O ecossistema de investimento early stage em Portugal entra em 2026 com um sinal de confiança renovada. De acordo com o mais recente Barómetro da Investors Portugal, 80% dos investidores estão otimistas para o primeiro semestre do ano, num contexto marcado pelo aumento do capital disponível, pela consolidação das startups nacionais e por uma crescente maturidade do mercado.
Ainda assim, persistem desafios estruturais, com a burocracia e a falta de estabilidade regulatória a surgirem como os principais entraves apontados pelos investidores.
Em entrevista à Executive Digest, Lurdes Gramaxo, Presidente da Investors Portugal, analisa o momento atual, as tendências do setor e as condições necessárias para consolidar o crescimento do ecossistema em Portugal.
O Barómetro mostra que 80% dos investidores em early stage estão otimistas para o primeiro semestre de 2026. O que explica esta mudança de sentimento no ecossistema?
Esta edição do Barómetro traz perspetivas muito positivas para o investimento neste início de ano, seja a nível de números de investimento ou de valor a investir, bem como nas oportunidades de exits que podem surgir. Diria que o otimismo que estamos a verificar é resultado da grande atividade registada no final de 2025, a par de vários levantamentos de novos fundos de gestoras portuguesas. Aliás, de acordo com a Startup Portugal /DealRoom, o investimento total no ano passado foi o mais elevado dos últimos três anos, cerca dos 479 milhões de euros.
Por outro lado, a maior disponibilidade de capital advém também das sucessivas calls do Banco Português de Fomento, dos Fundos SIFIDE e de maior acesso dos fundos portugueses a capital internacional. Com mais capital disponível para investir, a par da boa qualidade de startups que continuam a surgir, é expectável que o mercado se mantenha nesta linha de avaliação positiva.
Em termos internacionais, como se posiciona hoje o ecossistema português de investimento early stage face a outros mercados europeus?
Podemos dizer que o ecossistema português está mais consolidado e destaca-se internacionalmente pelo crescimento sustentável dos últimos anos. Temos hoje mais de 5 mil startups, equivalendo já a 1% do tecido empresarial, do emprego e do PIB, dados do relatório Startup & Entrepreneurial Ecosystem Report 2025, promovido pela Startup Portugal e Informa D&B., que também indica que, no último ano, o investimento levantado por startups fundadas ou com sede em Portugal subiu para 470 milhões de euros, o que nos mostra como o ecossistema está vivo e boa saúde.
O Global Innovation Index, da World Intellectual Property Organization, dá conta de que, entre 139 países, Portugal mantém, desde 2020, uma posição bastante forte entre os 30 primeiros lugares do ranking.
Apesar disso, ainda há lacunas essenciais a colmatar para tornarmos o ecossistema nacional mais competitivo na cena internacional, nomeadamente a nível de acesso a investimento, especialmente para as fases pre-seed e rondas de maior dimensão, assim como algumas questões de contexto, com a burocracia no topo da lista.
Por um lado, estamos acima da média europeia no que toca à rápida criação de startups (80% contra 70%). Mas, por outro, em matérias de inovação de legislação caímos para uma posição menos relevante (40% contra 43%). Esta falha quando falamos de apoio ao ecossistema não é apenas referente a dificuldades sentidas pelos fundadores, se não também pelos próprios investidores, conforme damos conta no Barómetro Investors Portugal: desde que realizamos esta auscultação que os investidores revelam como as políticas são insuficientes e quando existem, pouco duradouras e muito burocráticas.
Os investidores estão hoje mais seletivos do que há alguns anos? Que características procuram atualmente nas startups em fase inicial?
Para a atual fase de maturidade do ecossistema também contribuiu uma progressiva profissionalização dos investidores e dos próprios projetos empresariais. As startups que irão liderar a próxima vaga serão aquelas que incorporam tecnologia profunda e abordam desafios estruturais – energia, saúde, segurança digital, produtividade, sustentabilidade e defesa. Modelos de negócio robustos, sustentáveis, escaláveis e com ambição global serão determinantes. Quanto aos fundadores, destacam-se líderes com sólida preparação tecnológica, visão global e capacidade de execução e que liderem equipas diversas, multidisciplinares e experientes que tendem a criar soluções mais resilientes, e serão estas que atrairão capital e posicionamento competitivo no mercado a uma escala global.
As tendências atuais do sector, na minha opinião, integram a consolidação da inteligência artificial e do machine learning como pilares centrais da inovação, transversal a praticamente todos os setores, assim como uma crescente prioridade atribuída à segurança – cibersegurança, resiliência industrial e defesa – que está a gerar novas oportunidades, incluindo soluções “dual purpose”, ou seja, com aplicação civil e militar. Por fim, o reforço da agenda climática e da economia circular, que está a influenciar a regulação, investimento e comportamento dos consumidores. Estas forças combinadas vão moldar a próxima geração de startups, privilegiando modelos tecnologicamente sólidos, com impacto sistémico e capacidade de endereçar desafios globais.
Espera que 2026 seja um ano de maior dinamismo para o financiamento de startups em Portugal?
Embora ainda seja cedo para podermos afirmar como evoluirão as operações em 2026, a verdade é que, até ao momento, as notícias sobre novas rondas seguem um sentido positivo e trazem um otimismo generalizado ao ecossistema.
As expetativas apontadas pelos investidores early-stage são animadoras para este trimestre em todas as dimensões e isso, só por si, já é um excelente indicador da boa saúde do ecossistema em Portugal. Destaco, como uma das grandes conclusões deste Bárometro da Investors Portugal, a inversão em sentido positivo das expetativas para as oportunidades de exits neste primeiro semestre. Se, no período homólogo do ano passado, mais de metade antecipava poucas oportunidades, em 2026 mais de metade espera conseguir boas oportunidades de venda das suas participações.
Quem está hoje a financiar mais o ecossistema: investidores privados, fundos institucionais ou capital internacional?
Há uma grande diversidade de investidores no nosso ecossistema atualmente. Vemos com expectativa algum ressurgimento de business angels, fundamentais em qualquer ecossistema que se quer desenvolvido e sustentável porque investem sobretudo nas fases mais precoces do desenvolvimento das startups que vão alimentar o crescimento do sector. As sociedades de capital de risco continuam a ser as grandes financiadores do ecossistema, sendo que os fundos SIFIDE têm contribuído para dar escala ao setor. Vemos com expetativa um aumento do interesse de investidores institucionais pelo setor e que pode ser potenciado pelo futuro Fundo Soberano de Portugal a ser lançado pelo Banco Português do Fomento.
Outro aspeto importante é o crescente interesse dos fundos internacionais por Portugal, fundamentais para a consolidação dos projetos empresariais e escalabilidade global.
A maioria dos investidores avalia de forma negativa a evolução do papel das políticas públicas neste setor. O que está a falhar atualmente no apoio ao investimento early stage em Portugal?
Este sentimento negativo, ou menos otimista, por parte dos investidores nas políticas públicas é recorrente – pelo menos, desde que realizamos este Barómetro, esta é a conclusão a que chegamos, compreendendo como as medidas e ações ainda são insuficientes.
No geral, há uma falta de estabilidade e previsibilidade ao nível legal, regulatório e processual, o que contribui em larga medida para este sentimento. Ao invés de se criarem condições que facilitem o investimento e, por isso, atraiam outro capital, vemos surgir sucessivamente entraves que condicionam o seu crescimento.
A retoma do SIFIDE indireto é uma das medidas referidas pelos investidores. De que forma este instrumento poderia dinamizar o ecossistema?
O fim abrupto do SIFIDE indireto baseado em critérios sem aderência à realidade é mais uma medida discricionária que alimenta este sentimento negativo face às políticas públicas. Embora passível de aperfeiçoamentos, este mecanismo foi o principal motor de captação de capital privado para o sector nos últimos anos, conferindo-lhe a escala necessária para financiar o salto das nossas startups para o mercado global.
Apesar dos progresso, Portugal continua a ser um mercado emergente face a outras geografias e para sustentar a nossa ambição global é imperativo definir uma estratégia nacional com políticas consistentes, previsíveis e duradouras, como existem em todos os ecossistemas mais desenvolvidos da Europa.
O Capital de Risco e os Business Angels têm sido os catalizadores deste crescimento. O Estudo do Impacto Económico em Portugal dos Fundos de Capital de Risco e dos Fundos SIFIDE, desenvolvido pela Nova SBE, demostra de forma inequívoca o seu impacto significativo e duradouro na economia portuguesa, uma vez que que potencia crescimento, inovação e competitividade. Outro dos pontos centrais do estudo é a relação custo-benefício dos incentivos fiscais, os autores concluem que o custo inicial para o estado português é temporário, mas os efeitos sobre as empresas são permanentes. Só nos primeiros anos, o Estado recupera o custo do incentivo com a cobrança adicional de impostos.
Os autores do estudo concluem e nós, na Investors Portugal, concordamos que estender benefícios semelhantes a todos os fundos de capital de risco e garantir a continuidade e previsibilidade dos mecanismos de incentivo é crucial para consolidar e ampliar o impacto no ecossistema empreendedor português.
Quais são hoje os principais desafios para consolidar o ecossistema de investimento early stage em Portugal?
Faz falta, sobretudo, simplificar e trazer estabilidade ao setor. O fomento do sector do empreendedorismo early stage deve ser considerado uma prioridade nacional pelo seu impacto na Economia nacional e o financiamento privado do sector deve ser um pilar fundamental do seu crescimento e, por isso, incentivado.








