De Átila, o Huno a Trump: quando os Papas entram em choque com os homens mais poderosos do mundo

O mais recente braço de ferro entre o presidente americano e Leão XIV, relatado pelo ‘POLITICO’, é apenas o episódio mais recente de uma tradição com quase dois mil anos

Francisco Laranjeira

Donald Trump não foi o primeiro chefe de Estado a entrar em rota de colisão com um Papa e, olhando para a história, dificilmente será o último. O mais recente braço de ferro entre o presidente americano e Leão XIV, relatado pelo ‘POLITICO’, é apenas o episódio mais recente de uma tradição com quase dois mil anos: a de líderes políticos, imperadores, ditadores e presidentes a medirem forças com Roma.

Desta vez, o choque nasceu da guerra no Médio Oriente. Leão XIV voltou a insistir na paz e irritou Trump ao declarar que Deus “não escuta as orações de quem faz a guerra” e ao classificar como “inaceitável” a ameaça de destruir “toda uma civilização”. A resposta chegou depressa, com o presidente americano a acusar o Papa de ser fraco no crime e péssimo em política externa, enquanto membros da sua administração procuravam justificar o conflito como uma “guerra justa” travada “em nome de Jesus Cristo”.

O episódio pode parecer extraordinário, mas a verdade é que a Igreja Católica já viu este filme muitas vezes. Muito antes de Trump, já houve Papas a enfrentar bárbaros, imperadores franceses, fascistas, nazis e líderes comunistas. E, em muitos desses confrontos, o Vaticano mostrou que a sua força raramente dependeu de exércitos.

Leão, o original, percebeu isso cedo. O primeiro Papa Leão, que liderou a Igreja entre 440 e 461, ficou para a história pelo encontro com Átila, o Huno. Depois de devastar cidades e avançar pela Europa, o invasor entrou em Itália e tudo parecia apontar para a queda de Roma. Sem tropas para o travar, Leão foi ao seu encontro com aquilo que tinha: autoridade moral, palavra e a ameaça de castigo divino. O historiador grego Prisco conta que Átila recuou. Retirou-se de Itália e morreu menos de um ano depois. Não há muitos líderes modernos que possam dizer que foram comparados, mesmo indiretamente, com um homem que aterrorizou o Império Romano.

Séculos mais tarde, Napoleão Bonaparte também testou os limites da paciência papal. Ainda antes de se tornar imperador, invadiu Itália, derrotou as forças que protegiam os Estados Pontifícios e proclamou a República Romana. Pio VI, já octogenário, opôs-se e acabou preso, deportado para França e morto pouco depois. O sucessor, Pio VII, percebeu rapidamente o tipo de adversário que tinha pela frente e tentou uma convivência pragmática. Chegou até a viajar para Paris para assistir à coroação de Napoleão, engolindo em seco quando este se coroou a si próprio.

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Mas a paz entre ambos durou pouco. Quando o Papa recusou apoiar o bloqueio continental contra os britânicos, Napoleão voltou à carga e mandou prendê-lo. Só que Pio VII era mais novo, mais resistente e teve tempo para assistir à queda do imperador. Depois de Waterloo, regressou triunfalmente a Roma, aclamado como um mártir vivo que sobrevivera ao homem que quis dobrar a Europa.

No século XX, a tensão entre moral, diplomacia e poder ganhou contornos ainda mais delicados com Pio XII. Poucos Papas atravessaram um período tão decisivo e poucos deixaram uma herança tão controversa. Antes de ser eleito, ajudou a negociar o tratado de 1933 entre o Vaticano e a Alemanha, que deu legitimidade ao regime emergente de Adolf Hitler e obrigou parte do clero local ao silêncio perante a perseguição a judeus e outras minorias. Já como Papa, foi duramente criticado por não denunciar de forma mais clara as atrocidades nazis.

Ainda assim, os seus defensores argumentam que essa contenção pública serviu para permitir uma diplomacia discreta que salvou milhares de vidas. Nomeou académicos judeus expulsos das universidades italianas para cargos no Vaticano, ajudou a negociar o acolhimento de refugiados judaicos no Brasil e escondeu milhares de pessoas em mosteiros e conventos de Roma. Mais adiante, o ‘POLITICO’ recorda que, quando morreu, Golda Meir, então ministra dos Negócios Estrangeiros de Israel, o descreveu como um “servo da paz”. A controvérsia, porém, nunca desapareceu: até hoje, continua a dividir quem vê prudência estratégica e quem vê silêncio imperdoável.

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Depois veio a Guerra Fria, e com ela outro tipo de confronto. Após a crise dos mísseis de Cuba, Paulo VI apostou numa política de diálogo com o bloco de Leste, a chamada Ostpolitik. Em vez de manter a linha de choque frontal com os regimes comunistas, preferiu abrir canais, receber líderes soviéticos no Vaticano e enviar emissários para negociar com as autoridades da Polónia, Hungria e Roménia. A estratégia era polémica dentro da própria Igreja, mas acabou por melhorar as condições dos católicos atrás da Cortina de Ferro.

João Paulo II seguiu pelo mesmo caminho, embora num tom mais duro. Procurou manter pontes com Mikhail Gorbachev, ao mesmo tempo que dava apoio moral ao movimento Solidariedade, na Polónia. De um modo ou de outro, ambos mostraram que o Vaticano podia continuar a ser relevante até nas geografias onde o ateísmo de Estado parecia querer expulsá-lo da História.

Já no embate com Trump durante o primeiro mandato do republicano, Francisco escolheu outra via. Em vez de apontar diretamente ao homem, atacou as políticas. Antes da tomada de posse de 2017, disse que “uma pessoa que pensa apenas em construir muros não é cristã”. Mais tarde, o seu porta-voz garantiu que não se tratava de uma referência direta ao presidente americano, mas a fórmula tornou-se quase a assinatura diplomática do pontificado: firmeza moral, cautela política.

Essa estratégia ficou cristalizada numa fotografia já quase icónica. Trump surge sorridente, satisfeito, durante uma visita ao Vaticano. Francisco aparece ao lado, carregado, sério, com a expressão de quem sabe que, por vezes, a paz do mundo exige conviver com quem se preferia manter à distância.

É isso que torna o atual choque entre Trump e Leão XIV simultaneamente novo e antigo. Novo, porque nasce de uma guerra concreta, de uma escalada internacional e de uma linguagem cada vez mais agressiva. Antigo, porque encaixa numa tradição muito mais longa: a de Papas que, perante homens convencidos da sua própria força, tentam lembrar que o poder também tem limites.

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Ao longo de dois mil anos, esses confrontos mudaram de cenário, de protagonistas e de escala. Já passaram por invasões bárbaras, coroações imperiais, ditaduras, guerras mundiais e confrontos ideológicos. Mas a pergunta de fundo continua a mesma: o que acontece quando a autoridade política encontra pela frente uma autoridade moral que se recusa a ficar calada?

Neste caso, como em tantos outros, a História sugere que Roma pode não ter divisões militares, mas nunca deixou de saber escolher as suas batalhas.

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