Peixes sob efeito de cocaína? Estudo revela comportamento estranho em salmões

A poluição por drogas está a emergir como uma ameaça silenciosa aos ecossistemas aquáticos. De acordo com uma investigação recente, a cocaína presente na água pode modificar o comportamento do salmão e afetar o seu equilíbrio energético.

Patrícia Moura Pinto

A presença de resíduos de cocaína em rios e lagos pode estar a provocar alterações no comportamento do salmão do Atlântico, com possíveis consequências para os ecossistemas aquáticos. A conclusão é de um estudo recente realizado por investigadores suecos.

Segundo o The Guardian, os vestígios de cocaína que chegam aos cursos de água através de descargas de esgotos podem acumular-se no cérebro dos peixes. Esta exposição, mesmo em níveis considerados ambientais, demonstrou ter impacto direto na forma como os salmões se movimentam e se comportam.

Os cientistas observaram que salmões juvenis expostos à droga e ao seu principal metabolito, a benzoilecgonina, nadaram distâncias maiores e dispersaram-se mais amplamente num lago. Estas alterações podem influenciar não só os percursos migratórios, mas também a alimentação e a vulnerabilidade a predadores.

De acordo com o The Guardian, os peixes expostos às substâncias tornaram-se mais ativos, sobretudo nas fases finais do estudo. Em apenas duas semanas, alguns exemplares nadaram até mais 14 quilómetros do que os não expostos.

Este comportamento pode ter consequências negativas. Ao gastar mais energia, os peixes podem precisar de procurar mais alimento, ficando mais tempo expostos a predadores. No caso do lago sueco onde decorreu a investigação, uma das ameaças naturais é o lúcio, um predador de topo.

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O papel do metabolito da cocaína

Um dos aspetos mais surpreendentes do estudo foi o impacto mais significativo do metabolito da cocaína em comparação com a própria droga. Os investigadores sublinham que esta substância está frequentemente presente em concentrações mais elevadas no ambiente, o que pode amplificar os efeitos observados.

Este dado levanta preocupações adicionais sobre a forma como são feitas as avaliações de risco ambiental, já que muitas análises não consideram estes compostos derivados.

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A investigação reforça alertas anteriores sobre o impacto de drogas e medicamentos nos ecossistemas. Substâncias como antidepressivos, ansiolíticos ou metanfetaminas já foram detetadas em várias espécies aquáticas, podendo alterar comportamentos essenciais à sobrevivência.

Apesar disso, os especialistas admitem que ainda existem muitas incertezas. Não é totalmente claro qual será o impacto a longo prazo destas alterações nas populações de peixes e no equilíbrio dos ecossistemas.

Tratamento de águas é crucial

Os investigadores destacam a importância de melhorar a gestão das águas residuais para reduzir a presença destas substâncias no ambiente. Embora os sistemas de tratamento consigam remover parte dos contaminantes, uma das principais fontes continua a ser a descarga direta de esgotos não tratados, frequentemente associada a falhas ou sobrecargas nos sistemas.

O estudo deixa assim um alerta claro: a poluição invisível causada por drogas pode estar a ter efeitos mais profundos do que se pensava na vida aquática, exigindo maior atenção das autoridades e da comunidade científica.

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