A Alemanha anunciou uma mudança histórica na sua política de defesa ao apresentar a primeira estratégia militar da era pós-Segunda Guerra Mundial. O documento, intitulado “Responsabilidade pela Europa”, marca um novo posicionamento de Berlim no contexto da segurança europeia e da NATO.
De acordo com o Financial Times, o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, afirmou que o país está a “assumir mais responsabilidade” dentro da NATO, sublinhando a necessidade de reforçar rapidamente a prontidão operacional das forças armadas alemãs, a Bundeswehr.
O objetivo é ambicioso: transformar a Alemanha no exército convencional mais forte da Europa. Para isso, o governo pretende aumentar significativamente o número de militares e melhorar a capacidade de resposta das forças armadas.
Esta nova estratégia surge na sequência da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, que levou Berlim a rever profundamente a sua abordagem à defesa. Desde 2022, a Alemanha aumentou de forma expressiva os seus gastos militares e tornou-se o maior fornecedor de armamento à Ucrânia, especialmente após a redução do apoio dos Estados Unidos.
O documento identifica a Rússia como a “maior ameaça imediata” à segurança da Alemanha e da região euro-atlântica, alertando que Moscovo poderá estar a preparar ataques contra países da NATO.
Apesar de considerar os Estados Unidos como um aliado “essencial”, a estratégia reconhece que Washington está cada vez mais focado noutras regiões, como o Indo-Pacífico. Nesse contexto, Berlim defende que as forças europeias devem estar preparadas para atuar com maior autonomia dentro da Aliança Atlântica.
O plano prevê o reforço de capacidades militares críticas, incluindo sistemas de reconhecimento e armas de longo alcance capazes de atingir alvos em profundidade.
A estratégia alemã aponta também para um crescimento significativo das forças armadas. O objetivo é passar dos atuais cerca de 185 mil militares profissionais para cerca de 260 mil. Paralelamente, pretende-se mais do que duplicar o número de reservistas ativos, atingindo aproximadamente 200 mil.
Outro eixo central é a adaptação às novas formas de conflito. O documento destaca o impacto crescente da guerra híbrida, da inteligência artificial e dos sistemas autónomos, sublinhando a necessidade de investir rapidamente em inovação tecnológica para garantir vantagem estratégica.
Apesar do avanço, há críticas internas quanto ao ritmo da reforma militar. Alguns responsáveis políticos consideram que o processo está a decorrer demasiado lentamente.
Especialistas também apontam lacunas na estratégia, nomeadamente a ausência de uma componente industrial clara que sustente um eventual conflito prolongado. Ainda assim, reconhecem que este documento representa um passo importante, tendo em conta a histórica relutância da Alemanha em assumir um papel de liderança na defesa europeia.
Com esta nova estratégia, Berlim dá um sinal claro de que pretende desempenhar um papel mais ativo e determinante na segurança da Europa, num momento de crescente instabilidade geopolítica.



