Começa hoje julgamento da administração do Hospital de Santo António acusada por infrações

Arranca hoje um dos processos mais sensíveis na área da gestão hospitalar em Portugal, com o julgamento de vários responsáveis do antigo Centro Hospitalar Universitário de Santo António (CHUSA), no Porto, por alegadas irregularidades na contratação de obras.

Pedro Zagacho Gonçalves

Arranca hoje um dos processos mais sensíveis na área da gestão hospitalar em Portugal, com o julgamento de vários responsáveis do antigo Centro Hospitalar Universitário de Santo António (CHUSA), no Porto, por alegadas irregularidades na contratação de obras. Em causa está um ajuste direto cuja legalidade é contestada por uma investigação da Inspeção-geral das Atividades em Saúde (IGAS), que identificou falhas graves nos procedimentos e levantou dúvidas sobre a transparência do processo.

O processo, que começa esta quarta-feira, visa apurar responsabilidades financeiras do presidente do conselho de administração, do director clínico, de duas vogais e do enfermeiro director do então CHUSA. A ação decorre no Tribunal de Contas (TdC), na sequência de um relatório da IGAS que detetou “não conformidades” num contrato de obras realizado por ajuste directo.

Segundo a investigação, a opção por este tipo de contratação não foi devidamente fundamentada. A IGAS sublinha que “não se mostrou evidenciada” a urgência imperiosa que justificasse o recurso ao ajuste direto, acrescentando ainda que o valor do contrato terá sido definido “unicamente pela entidade adjudicatária”.

O contrato em causa diz respeito à requalificação de um apartamento no edifício do Centro de Genética Médica Jacinto Magalhães, destinado a acolher serviços hospitalares, num valor de 18.290 euros, acrescido de IVA.

Denúncia interna desencadeou investigação
A origem do caso remonta a uma denúncia sobre “alegadas ilegalidades nas regras de contratação pública”, que levou a IGAS a avançar com uma inspeção. As participações foram feitas em abril e maio de 2023 pelo responsável do Serviço de Instalações e Equipamentos (SIE), visando o director do Departamento de Aprovisionamento e Logística (DAL) e o conselho de administração.

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Paralelamente, decorre também uma investigação criminal por suspeitas de participação económica em negócio na Procuradoria-Geral da República.

Dos cinco responsáveis agora levados a julgamento, apenas o então enfermeiro director já não integra a actual administração da Unidade Local de Saúde (ULS) Santo António. Os restantes mantêm funções.

De acordo com o Tribunal de Contas, o Ministério Público imputa-lhes “a prática individual de seis infrações financeiras sancionatórias, com negligência”.

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Processo terá violado regras básicas da contratação pública
O relatório da IGAS é particularmente crítico quanto à forma como o processo foi conduzido. A entidade concluiu que houve “inobservância de diversas regras e procedimentos” e que o circuito interno da instituição não foi respeitado.

Entre as falhas apontadas está o facto de o processo não ter sido registado na plataforma informática habitual nem encaminhado para o serviço competente — o SIE — responsável pelo planeamento e coordenação de obras.

Em vez disso, todo o processo terá sido conduzido pelo Departamento de Aprovisionamento e Logística, numa situação descrita como “inversão de papéis”. Segundo a IGAS, o director deste departamento “apoderou-se” de competências que não lhe pertenciam, concentrando “praticamente todas as responsabilidades e tarefas”.

O relatório acrescenta ainda que esta alteração de competências poderá ter sido determinada pela administração, mas não existe qualquer registo formal dessa decisão.

Falhas no procedimento e dúvidas sobre documentação
Entre as irregularidades identificadas, destacam-se a ausência de convites à apresentação de propostas, a inexistência de caderno de encargos e a falta de aprovação formal das propostas.

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A IGAS refere também que “ficou por apurar” se os serviços facturados correspondem efectivamente ao que foi contratado, levantando dúvidas sobre quantidades, preços e qualidade dos trabalhos executados.

Outro ponto crítico prende-se com a definição do valor do contrato. Segundo o relatório, não há evidências de consultas preliminares a outras empresas, tendo o preço sido fixado apenas pela entidade adjudicatária.

Além disso, um documento datado de fevereiro de 2023, que descreve os trabalhos a realizar, é considerado incoerente pela IGAS, que admite a possibilidade de ter sido “forjado e integrado no procedimento, a posteriori”.

Administração contesta conclusões da inspecção
No contraditório, a administração hospitalar rejeita as conclusões da IGAS. Alega que os regulamentos internos estavam desactualizados devido à fusão que originou o CHUSA e que não existiam procedimentos consolidados à data dos factos.

Sustenta ainda que foram consultadas duas empresas, embora de forma informal, e que a ausência de documentação formal se deveu a dificuldades de relacionamento entre responsáveis de diferentes serviços.

A instituição defende também que o contrato foi classificado como prestação de serviços “por mero lapso de digitalização” e garante que os trabalhos realizados correspondem ao contratado, tendo apresentado imagens como prova.

Recomendações e consequências do relatório
A IGAS concluiu que os factos apurados “poderão constituir factualidade susceptível de configurar infracção financeira”, justificando o envio do relatório ao Tribunal de Contas e ao Ministério Público.

Entre as recomendações deixadas à actual ULS Santo António estão o cumprimento rigoroso das regras de contratação pública, o respeito pelos circuitos internos e a clarificação de competências entre serviços.

Segundo a própria IGAS, estas recomendações já terão sido implementadas.

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