Um único sistema robótico terrestre armado com uma metralhadora conseguiu conter um avanço russo durante 45 dias consecutivos, operando sem presença permanente de soldados no terreno e necessitando apenas de manutenção ligeira e recarga de bateria a cada dois dias. O episódio, revelado por responsáveis militares ucranianos, tornou-se um dos exemplos mais marcantes da transformação tecnológica em curso na guerra.
O feito foi atribuído ao Terceiro Corpo de Exército ucraniano, do qual faz parte a Terceira Brigada de Assalto Separada, unidade que tem vindo a apostar fortemente em sistemas robóticos terrestres. O robô, equipado com armamento automático, manteve a posição durante mês e meio, travando um avanço russo num setor da frente.
O caso foi relatado pela CNN Internacional, que descreve como a Ucrânia tem recorrido de forma crescente a drones e plataformas terrestres não tripuladas para compensar a inferioridade numérica face às forças russas.
Posição capturada sem disparar um único tiro
A aposta na robótica já tinha dado sinais claros no verão passado, quando, segundo Mykola “Makar” Zinkevych, comandante da unidade “NC13” da Terceira Brigada de Assalto Separada da Ucrânia, uma posição inimiga foi tomada sem intervenção direta de infantaria.
“A posição foi tomada sem que um único tiro fosse disparado”, afirmou Zinkevych. De acordo com o comandante, dois soldados russos renderam-se a drones e robôs terrestres operados remotamente por um piloto a quilómetros da linha da frente, num episódio que descreve como a primeira vez na história em que prisioneiros foram capturados exclusivamente por sistemas não tripulados.
Embora a afirmação seja difícil de verificar de forma independente, ilustra a confiança das forças ucranianas na sua capacidade tecnológica.
45 dias a conter o inimigo
O episódio dos 45 dias representa, contudo, um salto qualitativo na utilização destes meios. Segundo o Terceiro Corpo de Exército, o robô armado conseguiu manter o controlo de uma posição estratégica durante esse período, necessitando apenas de intervenções técnicas mínimas e recargas regulares de bateria.
A durabilidade e a resistência operacional destes sistemas são apontadas como fatores decisivos. Ao contrário dos grandes veículos militares, os drones terrestres são mais difíceis de detetar e intercetar. Comparativamente aos drones aéreos, podem operar em praticamente todas as condições meteorológicas, transportar cargas mais pesadas e dispor de maior autonomia energética.
Para Zinkevych, a lógica é clara: “Precisamos de compreender que nunca teremos mais pessoal e nunca teremos uma vantagem numérica sobre o inimigo. Portanto, precisamos de alcançar essa vantagem através da tecnologia.”
O objetivo definido pela unidade passa por substituir até um terço da infantaria por drones e robôs ainda este ano.
Mais de 22 mil missões em três meses
A dimensão da aposta tecnológica foi também sublinhada pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que revelou que drones e sistemas robóticos realizaram mais de 22 mil missões nos últimos três meses.
“Mais de 22 mil vidas foram salvas quando um robô entrou nas áreas mais perigosas em vez de um soldado”, declarou Zelensky, ao destacar os progressos da indústria militar tecnológica do país.
Especialistas internacionais acompanham de perto esta evolução. Robert Tollast, analista de guerra terrestre do Royal United Services Institute, considera que os avanços ucranianos “alimentarão um debate aceso sobre se estes robôs são ou não o futuro da guerra”.
Apesar disso, alerta que estes sistemas poderão ter dificuldades em manter território sem apoio de infantaria, comparando a situação ao uso de tanques isolados. Ainda assim, reconhece que estão “regularmente a salvar vidas de soldados na retirada de feridos, missões perigosas de reabastecimento, desminagem e, cada vez mais, em combate”.
“Isto é crucial numa guerra onde a observação aérea por drones tornou o movimento perto da linha da frente quase fatal”, acrescenta, defendendo que, mesmo em cenários distintos, estes sistemas deverão encontrar aplicações em várias forças armadas.
Estratégia tecnológica para “forçar a Rússia à paz”
Após mais de quatro anos de conflito, a Ucrânia consolidou-se como um dos líderes mundiais no desenvolvimento de drones militares. A nomeação de Mykhailo Fedorov como ministro da Defesa, em janeiro, reforçou essa aposta.
Antigo ministro da Transformação Digital, Fedorov apresentou um plano estratégico que visa “forçar a Rússia à paz”, assente na tecnologia e na utilização intensiva de dados em tempo real. O objetivo passa por identificar todas as ameaças aéreas e intercetar pelo menos 95% de mísseis e drones inimigos, além de criar uma “zona de destruição” entre 15 e 20 quilómetros ao longo da linha da frente, onde sistemas robóticos operem de forma contínua.
Segundo o Ministério da Defesa, cerca de mil equipas já integram o novo programa unificado.
Zinkevych sublinha que o fator decisivo será a capacidade de expansão: “No campo de batalha, o fator decisivo não é quem inventou a tecnologia e descobriu como aplicá-la, mas sim quem conseguiu expandi-la a longo prazo.”
O Instituto para o Estudo da Guerra avaliou recentemente que a superioridade ucraniana em drones “está provavelmente a contribuir para a estagnação dos avanços russos e dos recentes contra-ataques ucranianos”, embora ressalve que nenhum dos lados obteve ainda vantagem decisiva.
Inteligência artificial levanta dúvidas éticas
A próxima fronteira tecnológica é a inteligência artificial aplicada a sistemas não tripulados. A Ucrânia já trabalha no desenvolvimento e treino de modelos de IA com base em dados reais do campo de batalha.
Contudo, Zinkevych manifesta reservas quanto à autonomia total destes sistemas. “A decisão final deve ser sempre tomada por um ser humano”, defende. E questiona: “Confiaria armas à Inteligência Artificial? Como podemos ter a certeza de que será capaz de distinguir um amigo de um inimigo? Como podemos ter a certeza de que não haverá avarias ou que nada correrá mal?”
Ainda assim, o comandante admite que a evolução foi vertiginosa. “Se me ouvisse a falar assim em 2022, diria que era um louco… Era tudo ficção científica.”
Hoje, porém, está convicto da mudança de paradigma: “A vida humana não tem preço, enquanto os robôs não sangram. Com base nisto, defendo que os sistemas robóticos terrestres precisam de ser desenvolvidos muito mais rapidamente, a uma escala muito maior e implementados como um sistema global para utilização no campo de batalha.”





