Portugal tornou-se o primeiro país, na história recente, a operar um submarino convencional sob o gelo do Ártico, num feito que está agora a ser seguido com atenção pelo Canadá. As adaptações feitas pela Marinha portuguesa ao ‘NRP Arpão’ durante esta missão inédita, indicou a ‘Euronews’, estão a ser estudadas por Otava, que pretende incorporá-las na sua futura frota de submarinos.
A operação decorreu entre abril e junho de 2024, no âmbito da missão da NATO Brilliant Shield, e levou o ‘Arpão’ a navegar em águas glaciais na zona da Gronelândia, onde permaneceu durante um agregado de quatro dias sob a placa de gelo. Portugal entrou, assim, num grupo muito restrito de países que já operaram sob a calota polar, até aqui dominado por potências com submarinos nucleares como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Rússia.
O feito ganha ainda mais peso por ter sido realizado com um submarino convencional, e não com uma plataforma nuclear, que dispõe de maior velocidade e autonomia praticamente ilimitada. No caso do ‘Arpão’, a missão foi possível graças ao sistema AIP, de propulsão independente do ar, que permite ampliar significativamente o tempo de submersão sem necessidade de recorrer a ar fresco para carregar baterias.
A missão obrigou a uma preparação exigente ao longo de sete meses. A Marinha portuguesa explica à ‘Euronews’ que o sucesso da operação assentou num estudo aprofundado da área, numa revisão completa dos sistemas do submarino e em adaptações materiais específicas. Entre elas estiveram a instalação de um sonar de alta frequência, com apoio do Instituto Hidrográfico, e de sensores destinados a detetar gelo, medir a sua espessura e reforçar a segurança da navegação.
Também foram criadas proteções na torre do submarino, desenvolvidas pela Arsenal do Alfeite, para evitar que mastros sensíveis, como o periscópio e o mastro optrónico, colidissem diretamente com placas de gelo. Estas alterações foram vistas como essenciais num teatro de operações onde o risco de emergência é agravado pela dificuldade, ou até impossibilidade, de subir rapidamente à superfície em zonas de cobertura densa.
Um dos momentos mais delicados da missão ocorreu na chamada Zona de Gelo Marginal, área de transição entre a placa de gelo rígida e as águas abertas. Trata-se de um espaço particularmente instável, marcado por gelo fragmentado, ruído ambiental elevado, movimento imprevisível das placas e maior complexidade na deteção e na manobra. A Marinha sublinha que nenhum submarino ocidental se aventurara ali desde a II Guerra Mundial.
A navegação do ‘Arpão’ nessa zona foi considerada um dos pontos altos da missão, ao demonstrar que técnicas ajustadas e sensores adaptados podem transformar uma área tradicionalmente evitada num espaço onde passa a ser possível operar com segurança aceitável. Para a Armada, isso deu liberdade de ação e alargou as opções táticas no combate subaquático no Ártico.
A experiência portuguesa não ficou apenas no plano operacional. A ‘Euronews’ refere que da missão nasceu um manual de navegação no Ártico, no qual foram sistematizadas lições aprendidas sobre preparação multidisciplinar, comportamento acústico, avaliação do gelo e adaptação de procedimentos de segurança. Esse conhecimento está agora a ser analisado pelo Canadá.
O interesse canadiano é direto. Um dos oficiais de ligação a bordo do ‘Arpão’ durante a missão, Harrison Nguyen-Huynh, comandante da Marinha canadiana, elogiou a preparação da guarnição portuguesa e assumiu que a observação do submarino em operações perto, sobre e debaixo do gelo, ajudará o Canadá a modernizar os seus futuros submersíveis. O programa de aquisição em curso prevê até 12 novos submarinos, concebidos para operar nos três oceanos do país e com exigência explícita de capacidade para atuar no ambiente ártico.
Mesmo tratando-se de submarinos convencionais, o desafio financeiro será enorme. Há estimativas que apontam para um custo de dezenas de milhares de milhões de dólares, naquele que poderá vir a ser o maior programa de aquisição militar da história do Canadá. E é precisamente aqui que o exemplo português ganha relevância: as modificações feitas no ‘Arpão’ poderão orientar ajustamentos futuros tanto ao nível da estrutura como do equipamento especializado.
O pano de fundo desta história é um Ártico em rápida transformação. O recuo do gelo marinho, o aumento do tráfego e a crescente militarização da região estão a mudar o cálculo estratégico das potências. A Rússia reforça presença na península de Kola, a China insiste na sua Rota da Seda Polar e a NATO presta cada vez mais atenção ao High North.
Neste contexto, Portugal conseguiu mais do que cumprir uma missão difícil. Mostrou aos aliados que um país com meios mais limitados pode oferecer capacidade operacional diferenciada, conhecimento útil e contributos concretos para a defesa da aliança num dos teatros mais exigentes do mundo. O ‘Arpão’ não provou apenas que era possível chegar ali; provou também que Portugal pode ter um papel mais relevante no Atlântico Norte e no Ártico do que a escala do país poderia fazer supor.




