A crise do coronavírus provocou uma “tempestade perfeita” de desinformação global online, espionagem cibernética e alarmismo, envolvendo até uma dúzia de Estados, mas principalmente a Rússia e a China, alertam especialistas, em declarações ao ‘The Guardian’.
No seio de uma pandemia que já matou muitas dezenas de milhares de pessoas, os analistas salientam um forte aumento nas campanhas deliberadas de desinformação nas redes sociais, que ocorreram paralelamente às tentativas de ‘hackear’ organizações internacionais na linha de frente da resposta ao coronavírus.
Os responsáveis pelas redes Facebook e Twitter, mas também da Google, vão comparecer no parlamento britânico, na próxima quinta-feira, para responder a questões sobre a disseminação da desinformação sobre o coronavírus.
Um relatório recentemente publicado pela União Europeia, veio acusar a Rússia e a China de atingir cidadãos europeus, durante a pandemia.
“Apesar do potencial impacto grave na saúde pública, fontes oficiais e apoiadas por vários governos, incluindo a Rússia e – em menor grau a China , continuaram a atingir amplamente narrativas de conspiração e desinformação, tanto nas audiências públicas na UE como em todo o mundo”, aponta o relatório.
Na última semana, foram noticiados ataques de ‘hackers’ à Organização Mundial da Saúde (OMS) e às autoridades de saúde dos EUA. A OMS relatou os ataques cibernéticos aumentaram e já se multiplicam por cinco.
Embora parte da atividade tenha sido criminosa ou esteja ligada a empresas de “relações públicas sombrias” que trabalham com governos e extrema direita, outras tentativas de semear discórdia foram feitas à porta dos governos – incluindo mensagens disruptivas para telemóveis nos EUA, sendo que as autoridades americanas culpam a China por estes atos.
Nesse incidente, de acordo com o New York Times, milhões de contas de telemóveis e redes sociais foram bombardeadas com mensagens falsas em março, incluindo uma que dizia que o governo de Donald Trump estava prestes a enviar tropas para impor um bloqueio.
Embora a Rússia e a China tenham sido o foco do escrutínio de alguns dos ataques, outros tiveram origem nos EUA e espelham a desinformação e mentiras propagadas por Trump e alguns dos seus mais proeminentes apoiantes entre os media americanos.
O relatório da UE examinou o material publicado em nove idiomas e descobriu que até os instrumentos verificação de factos estavam a ser enganados com conteúdo falso ou altamente duvidoso que, ainda assim, atingia milhões de pessoas nas redes sociais.
A título de exemplo da eficácia da desinformação, um terço dos cidadãos do Reino Unido acredita que a vodka pode ser usada como desinfetante para as mãos. As teorias da conspiração sobre os postes de telecomunicações 5G que facilitam supostamente potenciam a propagação da covid-19 também foram impulsionadas por atores que procuravam promover narrativas falsas, segundo o relatório.
“No período coberto por este relatório, foi confirmado que fontes pró-Kremlin e os media estatais russos continuam a fazer uma campanha coordenada com o duplo objetivo de minar a UE e a sua resposta à crise e semear a confusão sobre as origens e implicações para a saúde da população da covid-19”, afirma o relatório.
A First Draft, uma organização sem fins lucrativos que investiga a desinformação na Internet, realizou uma análise de 15 mil tweets na semana que se iniciou a14 de abril, usando as hashtags #tedrosresign e #tedrosliedpeopledied, procurando aferir o impacto destas campanhas sobre a OMS.
Cerca de um sexto de uma amostra de 1.200 contas continha a tag #maga, associada aos apoiantes de Trump. “Cerca de 10% das contas que usam hashtags que atacam o diretor geral da OMS foram criadas nos últimos seis meses, a maioria delas em 2020”, apurou a organização.
Ron Deibert, diretor do Citizen Lab da Universidade de Toronto, que estuda ameaças digitais à sociedade civil, disse ao ‘Guardian’ que, embora o aumento de atividades online ‘underground’ refletissem comportamentos e interesses muitas vezes diferentes, juntos representam uma “tempestade perfeita” de desinformação.
“É difícil quantificar o quão difundido é, mas conheço um grupo de analistas de ameaças que rastreia 12 estados-nação e outras organizações, públicas e privadas, que relatam um aumento acentuado”, alertou Deibert, acrescentando que estas campanhas já foram vistas antes, mesmo na era pré-Internet, em torno de, por exemplo, tentativas bem documentadas da Rússia de espalhar desinformação, culpando os EUA pela doença Sida.
“Mas uma combinação de conetividade global e ansiedade amplificou a intensidade da guerra de desinformação sobre Covid-19”, sublinhou o especialista.











