Gaza volta este sábado às urnas 21 anos depois, num momento raro e altamente simbólico para um território onde a guerra, a destruição e a paralisia política passaram a dominar quase tudo.
Em Deir el-Balah, no centro da Faixa de Gaza, os eleitores são chamados a escolher um novo conselho municipal na primeira eleição local realizada no enclave em mais de duas décadas, numa tentativa de recuperar alguma forma de governação local em plena devastação. A votação, marcada para este sábado, decorre entre as 7h00 e as 17h00 e envolve cerca de 70 mil eleitores elegíveis, distribuídos por 12 centros eleitorais.
A escolha de Deir el-Balah não é casual. A cidade foi vista pela Comissão Central de Eleições palestiniana como o local mais viável para relançar, ainda que de forma limitada, o processo democrático em Gaza, por ter sofrido menos danos infraestruturais do que outras zonas do enclave. Ainda assim, os sinais da guerra estão por todo o lado. Em dezembro de 2024, forças israelitas bombardearam o edifício da autarquia de Deir el-Balah, matando o então presidente da câmara, Diab al-Jarou, e dez funcionários municipais, apesar de a cidade ter sido classificada pelas próprias autoridades israelitas como ‘zona segura’.
A dimensão histórica da eleição também está no contraste com o que aconteceu desde então. Durante os últimos 21 anos, Gaza foi governada sem este tipo de voto local, num sistema assente em nomeações administrativas sob liderança do Hamas, que controla o enclave desde 2007. A eleição deste sábado representa, por isso, uma rutura com esse modelo e um ensaio muito particular de regresso às urnas num território onde quase tudo se tornou exceção.
A própria Comissão Central de Eleições descreve o sufrágio como parte de um processo mais vasto de eleições locais que também abrange centenas de conselhos na Cisjordânia ocupada, sendo Deir el-Balah o único município de Gaza incluído nesta fase.
Na prática, os eleitores vão escolher entre quatro listas: Peace and Construction, Deir el-Balah Brings Us Together, Future of Deir el-Balah e Renaissance of Deir el-Balah. O sistema é de listas fechadas: cada uma tem de apresentar pelo menos 15 candidatos, incluindo um mínimo de quatro mulheres. Primeiro, o eleitor escolhe uma lista; depois, vota em cinco nomes dentro dessa mesma lista. Os 15 candidatos mais votados formarão o novo conselho municipal, respeitando a regra de representação feminina.
Apesar da importância política do momento, a campanha tem sido marcada por um discurso muito menos ideológico do que seria de esperar num território profundamente dividido. Nem o Hamas nem a Fatah concorrem com as suas siglas oficiais. Em vez disso, os candidatos surgem sobretudo agrupados em alianças familiares, tribais ou profissionais, tentando apresentar-se como independentes e orientados para serviços concretos. O tema dominante não é a grande política palestiniana, mas o básico: água limpa, eletricidade, saneamento, recuperação urbana e transparência na gestão municipal. A ‘Al Jazeera’ relata que muitos residentes já não querem slogans, querem resultados palpáveis no terreno.
É isso que torna esta eleição tão particular. Votar em Deir el-Balah, em abril de 2026, não é viver uma campanha normal. É ir às urnas num território ainda profundamente marcado pela guerra, com mortos, destruição de infraestruturas, escassez de serviços essenciais e uma população exausta.
Os últimos relatórios humanitários da OCHA mostram que, mesmo após o cessar-fogo anunciado em outubro de 2025, a violência não desapareceu e a pressão sobre os civis continua elevada, incluindo em zonas centrais de Gaza. Em paralelo, a ONU e a UNRWA continuam a relatar uma crise humanitária profunda, com destruição acumulada, deslocações massivas e dificuldades persistentes no acesso a serviços básicos.
É precisamente por isso que o voto de sábado carrega mais peso simbólico do que poder real imediato. Analistas citados pela ‘Al Jazeera’ e pela ‘Reuters’ avisam que esta eleição isolada não deve ser lida como um teste limpo à popularidade das grandes fações palestinianas, até porque a guerra distorce qualquer avaliação política tradicional. Ainda assim, a votação cruza-se com a luta pela legitimidade entre diferentes centros de poder palestinianos e com o debate internacional sobre o ‘dia seguinte’ em Gaza, incluindo modelos de governação tecnocrática que poderão reduzir ainda mais o espaço político das estruturas tradicionais.
No imediato, porém, o que está em causa é mais simples e mais cru. Para muitos habitantes de Deir el-Balah, esta não é uma eleição sobre grandes alinhamentos partidários, mas sobre saber se o próximo conselho municipal será capaz de melhorar minimamente a vida diária num cenário de ruína. É isso que transforma este regresso às urnas, 21 anos depois, num momento ao mesmo tempo histórico e frágil: uma tentativa de recuperar governação local e alguma ideia de escolha democrática num território onde a guerra continua a impor quase tudo.





