O Presidente da República, António José Seguro, promove esta quarta-feira uma ronda intensiva de reuniões com todos os parceiros sociais, numa tentativa de desbloquear um acordo sobre as alterações à legislação laboral. O encontro, concentrado num único dia, é visto como um sinal claro de urgência política e surge num momento em que o chefe de Estado procura evitar um eventual veto presidencial, apostando antes na construção de consensos.
A iniciativa reflete a estratégia de Seguro de atuar como mediador, sem substituir os intervenientes diretos no processo. O Presidente já afirmou publicamente que “não se pode substituir aos representantes”, mas tem procurado nos bastidores aproximar posições. A escolha desta data não é inocente: trata-se do primeiro dia totalmente livre após compromissos institucionais, incluindo a visita oficial a Espanha e a deslocação do Presidente do Brasil a Portugal, evidenciando a prioridade atribuída ao tema.
Audiências em sequência e pressão para entendimento
Segundo a Presidência, os encontros decorrem ao longo do dia e seguem uma ordem definida: CGTP-IN, CAP, UGT, CIP, CCP e CTP. O objetivo é ouvir todos os intervenientes no mesmo dia, recolher posições e tentar criar condições para um entendimento alargado na concertação social. A urgência do processo é reforçada pelo contexto político, com o Presidente a tentar garantir estabilidade e previsibilidade num tema sensível para trabalhadores e empregadores.
Esta ronda de contactos dá seguimento a um compromisso assumido anteriormente. Durante uma ação de Presidência Aberta, no início de abril, Seguro foi interpelado por representantes da CGTP, que pediram a sua intervenção para travar o pacote laboral. Na altura, respondeu que iria “marcar muito em breve uma reunião com todos os parceiros sociais, incluindo a CGTP”, promessa que agora cumpre.
Posição firme sobre direitos laborais e possível veto
Ao longo da campanha presidencial, António José Seguro assumiu uma posição crítica em relação à versão inicial das alterações à legislação laboral, tendo mesmo admitido vetar o diploma. Numa resposta escrita anterior, defendeu que o Presidente “deve opor-se” a leis que coloquem em causa direitos fundamentais dos trabalhadores, sublinhando que “a competitividade económica não se constrói com precariedade”.
O chefe de Estado também destacou a importância da concertação social, considerando-a essencial para garantir estabilidade. “A concertação social é fundamental nas sociedades modernas para criar previsibilidade”, afirmou, defendendo que as alterações legislativas não devem ter “marcas ideológicas”, mas antes responder a objetivos concretos. Apesar das reservas, manteve sempre a expectativa de que o diálogo entre Governo, sindicatos e entidades patronais pudesse produzir um acordo.
Expectativa de compromisso para evitar crise política
Embora tenha indicado que poderia não promulgar a lei sem acordo — sobretudo se não houver entendimento com a UGT — Seguro tem agora como prioridade evitar esse cenário, promovendo pontes entre as partes. Questionado durante a campanha, admitiu que um acordo, mesmo que limitado, poderia aproximar a decisão de promulgação, afirmando: “Sim, claro”, quando confrontado com essa hipótese.
A reunião desta quarta-feira é, assim, vista como um momento decisivo para o futuro da legislação laboral em Portugal. Com todas as partes à mesa no mesmo dia, o Presidente aposta numa solução negociada que permita ultrapassar divergências e evitar um impasse institucional.



