Se a IA nos tirar o emprego, o que sobra? Musk tem uma teoria — e ela não tranquiliza toda a gente

Durante muito tempo, o futuro foi imaginado como um lugar com carros voadores, cidades suspensas e máquinas extraordinárias. Agora começa a ganhar outra forma, mais silenciosa e talvez mais desconcertante: um mundo em que o trabalho humano deixa de ser necessário…

Francisco Laranjeira

Durante muito tempo, o futuro foi imaginado como um lugar com carros voadores, cidades suspensas e máquinas extraordinárias. Agora começa a ganhar outra forma, mais silenciosa e talvez mais desconcertante: um mundo em que o trabalho humano deixa de ser necessário.

Foi essa imagem que Elon Musk voltou a pôr em circulação ao defender, numa publicação no X, que a melhor resposta ao desemprego provocado pela inteligência artificial será um ‘rendimento universal elevado’, pago pelo governo federal. Na mensagem, escreveu que a IA e a robótica vão produzir tantos bens e serviços que esse aumento de dinheiro em circulação não provocará inflação.

A ideia, dita assim, parece simples. As máquinas trabalham. As pessoas recebem. A economia continua a girar. Mas o que fica por resolver é tudo o resto.

Um futuro com mais dinheiro e menos função

Musk imagina um futuro em que a IA faz o trabalho e o Estado passa cheques para compensar os empregos perdidos. A ideia parece simples no papel, mas tocou num nervo imediato: se as máquinas ficarem com a função, o que sobra para as pessoas? Nas respostas à publicação, houve quem visse liberdade. Houve também quem visse outra coisa — dias sem estrutura, uma vida sem utilidade clara e a sensação de que o salário pode continuar a entrar mesmo quando o lugar de cada um no mundo começa a ficar mais difícil de explicar.

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A promessa de abundância

Musk não falou em sobrevivência mínima. Falou em rendimento elevado. A nuance muda tudo. Não é a imagem de uma sociedade a garantir o básico a quem ficou para trás. É a imagem de uma sociedade em que a produção automatizada se torna tão intensa que o trabalho humano deixa de ser a peça central do sistema. A ‘Business Insider’ sublinhou esse ponto ao notar que Musk foi além da ideia clássica de rendimento básico universal e apontou para um cenário de abundância sustentada por IA e robótica.

É uma visão que, vista ao longe, parece quase confortável. Menos ansiedade salarial, menos dependência do emprego, mais tempo livre, mais automação, mais eficiência. Só que o brilho dessa promessa esbarra depressa numa pergunta antiga: o que acontece a uma sociedade quando deixa de precisar do esforço humano para funcionar como sempre funcionou?

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As respostas que vieram do desconforto

Foi isso que se sentiu nas reações reunidas pela ‘UNILAD Tech’. Houve quem visse na proposta um caminho para o tédio, quem receasse uma vida sem estrutura, quem perguntasse quem controlaria esse dinheiro e quem suspeitasse que uma abundância produzida por máquinas não resolveria automaticamente os problemas mais humanos. O ruído à volta da ideia mostrou uma coisa simples: a ansiedade sobre a IA já não é apenas laboral. É existencial, doméstica, quotidiana.

No fundo, o desconforto nasce de uma imagem muito concreta. Manhãs sem destino obrigatório. Dias inteiros sem função definida. Tempo livre em excesso, mas sem o contorno que antes lhe era dado pelo trabalho. Aquilo que durante décadas foi vendido como sonho pode começar a soar, de repente, a desorientação.

O mundo que Musk já está a imaginar

Não é a primeira vez que Musk descreve horizontes deste género. Numa conversa publicada em fevereiro no podcast de Dwarkesh Patel, afirmou que, dentro de 36 meses, ou talvez até 30, o lugar economicamente mais atraente para instalar IA será o espaço. A frase parecia saída de uma fantasia tecnológica, mas ajuda a perceber a escala do mundo que ele diz ver aproximar-se: uma infraestrutura de inteligência artificial tão grande, tão exigente e tão central que até a Terra começaria a parecer apertada.

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Essa ambição dá outra luz à proposta do ‘rendimento universal elevado’. Não aparece como uma frase isolada, mas como parte de uma visão muito maior, em que a automação se expande de forma tão profunda que o emprego, tal como o conhecemos, deixa de organizar a sociedade. Primeiro mudam as ferramentas. Depois mudam as empresas. Depois mudam os empregos. E, a certa altura, muda a própria ideia de vida adulta.

O que sobra quando o trabalho sai do centro

Talvez seja isso que torna este debate tão agarrado ao presente. A inteligência artificial ainda não acabou com o trabalho humano em massa, mas a simples hipótese já chega para pôr em causa uma das ideias mais antigas das sociedades modernas: a de que trabalhar é o eixo à volta do qual se constrói quase tudo. Se esse eixo vacilar, não muda apenas a folha salarial. Muda a arquitetura da vida.

Musk olha para esse futuro e vê abundância. Muita gente olha para o mesmo horizonte e vê outra coisa: uma espécie de conforto sem centro, um mundo mais fácil de sustentar materialmente, mas talvez mais difícil de habitar por dentro. E é por isso que a pergunta fica no ar, mesmo depois de terminarem as contas, as previsões e as promessas de eficiência: se a IA fizer o trabalho todo, o que acontece ao resto de nós?

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