Ucrânia: Medo e guerra empurram soldados russos para bruxaria e misticismo

Em plena guerra na Ucrânia, há soldados russos a procurar proteção… não em armas, mas em feitiços. O recurso ao ocultismo está a crescer na Rússia, impulsionado pelo medo, pela incerteza e pelo desgaste de um conflito que já dura há anos.

Patrícia Moura Pinto

Num cenário marcado pela guerra prolongada na Ucrânia e por dificuldades económicas crescentes, tem vindo a aumentar o recurso a práticas esotéricas entre cidadãos russos, incluindo militares no terreno. Muitos soldados procuram apoio em figuras ligadas ao ocultismo, numa tentativa de lidar com a ansiedade e a instabilidade emocional provocadas pelo conflito.

Cresce a procura por rituais e proteção espiritual

Entre os exemplos mais mediáticos está Natalia Malinovskaya, que se apresenta como bruxa e afirma ter herdado os seus poderes da avó. A partir do seu apartamento em Moscovo, oferece serviços que vão desde feitiços amorosos até rituais de proteção contra energias negativas.

De acordo com o Independent, Malinovskaya afirma receber inúmeros pedidos de soldados, sobretudo preocupados com questões pessoais, como a fidelidade das suas parceiras. No entanto, sublinha que muitos dos rituais só podem ser realizados presencialmente, o que limita a sua aplicação em contexto de combate.

Tradição antiga ganha nova força

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A crescente adesão a práticas místicas não é um fenómeno novo na Rússia. Ao longo da história, crenças populares coexistiram com a religião ortodoxa, mesmo durante períodos de repressão. O interesse pelo ocultismo já tinha aumentado no final do Império Russo e voltou a ganhar força após a queda da União Soviética.

Segundo o Independent, um estudo recente do centro estatal VTsIOM revela que 85% dos russos já experimentaram algum tipo de prática mística. Além disso, quase metade da população acredita que existem pessoas com poderes sobrenaturais ou capacidade de prever o futuro, um aumento significativo face a anos anteriores.

Ansiedade social alimenta crenças sobrenaturais

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Especialistas apontam que o atual contexto geopolítico e económico contribui para este fenómeno. O clima de incerteza e medo leva muitas pessoas a procurar formas alternativas de controlo e segurança emocional.

O próprio estudo do VTsIOM citado pelo Independent indica que, em tempos de ameaça militar e instabilidade global, a crença – independentemente da sua natureza – funciona como um mecanismo de defesa psicológica.

Mercado esotérico em expansão

Este aumento da procura reflete-se também no consumo de produtos ligados ao ocultismo. Vendas de amuletos de proteção, bolas de cristal e objetos como estacas de madeira, alegadamente usadas contra espíritos malignos, registaram um crescimento expressivo no último ano.

Em lojas especializadas de Moscovo, itens como esferas de obsidiana negra são especialmente populares, sendo associados à proteção e segurança. Espaços temáticos, como bares com leituras de tarot, também têm beneficiado desta tendência crescente.

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Igreja Ortodoxa critica fenómeno

Apesar da popularidade, o ressurgimento do ocultismo enfrenta oposição. Líderes religiosos e políticos têm alertado para os riscos associados, incluindo a exploração financeira de pessoas vulneráveis.

O patriarca Kirill, líder da Igreja Ortodoxa Russa, tem sido uma das vozes mais críticas, classificando estas práticas como perigosas e associando-as a forças negativas. Defende inclusivamente medidas para restringir a publicidade de serviços esotéricos.

Um reflexo dos tempos atuais

O aumento do interesse pelo sobrenatural na Rússia parece refletir um contexto mais amplo de instabilidade e incerteza. Entre a guerra, dificuldades económicas e tensões sociais, muitos procuram respostas fora dos caminhos tradicionais.

Segundo o Independent, mais do que uma simples tendência cultural, este fenómeno revela a forma como sociedades em crise recorrem a mecanismos simbólicos para lidar com o medo e a imprevisibilidade do presente.

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