Imagens de satélite revelam que Irão continua a limitar tráfego no estreito de Ormuz, apesar do cessar-fogo

Novas imagens de satélite revelam que o Irão continua a impor restrições ao tráfego marítimo no estreito de Ormuz, apesar do cessar-fogo alcançado esta semana no conflito no Médio Oriente.

Pedro Zagacho Gonçalves

Novas imagens de satélite revelam que o Irão continua a impor restrições ao tráfego marítimo no estreito de Ormuz, apesar do cessar-fogo alcançado esta semana no conflito no Médio Oriente. A manutenção de um corredor de trânsito controlado pelas forças militares iranianas demonstra que a via estratégica, por onde circula pelo menos um quinto do petróleo bruto e do gás natural liquefeito comercializados a nível mundial, ainda não regressou à normalidade.

A fotografia foi captada na quinta-feira, 9 de abril, pelos satélites Sentinel-1 do programa europeu Copernicus, da Agência Espacial Europeia, e mostra embarcações a atravessar o estreito através de um trajeto supervisionado por Teerão. As imagens reforçam a perceção de que o Irão continua a utilizar o controlo da rota marítima como instrumento de pressão antes de negociações decisivas com os Estados Unidos, previstas para este fim de semana no Paquistão.

Apesar de não se terem registado novos confrontos diretos entre o Irão, os Estados Unidos e Israel desde que foi anunciada a trégua de duas semanas, na terça-feira à noite, o pedido norte-americano para a reabertura segura do estreito ainda não foi concretizado. Israel, entretanto, continuou bombardeamentos no Líbano.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou publicamente a atuação iraniana, afirmando que o país está a fazer “um trabalho muito fraco, desonroso dirão alguns, ao permitir que o petróleo atravesse o estreito de Ormuz” e sublinhando: “Esse não é o acordo que temos!” A reabertura do estreito era apontada por Washington como uma das principais condições associadas à suspensão daquilo que Trump descreveu como “força destrutiva” que estaria a caminho do Irão na noite do cessar-fogo.

Especialistas do setor marítimo indicam que o número de embarcações comerciais que atravessam o estreito aumentou ligeiramente desde o início da trégua, mas continua muito abaixo dos níveis anteriores ao conflito. A empresa de análise de matérias-primas Kpler informou que nove navios cruzaram a rota na quinta-feira, face a cinco no primeiro dia do cessar-fogo. Antes da guerra, a média situava-se em cerca de 138 navios por dia. A empresa prevê que o tráfego se mantenha em aproximadamente 10% do volume pré-conflito.

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A maioria das embarcações que efetuaram a travessia são navios de carga seca, e não petroleiros ou transportadores de gás. Além disso, segundo os analistas, as passagens ocorreram com autorização explícita do Irão.

Um vídeo em timelapse com imagens mensais da Agência Espacial Europeia ao longo dos últimos 12 meses ilustra a eficácia do bloqueio imposto por Teerão no início das hostilidades, no final de fevereiro. O tráfego marítimo praticamente cessou após o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica ter atingido mais de uma dúzia de navios no Golfo Pérsico, numa ação descrita como uma demonstração de firmeza.

Na quinta-feira, o mesmo corpo militar divulgou, através dos meios de comunicação estatais, um novo mapa do estreito que inclui uma “zona perigosa” classificada como “restrita a todo o tráfego”. Segundo as forças iranianas, essa área poderá conter minas navais, um aviso que obriga as embarcações a utilizar um corredor alternativo junto à ilha de Larak, em águas territoriais iranianas.

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O Instituto para o Estudo da Guerra, centro de análise sediado em Washington, considera que o Irão está a adotar várias medidas para reforçar o controlo sobre o tráfego marítimo, com o efeito de manter os preços do petróleo elevados. Numa análise divulgada na sexta-feira, o organismo afirmou que Teerão “está a tomar várias medidas para exercer controlo sobre o tráfego marítimo através do estreito de Ormuz, com o efeito líquido de manter os preços do petróleo elevados”, acrescentando que o país “provavelmente pretende utilizar os preços elevados do petróleo para exercer pressão económica sobre os Estados Unidos e extrair concessões durante as negociações”.

A agência russa Tass noticiou, citando uma fonte iraniana de alto nível não identificada, que o Irão tenciona permitir a passagem de no máximo 15 navios por dia, o que poderá agravar a pressão sobre companhias de navegação com embarcações retidas no Golfo.

A empresa de informação marítima Lloyd’s List alertou que, “independentemente dos acordos de cessar-fogo, a ameaça de ataques diretos contra navios que não cumpram os requisitos do Irão manteve-se em vigor na quarta-feira”. Segundo a publicação, algumas das centenas de navios ancorados no Golfo receberam transmissões radiofónicas em língua inglesa advertindo que, caso tentassem transitar sem autorização, seriam destruídos.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano não respondeu de imediato a um pedido escrito de comentário.

Enquanto o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, classificou o cessar-fogo como resultado de uma “vitória histórica e esmagadora” norte-americana, a manutenção do controlo efetivo do estreito de Ormuz sugere que Teerão continua a dispor de um instrumento decisivo de influência num momento crucial das negociações diplomáticas.

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