A crise da dívida europeia está a mudar de protagonistas e a deslocar-se das economias periféricas para o centro do continente. Dezasseis anos depois do surgimento do acrónimo PIGS, que identificava os países mais frágeis durante a crise financeira de 2008 e a crise da dívida soberana de 2010, um novo grupo está agora sob pressão: os chamados BIF — Reino Unido, Itália e França, escreve o ‘El Economista’.
O termo, cunhado pelo ‘Financial Times’, reflete uma crescente desconfiança dos mercados em relação a estas três grandes economias europeias, que têm registado uma subida acentuada dos custos de financiamento, num contexto agravado pelo conflito no Médio Oriente.
Desde o final de fevereiro, altura em que a tensão geopolítica se intensificou, as taxas das obrigações a 10 anos destes países subiram cerca de meio ponto percentual, acima da evolução registada em economias como a Alemanha e Espanha. Atualmente, o Reino Unido apresenta rendimentos próximos de 4,7%, enquanto Itália e França se situam em torno de 3,8% e 3,6%, respetivamente. Em contraste, a Alemanha mantém-se perto dos 3%.
Esta evolução sinaliza uma mudança estrutural na perceção de risco dentro da Europa. Países que outrora eram vistos como pilares de estabilidade financeira enfrentam agora dúvidas crescentes quanto à sustentabilidade das suas contas públicas.
O Reino Unido surge como o caso mais pressionado, com um défice de cerca de 4,5% do PIB e uma dívida pública que deverá aproximar-se dos 97% nos próximos anos, segundo projeções oficiais. França apresenta um cenário ainda mais exigente, com um défice estimado em 4,9% e uma dívida que ronda os 118% do PIB. Já Itália, embora com um défice mais contido, continua a registar um dos níveis de dívida mais elevados da Europa, próximo dos 138% do PIB.
Segundo o ‘El Economista’, esta situação levanta preocupações sérias sobre a capacidade destas economias para responder a choques externos e manter a confiança dos investidores. Em alguns círculos, chegou mesmo a ser equacionada a hipótese de países como França ou Reino Unido poderem vir a recorrer ao Fundo Monetário Internacional, um cenário que seria impensável há poucos anos.
A mudança de foco da crise — das economias do sul para algumas das maiores potências europeias — reflete não só o impacto das tensões geopolíticas, mas também fragilidades estruturais acumuladas ao longo dos últimos anos, desde o Brexit no caso britânico até à instabilidade política em França e ao histórico de endividamento em Itália.
O novo acrónimo BIF simboliza assim uma inversão de papéis na Europa, onde antigos motores económicos passam agora a enfrentar os mesmos receios que outrora marcaram a periferia do euro, num momento em que os mercados voltam a testar a resiliência financeira do continente.













