A vitória de Peter Magyar nas eleições na Hungria está a expor uma realidade cada vez mais evidente na Europa de Leste: mais de três décadas após a queda do comunismo, a esquerda continua sem conseguir recuperar terreno político, enquanto a direita — em várias formas — domina o espaço eleitoral, relata o ’20 Minutos’.
O resultado húngaro é particularmente simbólico. Apesar do voto ter sido, em grande medida, contra Viktor Orbán, a vitória acabou por consolidar uma alternativa de direita tradicional, com traços mais duros em áreas como a imigração. Ao mesmo tempo, a esquerda praticamente desapareceu do Parlamento, depois de vários partidos terem recuado para concentrar votos na oposição.
Este cenário não é isolado. Nos países que integraram a esfera soviética — dos Bálticos à Europa Central — a esquerda tem vindo a perder relevância de forma consistente, enquanto partidos conservadores, liberais ou nacionalistas se adaptaram melhor ao novo contexto político e social.
Na Estónia, Letónia e Lituânia, por exemplo, forças de centro-direita dominam o panorama político, enquanto os partidos de esquerda foram reduzidos a papéis marginais ou altamente fragmentados. Em países como Polónia, Hungria e Eslováquia, a tendência repete-se: a influência progressista diminuiu face à ascensão de blocos conservadores ou populistas.
A explicação, defendem especialistas, está profundamente enraizada na história. “É uma cicatriz que permanece latente”, explica o cientista político Edu Bayón ao ’20 Minutos’, sublinhando a rejeição persistente de tudo o que possa ser associado ao comunismo ou ao socialismo. “As sociedades são muito relutantes em abraçar qualquer coisa que lembre a esquerda.”
Essa memória histórica continua viva. Grande parte da população adulta cresceu sob regimes comunistas ou sob forte influência soviética, o que condiciona a forma como interpreta conceitos políticos atuais. A esquerda, muitas vezes, ainda é vista como herdeira direta desses sistemas.
Mais adiante, o ’20 Minutos’ reforça que esta rejeição não é apenas ideológica, mas também geracional e cultural. “A história de um país reverbera no presente”, explica o analista Daniel Gil, lembrando que a transição após a queda do Muro de Berlim e da União Soviética foi abrupta e profundamente disruptiva.
A liberdade política e económica passou, assim, a ser associada a valores liberais ou até neoliberais, frequentemente defendidos por partidos de direita. Ao mesmo tempo, questões como a segurança das fronteiras — particularmente sensíveis em países com um passado de ocupações — reforçam o apelo de discursos conservadores.
Na Hungria, esse contexto é ainda agravado pelo legado dos últimos Governos de esquerda antes da ascensão de Orbán, marcados por acusações de corrupção e ineficiência, uma imagem que continua a pesar no eleitorado.
O resultado é um desequilíbrio persistente: enquanto a direita se reinventa e consolida, a esquerda continua fragmentada, sem liderança forte e com dificuldade em apresentar uma alternativa credível. “Não conseguiu construir um Estado” no pós-comunismo, resume um dos analistas citados.
Num momento em que a Europa enfrenta novos desafios geopolíticos, da guerra na Ucrânia às tensões com a Rússia, esta tendência ganha ainda mais relevância. A vitória na Hungria não é apenas uma mudança de governo — é mais um sinal de que, no Leste europeu, o passado continua a moldar decisivamente o presente político.












