Os Estados Unidos poderão rever o apoio diplomático à posição britânica sobre as ilhas Malvinas como forma de pressionar o Reino Unido pela falta de apoio à guerra de Donald Trump contra o Irão. A possibilidade surge num e-mail interno do Pentágono, revelado inicialmente pela ‘Reuters’ e citado pelo ‘The Independent’, que enumera opções para punir aliados da NATO considerados pouco cooperantes com a ofensiva americana no Médio Oriente.
O memorando confidencial expõe a frustração de Washington com países que recusaram apoiar ataques contra Teerão ou limitaram o acesso dos Estados Unidos a bases, espaço aéreo e operações militares. Entre as hipóteses discutidas está a reavaliação do apoio dos EUA a antigas ‘possessões imperiais’ europeias, incluindo as Malvinas, território administrado pelo Reino Unido mas reivindicado pela Argentina.
Malvinas entram na tensão entre Washington e Londres
A referência às Malvinas causou forte reação no Reino Unido. Downing Street respondeu que a soberania das ilhas “pertence ao Reino Unido” e que Londres não será pressionada a propósito da guerra contra o Irão. O gabinete de Keir Starmer sublinhou ainda que os habitantes das ilhas votaram de forma esmagadora a favor de continuarem como território ultramarino britânico e que o direito à autodeterminação dos ilhéus continua a ser a posição oficial britânica.
A disputa tem uma carga histórica profunda. O Reino Unido e a Argentina travaram uma guerra pelas ilhas em 1982, depois de Buenos Aires ter tentado tomar o território. O conflito terminou com a rendição argentina e provocou a morte de cerca de 650 militares argentinos e 255 britânicos.
“Um insulto” aos habitantes das ilhas
A possibilidade de Washington rever a sua posição foi classificada como um “insulto” pelo almirante Lord West of Spithead, antigo comandante do ‘HMS Ardent’, fragata afundada durante a guerra das Malvinas. Em declarações ao ‘The Independent’, o antigo comandante da Marinha Real considerou que a ameaça desrespeita o povo “autónomo, autossuficiente e livre” das ilhas.
Ainda assim, Lord West desvalorizou o impacto militar de uma eventual retirada de apoio diplomático americano. Segundo o antigo responsável militar, o reconhecimento ou não dos Estados Unidos não tornaria as ilhas menos seguras, uma vez que a defesa do território depende do Reino Unido.
As Malvinas contam com presença militar britânica permanente na RAF Mount Pleasant, base inaugurada em 1985 e operada exclusivamente pelas forças britânicas. A infraestrutura é um ponto central da presença militar do Reino Unido no Atlântico Sul.
Starmer recusa ser arrastado para a guerra
A tensão com Londres agravou-se depois de Keir Starmer ter recusado inicialmente um pedido dos Estados Unidos para usar bases britânicas em ataques contra o Irão. Desde então, Trump atacou repetidamente o primeiro-ministro britânico, chegando a dizer que Starmer “não é nenhum Winston Churchill”, segundo o ‘The Independent’.
O memorando do Pentágono mostra que a administração americana vê a recusa de alguns aliados como uma quebra de solidariedade no seio da NATO. O ponto sensível, para Washington, é o chamado acesso, baseamento e sobrevoo: autorização para usar bases, território e espaço aéreo aliados em operações militares.
Uma fonte citada pela ‘Reuters’ descreveu esse apoio como “o mínimo absoluto” esperado de membros da NATO. Mas vários aliados europeus recusaram envolver-se diretamente na guerra contra o Irão ou apoiar a operação naval americana no Estreito de Ormuz.
Espanha também surge na lista de castigos
O e-mail interno do Pentágono não se limita ao Reino Unido. Espanha surge também como alvo de frustração americana, depois de o Governo espanhol ter afirmado que não permitiria a utilização das suas bases ou do seu espaço aéreo para atacar o Irão.
Entre as opções referidas no memorando está mesmo a suspensão de Espanha da NATO. O próprio documento reconhece que tal medida teria impacto militar limitado, mas forte efeito simbólico, de acordo com a informação revelada pela ‘Reuters’.
A viabilidade dessa hipótese é, contudo, incerta. A ‘Reuters’ assinala que não há uma indicação clara de como Washington poderia avançar com uma suspensão formal de Espanha da Aliança Atlântica, nem se existe um mecanismo previsto para esse efeito.
Trump chama NATO de “tigre de papel”
Desde o início da ofensiva contra o Irão, Trump tem aumentado a pressão sobre os aliados europeus. O presidente americano criticou a NATO, classificou a aliança como um “tigre de papel” e voltou a ameaçar uma saída dos Estados Unidos.
A secretária de imprensa do Pentágono, Kingsley Wilson, afirmou que o Departamento de Guerra dos EUA garantirá que Trump tem “opções credíveis” para assegurar que os aliados “façam a sua parte”. A mesma responsável disse que, apesar de tudo o que os Estados Unidos fizeram pelos aliados da NATO, estes “não estiveram lá” quando Washington precisou.
O secretário da Defesa, Pete Hegseth, também elevou o tom. Em declarações no Pentágono, afirmou que a guerra contra o Irão revelou hesitações dentro da aliança e defendeu que não pode haver uma NATO sólida se alguns países não estiverem dispostos a apoiar os Estados Unidos em momentos de crise.
Crise diplomática dentro da Aliança Atlântica
O e-mail interno não propõe uma saída imediata dos Estados Unidos da NATO nem o encerramento de bases americanas na Europa. Mas mostra que a administração Trump está a estudar formas de penalizar aliados considerados difíceis, incluindo a sua exclusão de cargos relevantes ou prestigiantes dentro da estrutura da Aliança.
O caso das Malvinas é particularmente sensível porque transforma uma disputa histórica entre Reino Unido e Argentina num instrumento de pressão política dentro da NATO. A Argentina continua a reivindicar as ilhas, e o seu presidente, Javier Milei, é um aliado próximo de Trump.
Para Londres, porém, a resposta é inequívoca: a soberania não está em discussão. A ameaça americana pode não alterar a segurança militar das ilhas, mas abriu uma nova frente diplomática entre dois aliados históricos e mostrou até onde a administração Trump admite ir para castigar parceiros europeus que recusam alinhar com a sua guerra contra o Irão.







