Há bilhetes para a final do Mundial à venda por 1,9 milhões de euros: adeptos acusam FIFA de “traição monumental”

FIFA não controla os preços definidos no seu Mercado de Revenda/Câmbio, mas cobra uma taxa de compra de 15% a cada comprador e uma taxa de revenda de 15% a cada vendedor

Francisco Laranjeira

Quatro bilhetes para a final do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026 foram colocados à venda no mercado de revenda da FIFA por quase 2,3 milhões de dólares cada, cerca de 1,9 milhões de euros. A ‘Euronews’ avança que os lugares dizem respeito ao jogo marcado para 19 de julho, no MetLife Stadium, em East Rutherford, a cerca de 15 quilómetros de Nova Iorque.

Os bilhetes estão localizados atrás da baliza, no piso inferior, no bloco 124. O valor pedido é, por si só, suficiente para reacender a polémica sobre o custo de acesso ao Mundial, que será organizado pelos Estados Unidos, México e Canadá.

A FIFA não controla os preços definidos no seu Mercado de Revenda/Câmbio, mas cobra uma taxa de compra de 15% a cada comprador e uma taxa de revenda de 15% a cada vendedor. Ou seja, mesmo sem fixar o valor final pedido pelos vendedores, o organismo dirigente do futebol mundial arrecada taxas sobre as transações feitas na plataforma.

O bilhete mais barato também não é barato

A discrepância de preços é enorme, mas mesmo as opções mais baixas para a final estão longe de ser acessíveis. Segundo a informação citada, o preço mais baixo disponível no mercado de revenda era de 10.923,85 dólares, cerca de 9.332 euros, para quatro lugares no topo do piso superior, também atrás de uma baliza.

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A FIFA defende que o modelo de venda e de mercado secundário segue as práticas habituais nos grandes eventos desportivos e de entretenimento dos países anfitriões. O organismo sustenta ainda que as taxas de facilitação de revenda estão em linha com os padrões do setor na América do Norte.

Em comunicado, a FIFA afirma também que a sua abordagem aos preços variáveis acompanha as tendências do setor e permite adaptar os valores à procura, à disponibilidade e ao que considera ser um “valor de mercado justo” para os eventos.

Preços dinâmicos aumentam contestação

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O Mundial’2026 está a usar um modelo de preços dinâmicos. Isto significa que o valor dos bilhetes pode mudar ao longo do processo de venda, dependendo da procura e da disponibilidade.

Na prática, este sistema pode fazer com que os preços aumentem quando a procura é elevada. É precisamente esse modelo que tem gerado críticas de adeptos e organizações de defesa do consumidor, que acusam a FIFA de afastar os adeptos comuns das bancadas.

A entidade diz que as receitas do Campeonato do Mundo são reinvestidas nas suas 211 federações-membro, com o objetivo de promover o desenvolvimento do futebol.

Adeptos falam em “traição monumental”

A contestação já vinha de trás. Em dezembro, adeptos de futebol acusaram a FIFA de uma “traição monumental”, depois de começarem a circular os preços dos bilhetes para a última fase do Mundial.

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A Football Supporters Europe classificou os valores como “extorsivos” e afirmou que o modelo representa uma traição à tradição do Campeonato do Mundo, ignorando o papel dos adeptos no espetáculo.

A ‘Euronews’ recorda que a FIFA atribui 8% dos bilhetes às federações nacionais para os jogos em que participam as suas seleções, destinados aos adeptos mais fiéis. Ainda assim, uma lista publicada pela federação alemã de futebol mostrou preços entre 180 e 700 dólares, cerca de 153 a 595 euros, para vários jogos da fase de grupos.

Final já tinha preços oficiais elevados

Mesmo antes da revenda milionária, os preços oficiais da final já eram elevados. Segundo a lista divulgada, o bilhete mais barato para a final custava 4.185 dólares, cerca de 3.561 euros, enquanto o mais caro chegava aos 8.680 dólares, cerca de 7.387 euros.

Estes valores contrastam com a promessa inicial de que existiriam bilhetes a partir de 60 dólares, cerca de 51 euros, para jogos da fase de grupos. Quando a candidatura ao torneio foi apresentada, há sete anos, responsáveis do futebol americano tinham apontado para a possibilidade de oferecer centenas de milhares de lugares a 21 dólares, cerca de 17 euros, na fase inicial da competição.

Queixa formal em Bruxelas

A polémica chegou também às instituições europeias. A Euroconsumers, organização europeia de defesa dos consumidores, e a Football Supporters Europe apresentaram no mês passado uma queixa formal à Comissão Europeia contra o aumento dos preços dos bilhetes para o Mundial de 2026.

Para os críticos, o problema não está apenas nos valores extremos da revenda, mas no modelo global de bilhética: preços dinâmicos, taxas elevadas, falta de controlo sobre o mercado secundário e risco de afastar os adeptos tradicionais de uma das maiores competições desportivas do mundo.

A final do Mundial deveria ser o ponto alto da festa do futebol. Mas, com bilhetes colocados na revenda por valores próximos dos 1,9 milhões de euros cada, tornou-se também símbolo de uma pergunta cada vez mais incómoda: quem é que ainda consegue pagar para ver futebol ao vivo no maior palco do mundo?

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