A guerra na Ucrânia entrou numa fase de maior tensão internacional, com a Rússia a identificar diretamente empresas europeias como potenciais alvos militares. A decisão, acompanhada por declarações agressivas de altos responsáveis do Kremlin, representa uma mudança significativa na estratégia de Moscovo e levanta preocupações sobre um eventual alargamento do conflito.
A nova escalada foi marcada por uma mensagem do vice-presidente do Conselho de Segurança russo, Dmitri Medvedev, que terminou com um tom provocador dirigido à Europa: “Que durmam bem, parceiros europeus!”.
Pouco depois, o Ministério da Defesa russo divulgou uma lista com mais de vinte empresas de defesa de 12 países europeus, acusadas de colaborar com a Ucrânia, nomeadamente no fornecimento de drones. Entre elas encontra-se a espanhola UAV Navigation, ligada ao Grupo Oesía.
Medvedev foi explícito quanto às implicações dessa lista, ao afirmar que “essa lista de instalações europeias que fabricam drones é uma lista de objetivos potenciais para as nossas Forças Armadas”, acrescentando que o momento de eventuais ataques dependerá da evolução dos acontecimentos.
1. Avanço tecnológico da Ucrânia com drones
Uma das principais razões para esta mudança de postura está no crescente sucesso militar da Ucrânia no uso de drones. Sob a liderança de Volodymyr Zelensky, Kiev tem apostado fortemente nesta tecnologia, conseguindo travar o avanço russo e até recuperar posições estratégicas.
De acordo com dados recentes, os drones ucranianos realizam diariamente mais de 11 mil missões de combate, tendo atingido mais de 150 mil alvos apenas no mês de março. Esta capacidade permitiu mesmo alcançar um marco inédito: a conquista de posições inimigas sem recurso direto a infantaria. Como destacou Zelensky, “um robot foi para as zonas mais perigosas em vez de um soldado”.
Este avanço tecnológico tem aumentado a pressão sobre Moscovo, que vê na indústria europeia um elemento-chave deste sucesso ucraniano.
2. Elevadas perdas militares russas
Outro fator determinante é o desgaste das forças russas após quatro anos de guerra. Estimativas independentes apontam para entre 1,1 e 1,4 milhões de baixas totais desde 2022, incluindo mortos, feridos e desaparecidos.
Nos últimos meses, a situação agravou-se, com o número de perdas a superar a capacidade de recrutamento. A combinação de tropas com formação limitada e a eficácia dos sistemas ucranianos tem contribuído para um cenário descrito por analistas como altamente desgastante para Moscovo.
3. Pressão económica e impacto das sanções
A economia russa começa também a dar sinais de fragilidade. Apesar de ter resistido inicialmente às sanções ocidentais, o crescimento abrandou significativamente, tendo atingido apenas 1% no final de 2025, segundo dados admitidos pelo próprio presidente Vladimir Putin.
Já em 2026, a economia entrou em contração, com uma queda de 1,8% nos primeiros meses do ano. A situação é agravada pelos ataques ucranianos a infraestruturas petrolíferas e portos no Báltico, que reduziram em cerca de 40% a capacidade de exportação de petróleo — uma das principais fontes de receita do país.
4. Mudanças políticas na Europa favorecem Kiev
O contexto político europeu também contribui para a tensão. A queda do governo do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, considerado próximo de Moscovo, poderá desbloquear apoios financeiros importantes para a Ucrânia.
Orbán vinha bloqueando um pacote de ajuda europeia de 90 mil milhões de euros. Com a sua saída e a ascensão de uma liderança mais alinhada com Bruxelas, aumenta a probabilidade de Kiev receber fundos essenciais para sustentar o esforço de guerra, numa altura em que enfrenta risco de falta de financiamento a curto prazo.
5. Crescente descontentamento interno na Rússia
Por fim, o ambiente interno na Rússia também se deteriora. O impacto da guerra, aliado a restrições impostas pelo Kremlin, como cortes de Internet e comunicações móveis, tem alimentado o descontentamento social.
Nos últimos meses, têm surgido manifestações contra o Governo — as mais significativas desde o início do conflito — ainda que reprimidas pelas autoridades. Este contexto interno poderá estar a influenciar a retórica mais agressiva do regime, numa tentativa de desviar atenções e reforçar a posição externa.








