Visões apocalípticas de Albrecht Dürer interpretadas por Agustina Bessa-Luís em nova edição

Uma nova edição de “Apocalipse de Albrecht Dürer”, obra atravessada pelo “assombro e a angústia” das gravuras a preto e branco do pintor alemão e pela leitura visionária que delas fez Agustina Bessa-Luís, regressa às livrarias na terça-feira.

Executive Digest com Lusa

Uma nova edição de “Apocalipse de Albrecht Dürer”, obra atravessada pelo “assombro e a angústia” das gravuras a preto e branco do pintor alemão e pela leitura visionária que delas fez Agustina Bessa-Luís, regressa às livrarias na terça-feira.


Obra rara, que articula texto e imagem a partir das gravuras do pintor renascentista alemão sobre as suas visões apocalípticas, interpretadas pela escritora portuguesa Agustina-Bessa Luís (1922-2019), ganha agora uma nova “edição de luxo”, criada pela editora Guerra e Paz.


Originalmente publicado em 1986 pela Guimarães Editores, o livro surge 40 anos depois numa edição enriquecida, em grande formato (30×30), com capa cartonada, com as xilogravuras originais a preto e branco de Albrecht Dürer, a que se juntaram reproduções de versões coloridas da época, pintadas manualmente, provavelmente sob supervisão do artista, atualmente em exposição no Harvard Art Museum.


“Os livros são sonhos perdidos no tempo, e quem primeiro sonhou este ‘Apocalipse’ com Agustina foi, em 1986, Francisco Cunha Leão, editor da Guimarães, casa-mãe da nossa autora”, conta Manuel S. Fonseca, na nota do editor publicada no início do livro.


Juntamente com o ‘designer’ gráfico da Guerra e Paz, Ilídio Vasco, agarrou neste legado “com pinças”, porque queria fazer diferente, mas “com o mesmo rigor”.

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“Decidi voltar, como gosto sempre de voltar, às ‘Meninas’, o primeiro livro que, a mudar o milénio, fiz com Agustina e com a pintora de Paula Rego”, que também tinha formato quadrado, capa cartonada e as mesmas dimensões.


A publicação está integrada nas comemorações dos 20 anos da editora, fundada a 10 de abril de 2006, com o livro “Fama e Segredo na História de Portugal”, também de Agustina Bessa-Luís.


“Há vinte anos, Agustina Bessa-Luís entregava-me, num texto de fantasia operática, o livro que inaugurou a Guerra e Paz editores”, recorda Manuel S. Fonseca, sublinhando que é novamente com a autora que a editora celebra “uma madura idade: vinte anos”.

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Manuel Fonseca destaca ainda que o livro regressa agora “renovado”, numa edição apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, entidade parceira na publicação.


Publicada originalmente há cerca de 40 anos, com uma pequena tiragem, a obra encontra-se fora do mercado há mais de duas décadas.


A reedição resultou de um processo iniciado após o contacto de Mónica Baldaque, filha da autora, e com contributo de Lourença, neta de Agustina, que chamaram a atenção para este texto dedicado às xilogravuras de Dürer, descrito como um exercício visionário de “ler e sentir arte”.


Nesta obra, Agustina Bessa-Luís escreve sobre o “Apocalipse cum figuris” (“Apocalipse com imagens”), uma série de quinze xilogravuras da autoria do pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528), que retratam várias cenas do “Livro do Apocalipse”, ou “Livro da Revelação de João”, o último Livro do Novo Testamento.


Trata-se de um conjunto de imagens marcadas pelo “assombro e a angústia”, num contexto histórico em que o temor da invasão otomana da Europa e a possibilidade de devastação constituíam medos centrais, explica o editor.

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A obra está organizada em quinze capítulos, nos quais cada gravura é comentada por Agustina Bessa-Luís, que contextualiza a época e os seus intervenientes, revelando “um conhecimento profundo da História e da Alma”, esclarece Mónica Baldaque, no prefácio.


As gravuras que acompanham os capítulos representam “O Martírio de São João”, “Visão de Cristo e dos Sete Candelabros”, “São João Ante o Trono de Deus”, “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, “Abertura do Quinto e Sexto Selos”, “O Crisma dos Filhos de Deus”, “A Adoração dos Eleitos no Céu”, “A Abertura do Sétimo Selo”, “A Trombeta do Sexto Anjo”, “São João Devora o Livro”, “A Visão da Mulher e do Dragão”, “São Miguel Luta com o Dragão”, “A Rameira da Babilónia”, “A Besta das Sete Cabeças” e “Satã é Lançado no Abismo”.


“Nem sempre Agustina é amável com Dürer, como é de sua natureza reflexiva e imparcial”, afirma Mónica Baldaque, acrescentando que, se por vezes a mãe “admira as interpretações de Dürer”, como refere no capítulo “A Terra Angular”, noutras vezes considera-as mais fracas, como no capítulo “A Porta”.


Em “A Terra Angular”, Agustina escreve que “a composição de Dürer sobre o sétimo selo é talvez das mais belas, mais solícitas para com a sua arte”, ao passo que no capitulo “A Porta”, considera que “a linguagem apocalíptica é interpretada por Dürer com manifesta dificuldade”.


No capítulo “O Dilúvio”, Agustina “detém-se, com o prazer da análise freudiana, no retrato de Bárbara Holper, a mãe de Dürer, que ele desenha num traço duro e esquemático”, revelando que “por ela não tem um sentimento de amor nem de complacência”, diz ainda Mónica Baldaque.


Nas palavras de Agustina, “Dürer não a poupa, usa até dum realismo que tem algo de vingativo. (…) O que Dürer desenha no retrato de Bárbara é a densa e formidável decepção do filho, tema primordial que serve de motivo ao Apocalipse”.


Mónica Baldaque esclarece ainda que a mãe fez os seus comentários a partir do conhecimento das xilogravuras a preto e branco de Dürer, e não as que foram coloridas e que se apresentam também neste livro.


“A cor, se por um lado retira dramatismo à mensagem apocalíptica, por outro, acrescenta-lhe a teatralidade da linguagem do vitral, vem destacar a expressão vincada pelos traços lineares, que sugerem alucinações”, considera, referindo que assim se acrescenta à leitura, o “reconhecimento visual/poético da paisagem, tão querida do pintor”.


No último capítulo, “Satã”, Agustina é “inexcedível no seu entendimento profético, sobre a presença de Satanás, que é acorrentado por um Anjo, por mil anos”, acrescenta.


“Nada na vida dos homens é divino; o divino começa com o sentido do real, que Satã desencadeia com a desobediência”, escreve Agustina, acrescentando que “Satã não é verdadeiramente punido; só a sua ação é convertida a passos bem medidos e controlados”.


Nesse mesmo capítulo, a autora sublinha a dimensão simbólica da obra, referindo que “o Apocalipse é o Atlas dessa terra onde não há mais mar; isto quer dizer, onde não há mais abismos, nem monstros que neles vivam”.


“Quem leia e siga Agustina ‘não andará nas trevas, mas terá a luz da vida'”, considera Manuel Fonseca, descrevendo a obra como “um livro aberto para a vida” e comparando a escrita da autora com “o grito de uma águia solta pelo espaço”.


Também Mónica Baldaque destaca a dimensão interpretativa da obra, considerando que a “incansável leitora das histórias bíblicas”, que foi Agustina, revisita e transpõe essas interpretações para uma realidade intemporal, na qual “a realidade profunda não muda” e o bem e o mal coexistem como “forças divinas que não se afastam uma da outra”.


A obra “Apocalipse cum figuris” foi ilustrada e gravada por Albrecht Dürer em 1498, quando o pintor tinha apenas 28 anos, em quinze xilogravuras de folha inteira.


O livro de Agustina Bessa-Luís segue a versão portuguesa do texto do “Apocalipse” na tradução de António Pereira de Figueiredo da Congregação do Oratório.


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