A tradicional pint britânica está sob nova pressão e, desta vez, Donald Trump surge no centro da história. O ‘POLITICO’ relata que a combinação entre a guerra com o Irão e o acordo comercial assinado no ano passado entre Reino Unido e Estados Unidos está a aumentar os receios sobre o abastecimento de dióxido de carbono, gás essencial para a produção de cerveja, bebidas gaseificadas e vários alimentos.
A preocupação ganhou visibilidade pública esta semana, quando o secretário do Comércio britânico, Peter Kyle, se viu obrigado a tranquilizar os consumidores sobre uma possível escassez de cerveja. Em causa está a pressão crescente sobre o fornecimento de CO2, um subproduto industrial crucial que depende fortemente de fábricas sensíveis ao custo da energia.
A guerra com o Irão agravou esse risco. Com os preços energéticos a subir e o receio de perturbações mais sérias caso o Estreito de Ormuz volte a ser afetado, as autoridades britânicas já estão a preparar cenários de contingência para o que classificam como uma “situação razoavelmente grave”.
Mas o problema não começou agora. Antes mesmo da escalada no Médio Oriente, o Reino Unido já tinha ficado mais vulnerável por causa do acordo comercial com Washington. Esse entendimento, celebrado por Trump, foi acusado de prejudicar as fábricas britânicas de bioetanol, uma das principais fontes domésticas de CO2.
O resultado foi o encerramento da unidade Vivergo, em Hull, e a suspensão da produção na Ensus, em Teesside. Esta última atribuiu explicitamente a paragem ao acordo entre Londres e Washington, elogiado por Trump numa conferência na Sala Oval.
Para evitar uma crise maior, o Governo britânico avançou no mês passado com um apoio de 100 milhões de libras, cerca de 117 milhões de euros, para reativar a produção na Ensus. Peter Kyle admitiu que a decisão foi tomada precisamente porque o bioetanol produzido naquela fábrica gera CO2 como subproduto, algo considerado crítico para a resiliência do país.
Segundo o ‘POLITICO’, o executivo britânico entendeu, ainda antes de a tensão no Médio Oriente escalar, que era essencial preservar capacidade interna num elo estratégico da cadeia de abastecimento. A fábrica já voltou a operar em pleno, produzindo novamente CO2.
A associação britânica de cerveja e pubs tentou travar alarmismos, garantindo que não conhece problemas iminentes no fornecimento. Ainda assim, deixou claro que se manterá em contacto com o governo para sinalizar qualquer indício de disrupção.
Mais preocupados estão os produtores agrícolas e o setor da carne. O dióxido de carbono é usado para atordoar animais antes do abate e para embalar carne. Por isso, uma eventual escassez pode ter efeitos muito para lá da cerveja, atingindo bem-estar animal, logística agroalimentar e custos para produtores já pressionados.
Especialistas ouvidos pelo ‘POLITICO’ dizem que esta nova ameaça expõe uma vulnerabilidade antiga na base industrial britânica. Recordam que a crise energética associada à guerra na Ucrânia já tinha levado ao encerramento de fábricas-chave, sem que o governo mantivesse apoio estrutural suficiente para preservar essa capacidade estratégica.
A pint britânica tornou-se, assim, símbolo de um problema maior: um país mais dependente, mais exposto a choques externos e agora apanhado entre a instabilidade no Médio Oriente e as consequências de decisões económicas tomadas com Washington.




