Por Pedro Sousa, Sales Management & Enterprise Talent Solutions Director, da Randstad Portugal.
Portugal apresenta hoje uma vitalidade estatística assinalável: a nossa taxa de actividade de 79,1% supera a média da União Europeia em 3,5 pontos percentuais. No entanto, os números são apenas o diagnóstico de superfície; não explicam a fragilidade da estrutura que estamos a sustentar. O mais recente estudo da Randstad Research coloca-nos perante um espelho que exige mais do que a leitura passiva de indicadores, exige que paremos de culpar as estatísticas e assumamos a responsabilidade partilhada de construir uma solução real.
Esta construção depende de um compromisso que o país tem adiado. É necessária uma visão de Estado que vá além do apoio social, focando- se em políticas públicas de reskilling e upskilling que sejam, acima de tudo, ágeis.
O desemprego de longa duração não se resolve com boas intenções, mas com programas de requalificação que permitam a reintegração imediata de profissionais em sectores de futuro. O Estado deve ser o facilitador que garante incentivos e agilidade legislativa para que a formação aconteça ao ritmo do mercado, e não ao tempo da burocracia.
Por outro lado, as empresas têm de abandonar o papel de meras espectadoras que aguardam por “talento pronto”. É fácil apontar o dedo à baixa produtividade quando somos um dos países da UE onde mais se trabalha, com 9,1% dos profissionais a ultrapassarem as 49 horas semanais. Mas a produtividade é uma consequência da eficácia da gestão.
O presenteísmo e os horários infinitos são falhas de organização que as empresas têm o dever de corrigir. As empresas e as suas lideranças devem assumir a responsabilidade de serem as principais arquitectas de talento, criando contextos onde a especialização e o valor acrescentado substituam a exaustão. Ignorar o défice de competências ou as novas expectativas geracionais não é uma opção. As organizações que não construírem hoje esta nova cultura de trabalho terão uma dificuldade crescente em atrair e reter o talento de que necessitam para serem competitivas.
A análise revela ainda uma barreira geracional crítica: o rácio de desemprego jovem em Portugal é de 3,4, muito acima dos 2,5 da média europeia. Este desperdício de potencial, a par da liderança no ranking de baixas qualificações (29,1%), é o resultado de um país que ainda não decidiu se quer competir pelo baixo custo ou pela excelência.
A convergência com a Europa não se faz por decreto.
O país não precisa de profissionais que sacrifiquem mais horas do seu dia; precisa de uma estratégia de requalificação objectiva e de organizações que entendam que a especialização e o equilíbrio são pilares de sustentabilidade.
Don’t blame the numbers.
Os dados estão expostos.
Agora, cabe aos decisores a agilidade de construir a estrutura que o futuro exige, garantindo que a transformação do mercado de trabalho começa, efectivamente, em cada decisão estratégica tomada hoje.
Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 241 de Abril de 2026







