Volodymyr Zelensky voltou a ser colocado no centro de uma nova narrativa de desinformação, desta vez através de imagens geradas por inteligência artificial que o mostram, falsamente, ao lado de Jeffrey Epstein. A ‘Euronews’ escreve que as fotografias estão a ser partilhadas nas redes sociais como se fossem imagens de videovigilância captadas em ambientes privados, numa tentativa de sugerir uma relação próxima entre o presidente ucraniano e o criminoso sexual condenado.
As imagens mostram uma figura semelhante a Zelensky a apertar a mão a Epstein e a conversar com ele, enquanto várias publicações insinuam encontros íntimos e privados na ilha do financeiro desacreditado. Mas, de acordo com a equipa de fact-checking ‘O Cubo’, há vários elementos que desmontam rapidamente essa tese.
Um dos primeiros sinais está na própria origem visual do conteúdo. A ‘Euronews’ submeteu as imagens à plataforma Gemini, da Google, e a ferramenta detetou um SynthID, uma marca de água invisível usada para sinalizar que todo ou parte do conteúdo foi criado ou alterado com ferramentas de IA da Google. Além disso, o aspeto granulado e a baixa qualidade das imagens encaixam num padrão já frequente em conteúdos artificiais que tentam imitar câmaras de vigilância e esconder falhas de composição.
Há depois um problema cronológico que enfraquece ainda mais a alegação. As imagens mostram Zelensky com o visual que se tornou habitual desde a invasão total da Ucrânia pela Rússia, em 2022, incluindo a conhecida t-shirt verde. Epstein, porém, morreu em agosto de 2019, poucos meses depois de Zelensky ter chegado à presidência ucraniana, em maio desse mesmo ano. A leitura sugerida nas redes sociais simplesmente não bate certo no tempo.
Mais do que isso, não há provas credíveis de que ambos alguma vez se tenham encontrado. A ‘Euronews’ refere que analisou os ficheiros de Epstein e que o nome de Zelensky surge apenas ligado a notícias e ao contexto das eleições presidenciais ucranianas de 2019. Não existe, segundo essa verificação, qualquer prova de contacto direto entre os dois.
O caso não é isolado. Já antes outros verificadores de factos tinham desmentido narrativas semelhantes difundidas por canais pró-russos no Telegram, que procuravam ligar Zelensky a Epstein e até ao tráfico de seres humanos. Nesses episódios, as referências ao presidente ucraniano voltavam a aparecer apenas em recortes noticiosos e no contexto eleitoral, sem sustentação factual para as acusações insinuadas.
Mais adiante, a ‘Euronews’ enquadra este caso numa tática mais ampla: a utilização de imagens manipuladas, vídeos adulterados e até peças falsas atribuídas a órgãos de comunicação social reais para espalhar desinformação. A operação Storm-1516 é apontada como um dos exemplos deste tipo de campanha, num esforço coordenado para desacreditar Zelensky e, com isso, fragilizar o apoio europeu à Ucrânia.
O presidente ucraniano não é, aliás, o único alvo. Emmanuel Macron e Nigel Farage também foram implicados em conteúdos semelhantes, igualmente sem provas de encontros ou correspondência direta com Epstein. O padrão repete-se: imagens sugestivas, circulação intensa nas redes e ausência de base factual.
No essencial, este caso mostra como uma imagem convincente já não basta para sustentar uma narrativa. Quando o objetivo é contaminar o debate público, a aparência de prova pode ser tão importante como a prova em si. E é precisamente por isso que este tipo de conteúdos exige cada vez mais contexto, verificação e desconfiança.
Zelensky was reportedly close with Jeffrey Epstein. Newly surfaced security camera footage leaked from Epstein’s properties appears to show the Ukrainian leader spending time on his private island and engaging with him in intimate, non-public settings pic.twitter.com/fCrS3pF3cL
— Dr.Sam Youssef Ph.D.,M.Sc.,DPT. (@drhossamsamy65) April 13, 2026









