De ‘Fort Trump’ a ‘Donnyland’: a proposta insólita da Ucrânia para conquistar Trump

Nas negociações de paz entre Ucrânia e Rússia surgiu uma proposta tão improvável quanto reveladora do clima diplomático atual

Francisco Laranjeira

Nas negociações de paz entre Ucrânia e Rússia surgiu uma proposta tão improvável quanto reveladora do clima diplomático atual. Responsáveis ucranianos discutiram a hipótese de chamar ‘Donnyland’ a uma faixa disputada do Donbass, numa referência simultânea à região e a Donald Trump, numa tentativa de levar a administração americana a endurecer a posição face às exigências territoriais de Moscovo.

A ideia, de acordo com a revista ‘TIME’, terá surgido num momento em que Trump era visto como demasiado brando em relação à Rússia e mais inclinado a pressionar Volodymyr Zelensky a aceitar um acordo com concessões relevantes para Kiev. Foi nesse contexto que começou a ser discutido o eventual rebatismo de parte do coração industrial ucraniano, devastado por anos de guerra, como forma de agradar ao presidente americano e tentar influenciar o rumo das conversações.

O Donbass, situado no leste da Ucrânia junto à fronteira com a Rússia, é internacionalmente reconhecido como território ucraniano, apesar de partes da região estarem ocupadas por Moscovo desde 2014. Com a invasão em larga escala lançada em fevereiro de 2022, a presença militar russa alargou-se ainda mais. Vladimir Putin mantém que a campanha só terminará quando a Rússia garantir o controlo total das fronteiras administrativas de Donetsk e Lugansk.

A proposta de ‘Donnyland’ não foi a única hipótese em cima da mesa. Em dezembro, Zelensky sugeriu que partes do Donbass pudessem transformar-se em zonas desmilitarizadas ou áreas económicas livres, embora continuem por resolver questões decisivas, como o grau de poder administrativo e de controlo policial que cada lado teria nesses territórios. Entre os cenários discutidos esteve também a possibilidade de uma administração neutra, um órgão conjunto com representantes russos e ucranianos ou até uma estrutura de supervisão associada a um eventual ‘Board of Peace’ ligado a Trump.

Outra hipótese considerada foi um modelo semelhante ao de Mónaco, em que parte do Donbass se transformaria num miniestado semiautónomo com estatuto económico especial offshore. Ainda assim, nenhuma destas propostas foi formalmente adotada por qualquer das partes.

Continue a ler após a publicidade

A ideia de ‘Donnyland’ nunca passou das conversas informais e não chegou a integrar qualquer proposta escrita. Ainda assim, um negociador ucraniano terá levado a ideia mais longe, ao ponto de criar com recurso ao ChatGPT uma bandeira verde e dourada e até um hino nacional para esse eventual território. Não é claro se as autoridades americanas chegaram a ver esses materiais.

Se a ideia parece insólita, não seria a primeira vez que um país tenta dar o nome de Trump a um projeto ou território. Em 2018, o então presidente da Polónia, Andrzej Duda, sugeriu a criação de uma base militar permanente americana chamada ‘Fort Trump’. A proposta nunca se concretizou com esse nome, embora os Estados Unidos tenham mais tarde reforçado a sua presença militar no país.

Já em 2019, depois de Trump reconhecer a soberania israelita sobre os Montes Golã, Benjamin Netanyahu anunciou a criação de um assentamento chamado ‘Trump Heights’, ou ‘Ramat Trump’ em hebraico. E, no verão passado, Arménia e Azerbaijão assinaram na Casa Branca uma declaração de paz que incluía uma nova rota de transporte batizada ‘Trump Route for International Peace and Prosperity’.

Continue a ler após a publicidade

No caso ucraniano, porém, a proposta tem um peso político mais sensível. Não se trata apenas de um gesto simbólico ou de uma homenagem diplomática, mas de uma ideia discutida no contexto de uma guerra em curso e sobre uma região que continua no centro das exigências russas e das negociações sobre um eventual cessar-fogo.

No fim, ‘Donnyland’ pode nunca passar de uma curiosidade de bastidores. Mas a simples existência da proposta mostra até que ponto o nome e o ego de Trump continuam a ser vistos como fatores que podem pesar nas negociações internacionais mais delicadas do momento.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.