A guerra no Irão voltou a fazer disparar os preços dos combustíveis na Europa, mergulhando o continente na sua segunda grande crise energética em menos de cinco anos. Perante o estrangulamento da oferta de petróleo e gás, muitos países europeus aceleraram a instalação de capacidade eólica e solar, com o objetivo de reduzir a exposição aos combustíveis fósseis e estabilizar os preços da eletricidade.
No entanto, os resultados não têm sido uniformes. Apesar de as energias renováveis serem mais baratas de operar do que os combustíveis fósseis, sobretudo em períodos de choque nos mercados de gás, os preços grossistas da eletricidade continuam elevados em vários países. A explicação reside, em grande parte, na forma como o mercado elétrico europeu está estruturado.
Porque é que os preços da eletricidade continuam elevados mesmo com mais renováveis?
Um dos principais fatores é o mecanismo de formação de preços no mercado grossista europeu. A eletricidade é negociada num sistema em que o preço final é determinado pela última — e normalmente mais cara — fonte de energia necessária para satisfazer a procura.
Na prática, mesmo que um país produza grande parte da sua eletricidade a partir de fontes renováveis, como solar e eólica, basta que recorra a uma pequena fatia de gás natural para que seja esse combustível a fixar o preço final da eletricidade.
Como explica Chris Rosslowe, analista sénior de energia da Ember, “não se trata apenas da quantidade de gás que um país utiliza no seu abastecimento elétrico, mas da influência que essa tecnologia tem nos preços da eletricidade”.
Como funciona o sistema europeu de fixação de preços?
O mercado funciona como um copo que precisa de ser cheio a cada hora, representando a totalidade da procura de energia. Primeiro entram as fontes mais baratas — geralmente solar e eólica — depois hidroelétrica e nuclear, e só no fim as mais caras, como gás e carvão.
O problema é que o preço pago por toda a eletricidade corresponde ao custo da última fonte utilizada para completar esse “copo”. Assim, sempre que o gás entra no mix energético, mesmo que em pequena proporção, pode elevar significativamente os preços grossistas.
Estes preços grossistas — aqueles que os fornecedores pagam no mercado diário — influenciam fortemente as tarifas finais pagas pelos consumidores, ainda que estas também dependam de custos de rede e outros encargos.
O que mudou desde a crise energética de 2022?
Após o corte do fornecimento de gás russo à União Europeia em 2022, fábricas reduziram atividade e muitas famílias enfrentaram contas de aquecimento até dez vezes superiores ao habitual. Em resposta, os decisores políticos reforçaram a aposta na produção doméstica de energia renovável, com a meta de ultrapassar os 40% de eletricidade proveniente de fontes renováveis até 2030.
Apesar dos progressos, a dependência residual de combustíveis fósseis continua a ter impacto relevante nos preços.
Porque é que Espanha tem registado melhores resultados?
Espanha é frequentemente apontada como exemplo de sucesso relativo. Em 2021, o gás determinava o preço da eletricidade espanhola em 52% do tempo. Em 2025, após uma forte expansão da capacidade renovável, essa percentagem caiu para 26%.
No primeiro semestre de 2025, o preço grossista espanhol situou-se em cerca de dois terços da média da União Europeia, segundo dados da Ember. Atualmente, mais de 40% da eletricidade espanhola provém do vento e do sol.
“Espanha está a emergir como uma boa aluna” da crise energética provocada pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia, afirma Phuc-Vinh Nguyen, responsável pelo centro de energia do Institut Jacques Delors.
Ainda assim, o sistema espanhol não esteve imune a problemas: no ano passado registou-se um apagão cuja investigação concluiu ter tido múltiplas causas.
Porque é que a Alemanha enfrenta maiores dificuldades?
Apesar de ter instalado mais capacidade renovável do que Espanha, a Alemanha viu o gás determinar os preços da eletricidade com ligeiramente maior frequência em 2025 do que em 2021 — cerca de 35% do tempo.
Isto deve-se, em parte, ao encerramento das centrais nucleares e ao desmantelamento de algumas centrais a carvão, o que aumentou a dependência do gás natural para equilibrar o sistema elétrico.
Também Itália, cuja produção elétrica depende fortemente de combustíveis fósseis — quase metade do mix energético é gás — tem registado preços grossistas elevados nas últimas semanas.
Existe um limiar mínimo de renováveis para evitar choques de preços?
Para proteger totalmente o mercado elétrico europeu de choques nos combustíveis fósseis, os países teriam de satisfazer praticamente toda a procura com fontes de baixo custo operacional, como solar, eólica, hídrica e nuclear.
Ainda assim, especialistas sublinham que a transição não é uma questão de “tudo ou nada”. Cada megawatt adicional de energia solar ou eólica ajuda a reduzir emissões e a mitigar a exposição ao gás.
“Qualquer crise nos mercados de combustíveis fósseis tem impacto direto na Europa”, afirma Frauke Thies, diretora europeia da organização Agora Energiewende. “Os países que investiram mais em renováveis estão, de um modo geral, em melhor posição.”
Que soluções estão em curso?
Estão em desenvolvimento várias reformas para reduzir o peso do gás e do petróleo na formação dos preços. Entre elas, o reforço das interligações elétricas entre países, permitindo partilhar excedentes de produção renovável — por exemplo, canalizando eletricidade excedentária de Espanha para França.
Outra vertente passa pela revisão dos mecanismos de remuneração das renováveis, com o objetivo de estabilizar preços.
Segundo uma análise da Agora Energiewende, uma melhor interligação e otimização dos sistemas poderá gerar poupanças próximas de 600 mil milhões de dólares entre 2035 e 2050.
A experiência recente mostra que investir em energia eólica e solar reduz a vulnerabilidade estrutural da Europa, mas a arquitetura do mercado elétrico continua a determinar até que ponto essas vantagens se refletem nas faturas de eletricidade.





