Gulbenkian/70 Anos:”Este país vai ter uma revolução”, disse diretor da cinemateca francesa em 1973

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Executive Digest com Lusa

*** Ana Mendes Henriques, da agência Lusa ***



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Lisboa, 19 abr 2026 (Lusa) — Em 1973, o diretor da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, vaticinou que Portugal teria uma revolução em breve, após ver a reação do público à exibição do filme “Roma, Cidade Aberta”, de Roberto Rossellini, na Gulbenkian.


“Acabou o filme e antes ainda de se acenderem as luzes, as pessoas começaram a aplaudir [em pé], durante 10 minutos…”, contou à agência Lusa a historiadora Irene Pimentel, que assistiu ao drama de guerra e resistência passado em Roma, durante a ocupação nazi, com o qual a Gulbenkian desafiou a censura.


Irene Pimentel recordou que em Portugal não existiam filmes do realizador neorrealista italiano, devido à proibição do regime, pelo que as cópias foram trazidas pelo diretor da Cinemateca Francesa.

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A exibição decorreu no âmbito de um ciclo de cinema dedicado a Rossellini organizado por João Bénard da Costa, disse a historiadora, em entrevista à Lusa no âmbito dos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian, que se assinalam este ano.


“O diretor da Cinemateca Francesa estava lá a assistir e disse ao Bénard da Costa — Este país vai ter uma revolução. Já estive noutros sítios e, ao ver esta reação… vai ter uma revolução e muito em breve!”, relatou Irene Pimentel.


“Isto passa-se em 73, em novembro, acho eu”, acrescentou a investigadora, para quem a Gulbenkian foi “um escape para a oposição em Portugal”, através da cultura, antes do 25 de Abril de 1974.

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“A Gulbenkian teve ciclos de música, de teatro, de ballet, além das exposições. Foi muito rico”, testemunhou Irene Pimentel, destacando os concertos com grandes maestros, óperas e outros espetáculos, a par de variadas conferências e do estudo científico que a instituição promoveu.


“A importância era de tal maneira que antes do 25 de Abril havia muito aquela ideia de que a Gulbenkian era um ministro da Cultura que não existia em Portugal”, referiu.


No campo das artes, a historiadora recordou um outro episódio que motivou “fricção” com o regime, o caso Béjart.


“Aí houve mesmo uma discussão entre o Perdigão [administrador da Fundação] e o Salazar. O Maurice Béjart tinha uma companhia de ballet do século XX e foi convidado pela Gulbenkian. Por acaso lembro-me, porque tinha bilhetes para o segundo dia” de espetáculo, confessou Irene Pimentel.


“No primeiro dia, o Béjart fez um discurso, penso que foi sobre o fim das guerras coloniais. No dia seguinte já não houve espetáculo, foi preso e levado à fronteira”, prosseguiu.

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“Este aspeto é muito interessante, porque logo a seguir ao 25 de Abril, a Fundação fez questão de convidar outra vez o Maurice Béjart”, sublinhou.


Na opinião da historiadora, a Gulbenkian — embora sem atividade política contra o Estado Novo — acabou por representar “uma revolução silenciosa” através da cultura.


Irene Pimentel recorda-se de a Fundação abrir as portas, perante sessões esgotadas, e de deixar entrar jovens e outras pessoas que assistiam sentadas nas escadas do Grande Auditório à programação que oferecia, proporcionando momentos que constituíram autênticas manifestações silenciosas que muito marcaram quem assistiu a determinados eventos culturais, como o ciclo dedicado a Rossellini.


Outros testemunhos da época, registados em várias fontes, dão conta de que no final da exibição de “Roma, Cidade Aberta” se ouviram gritos de “Liberdade, Liberdade…”.


A liberdade chegaria em breve, conforme vaticinara Langlois, em abril do ano seguinte.


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