Catar alerta que guerra com o Irão pode “sair do controlo” nas próximas horas

O Catar lançou esta terça-feira um aviso direto sobre o risco de a guerra com o Irão entrar numa fase irreversível, alertando que o conflito poderá “sair do controlo” nas próximas horas, à medida que se aproximava o prazo imposto pelos Estados Unidos ao regime iraniano.

Pedro Zagacho Gonçalves

O Catar lançou esta terça-feira um aviso direto sobre o risco de a guerra com o Irão entrar numa fase irreversível, alertando que o conflito poderá “sair do controlo” nas próximas horas, à medida que se aproximava o prazo imposto pelos Estados Unidos ao regime iraniano.

Com poucas horas restantes antes de expirar o ultimato norte-americano, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Catar apelou “a todas as partes para encontrarem uma solução” e “uma forma de pôr fim a esta guerra antes que saia do controlo”. Doha sublinhou que ainda existe margem para a diplomacia prevalecer “antes que a situação escale para além do controlo de qualquer parte”.

Em conferência de imprensa em Doha, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Majed al-Ansari, recordou que o Catar tem vindo a alertar desde 2023 para os perigos de uma escalada sem travões. “Temos vindo a avisar desde 2023 que uma escalada não controlada nos levaria a uma situação que não pode ser dominada. E estamos muito perto desse ponto”, afirmou.

Abandonando o tom habitual das declarações diplomáticas, o responsável admitiu preocupação acrescida face ao momento atual. “Estamos profundamente preocupados com tudo o que está a acontecer neste momento e estamos todos à espera do que irá acontecer nas próximas horas”, declarou.

O Catar manifestou apoio aos esforços de mediação liderados pelo Paquistão, bem como a outros mediadores internacionais, com o objetivo de alcançar uma resolução antes de uma escalada definitiva. “Apoiamos os esforços do Paquistão e de outros mediadores para encontrar uma solução antes que a situação ultrapasse o controlo de todos”, frisou.

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Aviso sobre ataques a infraestruturas civis
Numa mensagem dirigida simultaneamente aos Estados Unidos, a Israel e ao Irão, Al-Ansari deixou clara a posição de Doha quanto aos ataques a infraestruturas civis. “Qualquer ataque a infraestruturas civis na região levará a que infraestruturas civis noutros países, incluindo o Catar, sejam também visadas, e por isso opomo-nos a quaisquer ataques a infraestruturas civis por qualquer das partes”, advertiu.

O porta-voz reforçou que os ataques, sobretudo contra infraestruturas energéticas, colocam todos os países em perigo. “Os ataques a infraestruturas civis, especialmente às infraestruturas energéticas, estão a colocar-nos a todos em risco”, afirmou, considerando que estas ações “são completamente inúteis e têm um efeito dominó nos mercados globais de energia”.

Segundo Al-Ansari, os ataques a infraestruturas críticas desde o início da guerra “levaram-nos ao limite” e o Catar não quer assistir a uma intensificação desse cenário. Alertou ainda para os riscos associados à segurança alimentar, hídrica e ambiental, sublinhando que a região está “no limiar desses desafios”.

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Preocupação com instalações nucleares
O diplomata catari deixou também um aviso específico quanto aos riscos nucleares. “É extremamente perigoso quando vemos este tipo de ataques a instalações nucleares. Já vimos isso acontecer na guerra na Ucrânia e estamos agora a ver nesta guerra, o que coloca as populações da região num risco inimaginável”, declarou.

Al-Ansari revelou que Doha mantém comunicação constante com os Estados Unidos, trabalhando “muito de perto com eles, mesmo que nem sempre estejamos totalmente de acordo”. Indicou igualmente que o primeiro-ministro do Catar contactou o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano para deixar claro que “ataques a infraestruturas civis, por qualquer das partes, não devem ser aceites”.

Desde o início do conflito, acrescentou, “todos os dias foi ultrapassada uma linha vermelha”, seja através de ataques a infraestruturas críticas, a alvos civis na região ou pelo facto de países vizinhos terem sido arrastados para a guerra. “Não há vencedores na continuação desta guerra, há apenas derrotados, e o número de derrotados aumenta todos os dias devido às repercussões económicas”, afirmou.

Defesa nacional e Estreito de Ormuz
Embora o Catar não esteja diretamente envolvido nos esforços de mediação liderados pelo Paquistão, apoia essas iniciativas e mantém-se disponível para ajudar. “Mantemo-nos apoiantes e esperançosos de que a desescalada aconteça através do trabalho dos mediadores liderados pelo Paquistão e estamos prontos para ajudar”, disse Al-Ansari, acrescentando que, numa postura defensiva, o país está “absolutamente preparado para qualquer desafio que possa surgir nos próximos dias”.

Questionado sobre a crise no Estreito de Ormuz, o porta-voz considerou que a prioridade deve ser o fim da guerra antes de discutir a gestão daquela rota marítima estratégica. “Este é um estreito aberto, naturalmente aberto, que todos partilhamos e sobre o qual todos devemos ter uma palavra a dizer quanto à sua gestão. Nunca tivemos necessidade de o fazer porque é uma passagem natural utilizada em benefício de todos os povos da região e além dela”, concluiu.

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