Imagens de Zelensky com Epstein são falsas — e há vários sinais que o mostram

Imagens mostram uma figura semelhante a Zelensky a apertar a mão a Epstein e a conversar com ele, enquanto várias publicações insinuam encontros íntimos e privados na ilha do financeiro desacreditado

Francisco Laranjeira

Volodymyr Zelensky voltou a ser colocado no centro de uma nova narrativa de desinformação, desta vez através de imagens geradas por inteligência artificial que o mostram, falsamente, ao lado de Jeffrey Epstein. A ‘Euronews’ escreve que as fotografias estão a ser partilhadas nas redes sociais como se fossem imagens de videovigilância captadas em ambientes privados, numa tentativa de sugerir uma relação próxima entre o presidente ucraniano e o criminoso sexual condenado.

As imagens mostram uma figura semelhante a Zelensky a apertar a mão a Epstein e a conversar com ele, enquanto várias publicações insinuam encontros íntimos e privados na ilha do financeiro desacreditado. Mas, de acordo com a equipa de fact-checking ‘O Cubo’, há vários elementos que desmontam rapidamente essa tese.

Um dos primeiros sinais está na própria origem visual do conteúdo. A ‘Euronews’ submeteu as imagens à plataforma Gemini, da Google, e a ferramenta detetou um SynthID, uma marca de água invisível usada para sinalizar que todo ou parte do conteúdo foi criado ou alterado com ferramentas de IA da Google. Além disso, o aspeto granulado e a baixa qualidade das imagens encaixam num padrão já frequente em conteúdos artificiais que tentam imitar câmaras de vigilância e esconder falhas de composição.

Há depois um problema cronológico que enfraquece ainda mais a alegação. As imagens mostram Zelensky com o visual que se tornou habitual desde a invasão total da Ucrânia pela Rússia, em 2022, incluindo a conhecida t-shirt verde. Epstein, porém, morreu em agosto de 2019, poucos meses depois de Zelensky ter chegado à presidência ucraniana, em maio desse mesmo ano. A leitura sugerida nas redes sociais simplesmente não bate certo no tempo.

Mais do que isso, não há provas credíveis de que ambos alguma vez se tenham encontrado. A ‘Euronews’ refere que analisou os ficheiros de Epstein e que o nome de Zelensky surge apenas ligado a notícias e ao contexto das eleições presidenciais ucranianas de 2019. Não existe, segundo essa verificação, qualquer prova de contacto direto entre os dois.

Continue a ler após a publicidade

O caso não é isolado. Já antes outros verificadores de factos tinham desmentido narrativas semelhantes difundidas por canais pró-russos no Telegram, que procuravam ligar Zelensky a Epstein e até ao tráfico de seres humanos. Nesses episódios, as referências ao presidente ucraniano voltavam a aparecer apenas em recortes noticiosos e no contexto eleitoral, sem sustentação factual para as acusações insinuadas.

Mais adiante, a ‘Euronews’ enquadra este caso numa tática mais ampla: a utilização de imagens manipuladas, vídeos adulterados e até peças falsas atribuídas a órgãos de comunicação social reais para espalhar desinformação. A operação Storm-1516 é apontada como um dos exemplos deste tipo de campanha, num esforço coordenado para desacreditar Zelensky e, com isso, fragilizar o apoio europeu à Ucrânia.

O presidente ucraniano não é, aliás, o único alvo. Emmanuel Macron e Nigel Farage também foram implicados em conteúdos semelhantes, igualmente sem provas de encontros ou correspondência direta com Epstein. O padrão repete-se: imagens sugestivas, circulação intensa nas redes e ausência de base factual.

Continue a ler após a publicidade

No essencial, este caso mostra como uma imagem convincente já não basta para sustentar uma narrativa. Quando o objetivo é contaminar o debate público, a aparência de prova pode ser tão importante como a prova em si. E é precisamente por isso que este tipo de conteúdos exige cada vez mais contexto, verificação e desconfiança.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.