golpe visando o presidente russo”. O chefe de Estado estaria particularmente receoso da utilização de drones num eventual atentado promovido por membros da elite política russa.
Entre as figuras mencionadas surge o antigo ministro da Defesa Sergei Shoigu, atualmente secretário do Conselho de Segurança. O relatório associa Shoigu ao “risco de golpe”, sustentando que mantém influência significativa no alto comando militar. A detenção, a 5 de março, do seu antigo vice e aliado próximo, Ruslan Tsalikov, por suspeitas de desvio de fundos, branqueamento de capitais e suborno — segundo o Comité de Investigação russo — é descrita como uma “quebra dos acordos tácitos de proteção entre elites”, enfraquecendo Shoigu e aumentando a probabilidade de este próprio vir a ser alvo de investigação judicial. O documento não apresenta provas concretas que sustentem as alegações relativas a um eventual envolvimento em conspirações.
O contexto externo agrava a pressão. Países ocidentais estimam que as perdas russas rondem 30 mil mortos e feridos por mês, num conflito marcado por ganhos territoriais limitados e sucessivos ataques com drones ucranianos em profundidade no território russo. No domingo à noite, um drone atingiu um prédio residencial de luxo no oeste de Moscovo, segundo autoridades locais. Paralelamente, o impacto económico da guerra começa a ser mais visível, com falhas frequentes nas redes móveis em grandes cidades a gerar descontentamento, inclusive entre sectores tradicionalmente favoráveis ao Kremlin.
O relatório indica ainda que Putin reduziu drasticamente os locais que visita com regularidade. O presidente e a família deixaram de frequentar as residências habituais na região de Moscovo e em Valdai. Este ano, ao contrário de 2025, ainda não visitou qualquer instalação militar. Para contornar estas limitações, o Kremlin terá recorrido à divulgação de imagens pré-gravadas. Desde 2022, Putin passa também semanas em bunkers modernizados, frequentemente na região de Krasnodar, junto ao mar Negro. Apesar disso, continua a surgir em eventos públicos, tendo-se reunido esta semana com o líder checheno Ramzan Kadyrov e com o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi.
As novas revelações surgem poucos dias depois de Moscovo anunciar alterações significativas ao desfile de 9 de maio na Praça Vermelha, que este ano decorrerá sem armamento pesado, como carros de combate e mísseis. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, justificou a decisão com a necessidade de reduzir riscos “perante esta ameaça terrorista”, assegurando que “estão a ser tomadas todas as medidas para minimizar o perigo”.
A divulgação de detalhes tão específicos sobre deliberações internas é rara por parte de serviços de informações ocidentais, sobretudo envolvendo fontes humanas ou eletrónicas suscetíveis de serem comprometidas. A publicação do relatório poderá refletir, segundo analistas, a estratégia europeia de expor fragilidades internas do regime russo num momento em que o apoio norte-americano a Kiev diminui e o conflito na Ucrânia entra numa fase de desgaste prolongado.













