O Irão voltou a lançar um aviso direto aos Estados Unidos e aumentou os receios de nova escalada militar no Médio Oriente. A poucos dias do fim do cessar-fogo de duas semanas com Washington, Teerão garante que preparou “novas cartas” para usar no campo de batalha caso não seja alcançado um acordo de paz.
A ameaça foi feita por Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e um dos principais negociadores do regime, citado pelo ‘The Independent’.
“Não aceitamos negociações sob a sombra de ameaças e, nas últimas duas semanas, preparámo-nos para revelar novas cartas no campo de batalha”, escreveu na rede X.
Ghalibaf acusou ainda Donald Trump de querer “justificar um regresso à guerra” através de um cerco ao Irão e de violações da atual trégua.
O que são as “novas cartas”?
O regime iraniano não explicou ao certo o que pretende fazer, mas o ‘The Independent’ aponta vários cenários que estão a preocupar governos e mercados.
Fechar um estreito vital para o comércio mundial
Uma das hipóteses mais faladas passa pelo estreito de Bab el-Mandeb, corredor estratégico que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden e ao Oceano Índico.
Aliados do Irão, nomeadamente os rebeldes Houthis no Iémen, já ameaçaram bloquear a passagem se Trump “não mudar de rumo”.
Trata-se de uma rota crítica para comércio global e energia. Segundo dados americanos citados pelo jornal britânico, passaram por ali em 2025 mais de 4 milhões de barris de petróleo por dia, cerca de 6% do total mundial.
Um bloqueio poderia provocar novo choque nos combustíveis, inflação e perturbações logísticas globais.
Ciberataques à água e energia
Outra ameaça séria são os ciberataques.
Agências de segurança dos EUA alertaram para riscos acrescidos em infraestruturas de água potável, saneamento e energia, setores considerados vulneráveis a grupos ligados ao Irão.
Especialistas americanos admitem que uma única intrusão pode interromper sistemas, contaminar redes, danificar equipamentos e abalar confiança pública.
O Irão já foi acusado no passado de ataques informáticos em vários países, embora Teerão negue e acuse também EUA e Israel de operações semelhantes.
Ataques políticos e diplomáticos
O ‘The Independent’ refere ainda que Teerão pode procurar alvos diplomáticos, consulares ou comerciais ligados aos EUA e aos seus aliados.
Entre os cenários discutidos estão também operações contra figuras consideradas estratégicas pelo regime, numa lógica de retaliação pelas mortes de líderes iranianos e altos responsáveis militares durante a guerra.
Nova ofensiva contra energia no Golfo
Outra possibilidade é o regresso dos ataques a infraestruturas energéticas nos países do Golfo.
Segundo estimativas citadas pelo jornal, já terão sido causados 58 mil milhões de dólares (cerca de 54 mil milhões de euros) em danos desde o início da guerra, com refinarias, gasodutos e instalações petrolíferas entre os principais alvos.
A Agência Internacional de Energia indicou ainda que mais de 80 instalações energéticas foram atacadas desde o arranque do conflito, sendo mais de um terço gravemente danificadas.
Trégua por um fio
A trégua entre Washington e Teerão termina esta quarta-feira e continua sem garantias de prolongamento.
Trump insiste que quer um “grande acordo”, mas as palavras vindas de Teerão mostram um ambiente cada vez mais hostil.
Quando o Irão fala em “novas cartas”, a mensagem parece clara: se a diplomacia falhar, a próxima fase pode ser ainda mais perigosa.



