O anúncio de cessar-fogo entre Israel e o Líbano surgiu num momento crítico para as Forças de Defesa de Israel (FDI), cuja capacidade operacional estava sob forte pressão. Segundo o ‘El Confidencial’, o chefe do Estado-Maior israelita, tenente-general Eyal Zamir, alertou por duas vezes nas últimas semanas que, sem reforço urgente de reservistas, o exército “não vai resistir”.
A revelação lança nova luz sobre a decisão anunciada por Donald Trump, que comunicou o acordo entre Israel e Líbano numa altura em que Telavive enfrentava crescentes dificuldades para sustentar várias frentes militares em simultâneo.
Avanço no Líbano… e sinais de desgaste
Nas últimas semanas, Israel avançou por grande parte do sul do Líbano em direção ao rio Litani, cercando Bint Jbeil, bastião histórico do Hezbollah.
Segundo fontes militares israelitas citadas pelo ‘El Confidencial’, unidades de elite destruíram dezenas de infraestruturas ligadas ao grupo xiita em operações rápidas e intensas.
Mas enquanto as tropas progrediam no terreno, aumentavam as dúvidas internas sobre a capacidade de manter a campanha por muito mais tempo.
“Em pouco tempo, as Forças de Defesa de Israel não estarão preparadas para as suas missões de rotina, e o sistema de reservas não resistirá”, avisou Zamir, citado pela imprensa israelita.
Menos reservistas… em plena guerra
O alerta surge apenas um mês depois de o exército ter anunciado uma redução do número de reservistas mobilizados a partir deste ano.
O plano previa baixar o contingente em serviço ativo de 60 mil para 40 mil militares, reduzir convocações anuais e cortar custos estimados em milhares de milhões de shekels.
A intenção oficial era aliviar o desgaste humano após meses de guerra contínua, mas altos responsáveis militares terão contestado a decisão, argumentando que Israel necessita urgentemente de mais 12 mil recrutas, sobretudo para unidades de combate.
Equipamento com falhas e desgaste crescente
Fontes próximas das forças armadas disseram ao ‘El Confidencial’ que o problema não se resume à falta de efetivos.
Reservistas enfrentam dificuldades em conciliar vida familiar, trabalho e estudos com longos períodos de mobilização. Além disso, antigos oficiais relatam que algumas unidades tiveram de operar com coletes defeituosos e outro equipamento com falhas.
Durante o primeiro ano da guerra iniciada após os ataques de 7 de outubro de 2023, soldados acumularam em média 136 dias de serviço. Entre oficiais, esse número subiu para 168 dias.
Apesar disso, em abril algumas convocações voltaram a ser prolongadas para nove semanas, acima das seis habituais, devido à escalada regional.
Crise social e impasse político
O sistema militar israelita depende fortemente do serviço obrigatório e da reserva até aos 51 anos. Contudo, a pressão aumentou com a recusa de parte da sociedade em continuar a suportar guerras prolongadas.
Ao mesmo tempo, mantém-se a polémica em torno dos judeus ultraortodoxos (Haredim), historicamente isentos do serviço militar.
Embora o Supremo Tribunal de Israel tenha decidido acabar com essa isenção em 2024, a medida continua sem aplicação prática.
Segundo números oficiais citados pelo ‘El Confidencial’, entre quase 19 mil convocados ultraortodoxos, apenas 232 se juntaram ao exército, e só 57 em funções de combate.
Opinião pública muda
A tensão também se reflete nas sondagens. Um estudo do Instituto Agam e da Universidade Hebraica de Jerusalém indica que os israelitas que consideram a guerra um fracasso superam em três vezes os que a veem como vitória.
Além disso, quase 70% interpretam o cessar-fogo como uma cedência dos Estados Unidos ao Irão.
O acordo no Líbano pode ter travado uma nova escalada regional, mas expôs outro problema: Israel enfrenta uma crescente fadiga militar, social e política no meio de uma guerra sem fim claro à vista.



