Uma startup de biotecnologia dos Estados Unidos afirma ter alcançado um marco histórico na ciência reprodutiva: a criação de esperma humano funcional em laboratório, capaz de fertilizar óvulos e originar embriões em fase inicial. A inovação, ainda em fase preliminar, poderá abrir novas possibilidades para homens com infertilidade severa.
De acordo com o Newsweek, a empresa Paterna Biosciences, sediada no estado de Utah, revelou ter conseguido replicar todo o processo de desenvolvimento do esperma fora do corpo humano – um objetivo que a ciência tenta atingir há décadas.
Apesar do entusiasmo, este avanço ainda não foi validado pela comunidade científica. Os resultados não foram publicados em revistas científicas, nem passaram por revisão por pares ou replicação independente. Além disso, não existe qualquer aprovação para uso clínico.
Especialistas alertam que será necessário realizar testes rigorosos ao nível genético, do desenvolvimento embrionário e da segurança antes de qualquer aplicação em tratamentos de fertilidade.
Ainda assim, a empresa aponta para um calendário ambicioso, sugerindo que ensaios para iniciar gravidezes poderão começar já no próximo ano – um prazo considerado muito acelerado face às expectativas da comunidade científica.
Como foi possível criar esperma em laboratório
O processo desenvolvido pela Paterna começa com uma pequena biópsia de tecido testicular. A partir dessa amostra, os investigadores isolam células estaminais espermatogoniais, responsáveis pela produção de esperma.
Com recurso a modelos computacionais, a equipa conseguiu identificar os sinais moleculares necessários em cada fase do desenvolvimento. Através de diferentes combinações de fatores de crescimento, os cientistas guiaram as células até completarem a meiose e adquirirem a estrutura típica do esperma, com cabeça e cauda.
O CEO da empresa, o médico e professor universitário Dr. Alexander Pastuszak, afirmou que os resultados representam uma potencial mudança de paradigma para pacientes sem opções.
Segundo o Newsweek, o responsável explicou que o esperma produzido em laboratório aparenta ser estruturalmente normal e funcional, tendo sido utilizado para fertilizar óvulos humanos e gerar embriões – algo que, afirma, nunca terá sido alcançado anteriormente em humanos.
Um objetivo antigo da ciência reprodutiva
A produção de esperma humano fora do corpo, conhecida como espermatogénese in vitro, tem sido um dos maiores desafios da biologia reprodutiva. Embora tenha sido possível alcançar este feito em ratos, nomeadamente num estudo japonês em 2011, a sua replicação em humanos revelou-se muito mais complexa.
Outras tentativas, como a de uma empresa francesa em 2015, geraram dúvidas quanto à maturidade e funcionalidade do esperma obtido.
O avanço agora anunciado vai mais longe ao demonstrar não só a formação de esperma, mas também a sua capacidade de fertilização – um teste essencial para comprovar a sua funcionalidade.
Nova esperança para homens inférteis
Entre 10% e 15% dos homens com infertilidade não produzem qualquer esperma, o que limita drasticamente as opções de parentalidade biológica. No entanto, muitos ainda possuem células estaminais capazes de originar esperma, embora o ambiente nos testículos impeça o seu desenvolvimento.
A tecnologia da Paterna poderá contornar esse problema ao recriar, em laboratório, as condições ideais para a maturação dessas células.
A empresa afirma já ter produzido esperma a partir de dezenas de amostras de tecido e prevê conseguir gerar milhares de células a partir de uma única biópsia.
Atualmente, a única alternativa para estes casos é um procedimento cirúrgico invasivo para tentar recuperar esperma, que muitas vezes não apresenta resultados.
Custos podem limitar o acesso
Mesmo que a tecnologia seja validada, o acesso poderá não ser imediato para todos. Nos Estados Unidos, tratamentos de fertilidade raramente são comparticipados por seguros de saúde.
A Paterna estima que o custo do procedimento possa variar entre 5.000 e 12.000 dólares, valor que não inclui tratamentos adicionais como a fertilização in vitro.
Especialistas sublinham que o custo continua a ser uma das principais barreiras no acesso à medicina reprodutiva, apesar dos avanços científicos.
Apesar das reservas da comunidade científica, o desenvolvimento anunciado representa um passo significativo na busca por soluções para a infertilidade masculina.
Se confirmado, poderá marcar o início de uma nova era na medicina reprodutiva, oferecendo esperança a milhões de casais em todo o mundo que, até agora, não tinham alternativas viáveis.



