Gaza volta às urnas 21 anos depois: o que está em causa na rara eleição em plena guerra

Em Deir el-Balah, no centro da Faixa de Gaza, os eleitores são chamados a escolher um novo conselho municipal na primeira eleição local realizada no enclave em mais de duas décadas, numa tentativa de recuperar alguma forma de governação local

Francisco Laranjeira

Gaza volta este sábado às urnas 21 anos depois, num momento raro e altamente simbólico para um território onde a guerra, a destruição e a paralisia política passaram a dominar quase tudo.

Em Deir el-Balah, no centro da Faixa de Gaza, os eleitores são chamados a escolher um novo conselho municipal na primeira eleição local realizada no enclave em mais de duas décadas, numa tentativa de recuperar alguma forma de governação local em plena devastação. A votação, marcada para este sábado, decorre entre as 7h00 e as 17h00 e envolve cerca de 70 mil eleitores elegíveis, distribuídos por 12 centros eleitorais.

A escolha de Deir el-Balah não é casual. A cidade foi vista pela Comissão Central de Eleições palestiniana como o local mais viável para relançar, ainda que de forma limitada, o processo democrático em Gaza, por ter sofrido menos danos infraestruturais do que outras zonas do enclave. Ainda assim, os sinais da guerra estão por todo o lado. Em dezembro de 2024, forças israelitas bombardearam o edifício da autarquia de Deir el-Balah, matando o então presidente da câmara, Diab al-Jarou, e dez funcionários municipais, apesar de a cidade ter sido classificada pelas próprias autoridades israelitas como ‘zona segura’.

A dimensão histórica da eleição também está no contraste com o que aconteceu desde então. Durante os últimos 21 anos, Gaza foi governada sem este tipo de voto local, num sistema assente em nomeações administrativas sob liderança do Hamas, que controla o enclave desde 2007. A eleição deste sábado representa, por isso, uma rutura com esse modelo e um ensaio muito particular de regresso às urnas num território onde quase tudo se tornou exceção.

A própria Comissão Central de Eleições descreve o sufrágio como parte de um processo mais vasto de eleições locais que também abrange centenas de conselhos na Cisjordânia ocupada, sendo Deir el-Balah o único município de Gaza incluído nesta fase.

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Na prática, os eleitores vão escolher entre quatro listas: Peace and Construction, Deir el-Balah Brings Us Together, Future of Deir el-Balah e Renaissance of Deir el-Balah. O sistema é de listas fechadas: cada uma tem de apresentar pelo menos 15 candidatos, incluindo um mínimo de quatro mulheres. Primeiro, o eleitor escolhe uma lista; depois, vota em cinco nomes dentro dessa mesma lista. Os 15 candidatos mais votados formarão o novo conselho municipal, respeitando a regra de representação feminina.

Apesar da importância política do momento, a campanha tem sido marcada por um discurso muito menos ideológico do que seria de esperar num território profundamente dividido. Nem o Hamas nem a Fatah concorrem com as suas siglas oficiais. Em vez disso, os candidatos surgem sobretudo agrupados em alianças familiares, tribais ou profissionais, tentando apresentar-se como independentes e orientados para serviços concretos. O tema dominante não é a grande política palestiniana, mas o básico: água limpa, eletricidade, saneamento, recuperação urbana e transparência na gestão municipal. A ‘Al Jazeera’ relata que muitos residentes já não querem slogans, querem resultados palpáveis no terreno.

É isso que torna esta eleição tão particular. Votar em Deir el-Balah, em abril de 2026, não é viver uma campanha normal. É ir às urnas num território ainda profundamente marcado pela guerra, com mortos, destruição de infraestruturas, escassez de serviços essenciais e uma população exausta.

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Os últimos relatórios humanitários da OCHA mostram que, mesmo após o cessar-fogo anunciado em outubro de 2025, a violência não desapareceu e a pressão sobre os civis continua elevada, incluindo em zonas centrais de Gaza. Em paralelo, a ONU e a UNRWA continuam a relatar uma crise humanitária profunda, com destruição acumulada, deslocações massivas e dificuldades persistentes no acesso a serviços básicos.

É precisamente por isso que o voto de sábado carrega mais peso simbólico do que poder real imediato. Analistas citados pela ‘Al Jazeera’ e pela ‘Reuters’ avisam que esta eleição isolada não deve ser lida como um teste limpo à popularidade das grandes fações palestinianas, até porque a guerra distorce qualquer avaliação política tradicional. Ainda assim, a votação cruza-se com a luta pela legitimidade entre diferentes centros de poder palestinianos e com o debate internacional sobre o ‘dia seguinte’ em Gaza, incluindo modelos de governação tecnocrática que poderão reduzir ainda mais o espaço político das estruturas tradicionais.

No imediato, porém, o que está em causa é mais simples e mais cru. Para muitos habitantes de Deir el-Balah, esta não é uma eleição sobre grandes alinhamentos partidários, mas sobre saber se o próximo conselho municipal será capaz de melhorar minimamente a vida diária num cenário de ruína. É isso que transforma este regresso às urnas, 21 anos depois, num momento ao mesmo tempo histórico e frágil: uma tentativa de recuperar governação local e alguma ideia de escolha democrática num território onde a guerra continua a impor quase tudo.

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