A Amnistia Internacional Portugal assinala as comemorações do Revolução dos Cravos com a criação de uma peça simbólica: a “Eleutéria 25 – A Cadeira da Liberdade”. A iniciativa surge no ano em que se celebram 50 anos da aprovação da Constituição da República Portuguesa e pretende lançar uma reflexão sobre o estado da democracia e dos direitos humanos no mundo.
A cadeira, desenvolvida em parceria com o designer Nuno Lacerda, foi concebida como um objeto instável, “feito para cair”. Segundo João Godinho Martins, diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal, trata-se de uma metáfora clara: qualquer poder que desrespeite os direitos humanos, a liberdade e a democracia não deve ser permanente.
A peça estará exposta durante o desfile de hoje, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, no ponto da organização.
Uma evocação histórica com significado político
A “Cadeira da Liberdade” inspira-se num episódio marcante da história portuguesa. Em 1968, António de Oliveira Salazar caiu alegadamente de uma cadeira, um acontecimento que viria a precipitar o fim da sua liderança e anteceder a queda do regime ditatorial seis anos depois.
A Eleutéria 25 recria simbolicamente esse momento, transformando-o num alerta contemporâneo. A sua instabilidade estrutural representa um “exercício de desequilíbrio calculado”, pensado para traduzir a fragilidade de sistemas políticos que não respeitam os princípios democráticos.
Um alerta para os desafios atuais da democracia
Num contexto global marcado pelo crescimento do autoritarismo, pelo aumento da polarização social e pela normalização de discursos de ódio, a Amnistia Internacional sublinha a importância de manter a vigilância.
João Godinho Martins destaca o papel essencial dos jornalistas na defesa dos direitos humanos, reforçando que iniciativas como esta procuram não apenas celebrar a liberdade, mas também defendê-la ativamente.
A escolha do nome “Eleutéria” reforça essa mensagem. De origem grega, a palavra significa liberdade e remete para o berço da democracia, ligando o passado ao presente num gesto simbólico.
Um símbolo contra a permanência do poder
Cada elemento da cadeira foi pensado para negar conforto e estabilidade. A intenção é clara: demonstrar que o poder não deve ser absoluto nem eterno, sobretudo quando os direitos fundamentais são colocados em causa.
A peça funciona, assim, como um lembrete visual e político de que a democracia exige renovação constante e responsabilidade por parte de quem governa.
Amnistia Internacional e a defesa da liberdade
Fundada há 65 anos, a Amnistia Internacional nasceu com a missão de defender os direitos humanos em todo o mundo. Há relatos que apontam que a sua criação terá sido inspirada por dois estudantes portugueses que brindaram à liberdade durante a ditadura.
Mais de cinco décadas após o 25 de Abril, a organização continua a marcar presença nas ruas. Num cenário em que manifestantes pacíficos enfrentam restrições crescentes em vários países, a Amnistia Internacional considera essencial continuar a proteger a liberdade, os direitos humanos e os valores democráticos – em Portugal e no mundo.




